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Nº 16614 de setembro de 202255:16efeméride

As mortes de Gorbachev e de Isabell II

Episódio dedicado às mortes de Mikhail Gorbachev (30 agosto 2022) e Isabel II (8 setembro 2022). Rui Ramos analisa como Gorbachev, último líder soviético (1985-1991), tentou reformar o comunismo através da glasnost e perestroika, mas acabou por provocar involuntariamente o colapso da URSS. Sobre Isabel II, explica o papel político real (não meramente decorativo) da monarquia constitucional britânica e como a rainha representou continuidade e unidade durante 70 anos de profundas transformações sociais.

Ideias principais

  1. Gorbachev foi escolhido aos 54 anos para renovar uma gerontocracia soviética moribunda, após três líderes terem morrido em três anos, mas não escondeu intenções reformistas - foi eleito precisamente para mudar o sistema.
  2. A URSS nos anos 80 era uma economia do terceiro mundo com armas nucleares: exportava petróleo e importava tecnologia, com 70% do orçamento dedicado à defesa e níveis de opacidade tais que o próprio Gosplan não tinha acesso aos números reais do orçamento.
  3. A glasnost destruiu a União Soviética não por expor a economia, mas por permitir que elites locais adoptassem identidades nacionais como nova fonte de legitimidade, fragmentando o império em múltiplas nações que só a repressão mantinha unidas.
  4. Isabel II exerceu poder político real ao escolher directamente primeiros-ministros em 1957 e 1963, ao confirmar a demissão do PM australiano em 1975, e ao manter prerrogativas que, se recusadas, causariam crise constitucional - a monarquia não é meramente decorativa.
  5. A estima por Isabel II não resultou de ser inofensiva ou decorativa, mas de encarnar continuidade, tradição cristã e dever público numa época de mudanças radicais, servindo como símbolo de unidade para quatro nações e elemento de inclusão para comunidades da Commonwealth.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam-se a duas figuras que morreram com poucos dias de diferença no outono de 2022: Mikhail Gorbachev, falecido a 30 de agosto aos 91 anos, e a rainha Isabel II, falecida a 8 de setembro aos 96 anos após sete décadas no trono britânico. O fio condutor é o que torna uma vida historicamente extraordinária e de que modo estas duas personalidades moldaram o mundo que conhecemos.

A análise de Gorbachev parte de uma pergunta de um ouvinte: como foi possível que um reformista chegasse à liderança de um sistema construído para perpetuar a ortodoxia? Os apresentadores explicam que a sua ascensão em 1985 foi, antes de mais, um sinal de exaustão da chamada gerontocracia soviética: os três antecessores tinham morrido em apenas três anos, todos idosos e incapacitados. O Partido Comunista precisava de alguém jovem e enérgico, e foi Yuri Andropov - ele próprio um homem do aparelho repressivo - quem promoveu Gorbachev como número dois. A escolha não foi acidental: toda a liderança soviética sabia que era necessário mudar, porque o sistema estava em colapso silencioso. A União Soviética exportava petróleo e matérias-primas como um país do terceiro mundo, a queda dos preços do petróleo em meados dos anos 80 agravou as finanças do Estado, a guerra do Afeganistão sangrava recursos, e o desastre de Chernobyl em 1986 tornou visível para o mundo a degradação do aparelho produtivo soviético.

Ramos sublinha que Gorbachev não pretendia acabar com o comunismo, mas rejuvenescê-lo através da glasnost e da perestroika, inspirando-se numa mitologia leninista segundo a qual o terror tinha sido uma invenção de Estaline e não uma característica estrutural do regime. A abertura ao debate teve, porém, consequências que ele não antecipou: expôs as divisões dentro da própria liderança e, sobretudo, activou as identidades nacionais dos povos não russos - que eram metade da população soviética - cujas elites locais passaram a buscar legitimidade no nacionalismo em vez de no partido. Ao contrário da China de Deng Xiaoping, que manteve a ditadura política enquanto liberalizava a economia, Gorbachev recusou tanto a via da repressão total como a da reforma económica radical, ficando suspenso entre dois mundos. O resultado foi o colapso do império em 1991. Daí a sua paradoxal impopularidade na Rússia: para os democratas da era Yeltsin, não foi longe o suficiente; para os nacionalistas da era Putin, foi longe demais.

