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Nº 14016 de março de 202242:21efeméride

As origens da máfia e das repúblicas soviéticas

O episódio celebra os 50 anos do filme O Padrinho explorando as origens históricas da máfia italiana e americana, desde o sul de Itália no século XIX até à sua expansão nos Estados Unidos através da imigração. Na segunda parte, responde a uma pergunta sobre a formação da URSS em 1922, explicando como Lenin usou o reconhecimento das nacionalidades como estratégia política e como Stalin posteriormente russificou o império soviético.

Ideias principais

  1. A máfia italiana desenvolveu-se no sul de Itália após a unificação de 1860 como forma de resistência e substituição de um Estado central fraco, baseando-se em organizações secretas familiares como a Cosa Nostra siciliana e a Ndrangheta calabresa.
  2. Mussolini quase eliminou a máfia entre 1922 e 1943 através de repressão brutal, mas os Aliados reativaram as redes mafiosas durante a invasão da Sicília em 1943, usando contactos com mafiosos ítalo-americanos como Lucky Luciano.
  3. A Ndrangheta calabresa gera rendimentos estimados em 40 mil milhões de euros anuais (3% do PIB italiano), controlando obras públicas e infiltrando sistematicamente as instituições democráticas italianas até aos dias de hoje.
  4. A URSS foi criada em 1922 como federação de repúblicas porque Lenin usou estrategicamente o reconhecimento das nacionalidades para desestabilizar a República Russa e depois minar os Russos Brancos durante a Guerra Civil, não por convicção federalista genuína.
  5. Stalin inverteu completamente a política de nacionalidades nos anos 30, promovendo a russificação forçada, deportando grupos nacionais suspeitos e transformando a URSS num império russo tradicional, processo que culminou com as anexações de 1939-1940 e só terminou com a descolonização de 1991.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos: as origens e a natureza da máfia italiana e italo-americana, por ocasião do cinquentenário da estreia de *O Padrinho* de Francis Ford Coppola, e a forma como surgiu e se organizou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em resposta a perguntas dos ouvintes sobre a guerra na Ucrânia.

A conversa sobre a máfia começa com uma breve reflexão sobre o filme de Coppola, que Rui Ramos interpreta não tanto como uma história sobre criminosos, mas sobretudo como um estudo sobre a transmissão de autoridade entre gerações - o filho que, apesar de tudo, acaba por ocupar o lugar do pai. Passando à história real, os apresentadores explicam que a palavra "máfia" é uma designação pejorativa cunhada por magistrados e jornalistas no final do século XIX para descrever formas de crime organizado no sul de Itália. As próprias organizações nunca se identificam com esse termo: na Sicília chamam-se Cosa Nostra, na Calábria Ndrangheta e em Nápoles Camorra. O que distingue estas associações do banditismo comum é a sua organização em clãs com base em laços de parentesco, a divisão de territórios reconhecidos entre famílias, uma hierarquia interna, um código de conduta assente na honra masculina e, acima de tudo, a lei do silêncio - a omertá. Funcionam como um Estado paralelo, prestando proteção e arbitrando conflitos numa região onde a autoridade do Estado nunca foi genuinamente aceite, sobretudo após a unificação italiana, que o sul viveu como uma conquista externa. A ditadura de Mussolini quase desmantelou estas organizações através da repressão brutal, mas o desembarque aliado na Sicília em 1943 reativou as redes mafiosas, que os americanos utilizaram como aliados locais. A máfia italo-americana havia entretanto crescido nos Estados Unidos com a vaga de imigração italiana do final do século XIX, tornando-se notória nos anos vinte e trinta com figuras como Al Capone e com as chamadas cinco famílias de Nova Iorque. A sua longevidade explica-se pelos rendimentos colossos que gera - estima-se que só a Ndrangheta movimente o equivalente a 3% do PIB italiano - e pela aura lendária que o cinema e a cultura popular ajudaram a construir.

