Nº 16003 de agosto de 202240:48série especial
Biblioteca básica de História de Portugal 2
Segunda parte da série sobre a biblioteca básica de História de Portugal, centrando-se em 12 obras essenciais sobre os séculos XIX e XX. Rui Ramos apresenta livros fundamentais sobre o liberalismo, a sociedade rural e operária, a Igreja, a imigração para o Brasil, a escravatura, a Primeira República, o Estado Novo e a Revolução de 1974, destacando trabalhos de historiadores como Maria de Fátima Bonifácio, Jaime Reis, Vasco Pulido Valente e António Barreto.
Ideias principais
- Rodrigo da Fonseca e Seca Magalhães foi um liberal genuíno que defendia o pluralismo e a oposição como essenciais ao bom governo, desmistificando a ideia de que não houve verdadeiro liberalismo em Portugal.
- A emigração para o Brasil no século XIX foi o grande elevador social português, estruturando famílias e comunidades e influenciando a cultura patriótica tanto em Portugal como no Brasil.
- A tolerância das elites portuguesas ao tráfico de escravos no início do século XIX derivava do ceticismo quanto à viabilidade da colonização africana, não do interesse colonizador.
- O Estado Novo agigantou deliberadamente a revolta da Marinha Grande de 1934 para justificar a repressão, criando um mito que foi posteriormente apropriado pela oposição comunista, num exemplo de construção histórica a duas mãos.
- A reforma agrária de 1975 no Alentejo não foi um movimento espontâneo das massas, mas foi organizada e dirigida pelo poder militar, sendo este o melhor estudo sobre a dinâmica real da Revolução do 25 de Abril.
Resumo do episódio
Neste episódio comemorativo de aniversário do podcast, Rui Ramos e João Miguel Tavares concluem a lista de 22 livros essenciais sobre a história de Portugal, iniciada no episódio anterior. A conversa percorre agora o arco temporal que vai do século XIX até ao período revolucionário posterior ao 25 de Abril, privilegiando obras académicas que renovaram a forma como se entende a sociedade, a economia e a política portuguesas.
O primeiro livro discutido é a biografia política de Rodrigo da Fonseca Magalhães, escrita por Maria de Fátima Bonifácio, que desmonta a imagem tradicional deste líder liberal como um simples cínico desprovido de convicções. Na leitura de Rui Ramos, Bonifácio demonstra que o estadista, conhecido apenas pelo nome próprio como os políticos populares de hoje, foi um genuíno defensor do pluralismo, acreditando que governar exigia imprensa livre, oposição activa e debate público. A obra serve assim para contrariar a ideia de que o liberalismo nunca lançou raízes em Portugal. De seguida, surge a obra do cardeal Manuel Clemente sobre a Igreja e a sociedade portuguesa entre o liberalismo e a república, que revela como os católicos, perseguidos por sucessivos estados hostis, foram paradoxalmente os grandes construtores de uma sociedade civil autónoma em Portugal, fundando associações, publicando periódicos e criando espaços independentes do poder estatal.
O economista Jaime Reis é apresentado como fundador de uma nova história económica portuguesa, com o seu estudo sobre o atraso económico do país no século XIX, notável pelo rigor metodológico com que utiliza a análise contrafactual para concluir que o atraso dificilmente poderia ter sido evitado. Segue-se um livro de difícil acesso, de Jorge Fernandes Alves, dedicado ao fenómeno dos chamados "brasileiros" - os emigrantes do norte de Portugal que partiam para o Rio de Janeiro, enviavam poupanças para casa e regressavam a construir as célebres casas de brasileiro -, apresentado como o primeiro grande estudo sobre esta corrente migratória que foi simultaneamente elevador social e fonte de patriotismo. João Pedro Marques surge com a sua obra sobre a abolição do tráfico de escravos, que demonstra como as elites portuguesas toleraram esse tráfico não por ambição colonizadora, mas precisamente pelo contrário: o ceticismo quanto à viabilidade de colonizar África levou-as a preferir manter o comércio esclavagista. Vasco Pulido Valente encerra a primeira parte com a sua revisão polémica da Primeira República, argumentando que este regime não foi o polo oposto da ditadura salazarista, mas antes o seu antecedente, ao destruir as instituições e rotinas de um Estado livre.