A segunda metade do episódio é dedicada a Isabel II. Os apresentadores rejeitam duas explicações simplistas para a sua estima universal: a de que era popular por ser inócua e sem poder, e a de que era popular por ser muito idosa. Ramos recorda que a rainha exerceu prerrogativas reais concretas, como a escolha de dois primeiros-ministros conservadores em 1957 e 1963, e que confirmou a demissão de um primeiro-ministro australiano em 1975, decisão que alimentou o movimento republicano naquele país. A monarquia britânica não é puramente decorativa: o monarca é parte dos mecanismos de equilíbrio institucional e, sem ele, o próprio Reino Unido - uma união de quatro nações cimentada pela coroa - provavelmente não subsistiria como Estado único.

A estima por Isabel II resulta, na leitura dos apresentadores, de uma função simbólica com poder real. Num período de transformações sem precedente - urbanização, descolonização, diversidade crescente -, ela representava continuidade, ligação ao passado e, em particular, à memória da Segunda Guerra Mundial. Assumiu publicamente a sua fé cristã nas mensagens de Natal e manteve uma disciplina protocolar rigorosa mesmo quando isso lhe custou popularidade, como no episódio da morte da princesa Diana em 1997. Para as comunidades vindas da Commonwealth que se instalaram no Reino Unido, era também um elemento de inclusão, pois já tinha sido a sua rainha antes de emigrarem. A conclusão é clara: Isabel II foi estimada não apesar de ter poder, mas precisamente porque o tinha - um poder simbólico que era, em última análise, constitutivo da identidade política britânica.

Personagens

  • Mikhail Gorbachev
  • Isabel II
  • Leonid Brezhnev
  • Yuri Andropov
  • Konstantin Chernenko
  • Joseph Stalin
  • Nikita Khrushchev
  • Vladimir Lenin
  • Ronald Reagan
  • Margaret Thatcher
  • Aleksandr Yakovlev
  • Boris Yeltsin
  • Vladimir Putin
  • Deng Xiaoping
  • Richard Nixon
  • Luís XIV
  • Jaime VI da Escócia
  • Eduardo VII
  • Harold Macmillan
  • Lord Hume
  • Boris Johnson
  • Winston Churchill
  • Diana Spencer
  • François Mitterrand

Lugares/Países

  • União Soviética
  • Rússia
  • Reino Unido
  • Inglaterra
  • Escócia
  • Irlanda do Norte
  • País de Gales
  • Estados Unidos
  • China
  • Alemanha Oriental
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • Roménia
  • Afeganistão
  • Canadá
  • Austrália
  • Ucrânia
  • Bielorússia
  • Países Bálticos
  • Jamaica
  • África do Sul
  • França
  • Portugal

Épocas

  • Guerra Fria
  • década de 1980
  • década de 1950
  • década de 1970
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 30
  • século XX

Temas

  • comunismo
  • colapso da URSS
  • reforma política
  • monarquia constitucional
  • gerontocracia
  • economia planificada
  • repressão política
  • nacionalismo
  • transparência política
  • poder simbólico
  • religião de Estado
  • tradição e modernidade
  • Commonwealth

Eventos

  • glasnost
  • perestroika
  • desastre de Chernobyl
  • golpe de Estado de 19 de agosto de 1991
  • queda dos preços do petróleo
  • corrida ao espaço
  • lançamento do Sputnik
  • guerra das estrelas
  • revolta de 1956 na Hungria
  • intervenção na Checoslováquia em 1968
  • crise constitucional australiana de 1975
  • morte da Princesa Diana
  • jubileu de Isabel II

Guerras e conflitos

  • Guerra do Afeganistão
  • Guerra Civil Russa
  • Segunda Guerra Mundial