Na segunda parte, os apresentadores respondem à pergunta sobre as origens da URSS. Rui Ramos recua ao Império Russo, um Estado multinacional em que apenas metade da população era etnicamente russa, com dezenas de grupos nacionais submetidos a um poder que funcionava como um império colonial. Quando o czar abdica em fevereiro de 1917, no contexto da Primeira Guerra Mundial, a nova República Russa herda esse mosaico. Os bolchevistas, liderados por Lenine, aproveitam a fragilidade do governo provisório para prometer paz, autonomia aos sovietes locais e independência às nacionalidades - não por convicção anticolonialista, mas como estratégia para fragmentar o Estado e tomar o poder. Após a revolução de novembro de 1917 e a vitória na Guerra Civil (1918-1921), os bolchevistas recuperam a maior parte do território imperial mas deparam-se com movimentos nacionalistas que eles próprios haviam incentivado. Sem capacidade para os esmagar de imediato, optam por uma política de reconhecimento das línguas, culturas e fronteiras nacionais, chegando a criar alfabetos para línguas apenas orais e a promover uma deliberada desrussificação. É neste contexto que, em 1922, é fundada a União Soviética como federação de repúblicas formalmente autónomas. Contudo, todo o poder real estava centralizado no Partido Comunista em Moscovo. A partir de 1928, com Estaline - ele próprio georgiano -, a tolerância às autonomias é abandonada em paralelo com a coletivização forçada da economia: impõe-se o russo como língua obrigatória, substituem-se alfabetos latinos pelo cirílico e deportam-se grupos nacionais considerados suspeitos. Em 1939-1940, Estaline aproveita a Segunda Guerra Mundial para reconstituir as fronteiras do antigo império, anexando os países bálticos, metade da Polónia e parte da Roménia. Os apresentadores concluem que a dissolução da URSS em 1991 foi, no fundo, um processo de descolonização: aquilo que nascera como uma federação de repúblicas no papel torn

Personagens

  • Francis Ford Coppola
  • Mario Puzo
  • Steven Spielberg
  • George Lucas
  • Martin Scorsese
  • Marlon Brando
  • Dom Vito Corleone
  • Michael Corleone
  • Luke Skywalker
  • Lucky Luciano
  • Al Capone
  • Don Vito Genovese
  • Frank Sinatra
  • Benito Mussolini
  • Lenin
  • Stalin

Lugares/Países

  • Itália
  • Sicília
  • Calábria
  • Campânia
  • Nápoles
  • Estados Unidos
  • Nova Iorque
  • Chicago
  • New Jersey
  • Rússia
  • URSS
  • Ucrânia
  • Bielorússia
  • Arménia
  • Azerbaijão
  • Estónia
  • Geórgia
  • Cazaquistão
  • Kirguísia
  • Letónia
  • Lituânia
  • Moldávia
  • Tajiquistão
  • Turcomenistão
  • Uzbequistão
  • Transcaucásia
  • Piemonte
  • Sardanha
  • Sibéria
  • Ásia Central
  • Cáucaso
  • Polónia
  • Finlândia
  • Alemanha
  • França
  • Grã-Bretanha
  • China
  • Reggio Calabria
  • San Luca
  • Kharkiv
  • Kiev
  • São Petersburgo
  • Moscovo
  • Roménia
  • Espanha
  • Argentina
  • Brasil

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XV
  • década de 1970
  • década de 1980
  • década de 1890
  • década de 1920
  • década de 1930
  • década de 1940
  • década de 1950
  • década de 1960
  • anos 20
  • anos 30
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa 1918-1921

Temas

  • crime organizado
  • cinema
  • imigração
  • revolução
  • totalitarismo
  • nacionalismo
  • federalismo
  • descolonização
  • tráfico de droga
  • prostituição
  • contrabando
  • sindicatos
  • corrupção política
  • extorsão
  • economia paralela
  • mercado negro
  • coletivização
  • russificação
  • identidade nacional

Eventos

  • Unificação italiana
  • Revolução Russa de 1917
  • Formação da URSS em 1922
  • Dissolução da URSS em 1991
  • Invasão da Sicília 1943
  • Invasão da Finlândia 1940
  • Pacto Molotov-Ribbentrop 1939
  • Nova Política Económica de Lenin

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa

Livros citados

  • O Padrinho (Mario Puzo)