Na segunda parte, Maria Filomena Mónica aparece com um estudo sobre artesãos e operários entre o final do século XIX e o início do XX, distinguindo-se por tratar estes trabalhadores na sua diversidade e por se interessar pelas suas ideias, organizações e visão do mundo, e não apenas pelas suas condições materiais. José Cutileiro é celebrado pelo seu trabalho de antropologia sobre a sociedade rural alentejana nos anos sessenta, descrita na sua enorme complexidade de classes, famílias, hábitos e tensões, numa época em que já começava a desagregar-se com a emigração e o despovoamento. Fátima Patriarca destrói o mito da revolta da Marinha Grande de 1934 como grande irrupção comunista, mostrando que o acontecimento foi engrandecido a duas mãos pela ditadura, que precisava de justificar a repressão, e pela oposição comunista, que tirava prestígio dessa versão. Manuel Braga da Cruz desmonta a tese do fascismo aplicada ao Estado Novo, ao revelar que a União Nacional era um partido burocrático e subalterno, sem as características de partido armado e revolucionário típicas do fascismo. Manuel de Lucena, exilado anti-salazarista que tentou genuinamente compreender a cultura política do regime, oferece com a sua obra sobre o sistema corporativo uma das leituras mais originais do salazarismo, sugerindo que certas características do regime refletiam traços mais fundos da própria sociedade portuguesa. A lista fecha com António Barreto e a sua anatomia da reforma agrária de 1975, que demonstra como as ocupações de terras no Alentejo, longe de serem movimentos espontâneos, foram organizadas e dirigidas pelo poder militar, tornando-se assim, na opinião de Rui Ramos, o melhor livro escrito sobre a Revolução do 25 de Abril.
Personagens
- Maria de Fátima Bonifácio
- Rodrigo da Fonseca e Seca Magalhães
- Oliveira Martins
- Manuel Clemente
- Jaime Reis
- Pedro Lains
- Nuno Palma
- Jorge Fernandes Alves
- Camilo Castelo Branco
- João Pedro Marques
- Vasco Pulido Valente
- Maria Filomena Mónica
- José Cutileiro
- Gerard Castelo Lopes
- Fátima Patriarca
- Manuel Braga da Cruz
- Manuel de Lucena
- António Barreto
- Salazar
- Marcelo Caetano
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Inglaterra
- África
- Rio de Janeiro
- Alentejo
- Minho
- Marinha Grande
- França
Épocas
- século XIX
- século XVIII
- década de 1830
- década de 1840
- década de 1850
- Primeira República
- Estado Novo
- 25 de Abril de 1974
- década de 1960
- década de 1970
Temas
- liberalismo
- história da Igreja
- história económica
- imigração
- escravatura
- colonialismo
- republicanismo
- classe operária
- sociedade rural
- corporativismo
- reforma agrária
- revolução
- ditadura
- democracia
- sindicalismo
Eventos
- Revolução Liberal de 1834
- Revolução Republicana de 1910
- Revolução do 25 de Abril
- Revolta de 18 de janeiro de 1934
- Reforma Agrária 1974-1976
Guerras e conflitos
- guerras civis dos anos 1830 e 1840
Livros recomendados
- Um Homem Singular - Biografia Política de Rodrigo da Fonseca e Seca Magalhães
- Igreja e Sociedade Portuguesa - Do Liberalismo à República
- O Atraso Económico Português em Perspetiva Histórica
- Os Brasileiros - Imigração e Retorno no Porto Oitocentista
- Os Sons do Silêncio - O Portugal de 1800 e a Abolição do Tráfico da Escravatura
- O Poder e o Povo - A Revolução Republicana de 1910
- Artesãos e Operários - Indústria, Capitalismo e Classe Operária
- Ricos e Pobres no Alentejo - Uma Sociedade Rural Portuguesa
- Sindicatos contra Salazar - A Revolta do 18 de Janeiro de 1934
- O Partido e o Estado no Salazarismo
- A Evolução do Sistema Corporativo Português
- A Anatomia de uma Revolução - A Reforma Agrária em Portugal 1974-1976