← Arquivo

Nº 4306 de maio de 202041:59resposta a ouvintes

Como é que o PCP ganhou tanta força sindical?

O episódio analisa como o PCP conquistou e manteve domínio sindical em Portugal, argumentando que tal deve-se ao Estado Novo que criou sindicatos nacionais únicos posteriormente ocupados pelos comunistas, e aos governos pós-25 de Abril que consagraram a unicidade sindical. Na segunda parte, discute-se a rápida queda de França em 1940, explicada pela superioridade tática alemã (Blitzkrieg) e não por superioridade material, e porque franceses e ingleses esperavam uma guerra longa que favoreceria os Aliados.

Ideias principais

  1. O domínio sindical do PCP deve-se paradoxalmente ao Estado Novo, que criou grandes sindicatos nacionais únicos que os comunistas infiltraram a partir de 1969-70 e ocuparam após o 25 de Abril, beneficiando da lei da unicidade sindical mantida pela Revolução.
  2. A distinção entre fascistas serem ricos e comunistas serem pobres é uma mitologia falaciosa de ambos os extremismos: na realidade, tanto nazis como comunistas apelavam a ressentimentos transversais a várias classes sociais, incluindo operários, classes médias e até sectores das elites.
  3. A França e Inglaterra não foram derrotadas em 1940 por inferioridade material - tinham mais aviões e tanques que a Alemanha - mas por inferioridade táctica e estratégica, não estando preparadas para a coordenação de colunas blindadas com aviação que caracterizou a Blitzkrieg.
  4. A drôle de guerre de oito meses reflectiu estratégias racionais de cada lado: Aliados esperavam porque julgavam ter o tempo a favor e podiam estrangular economicamente a Alemanha; Hitler tinha de atacar porque não podia sustentar uma guerra longa, recorrendo a golpes arriscados sucessivos.
  5. Mesmo a vitória espectacular alemã de maio-junho de 1940 deixou a Alemanha num beco sem saída, com Inglaterra a continuar a guerra e a França nunca totalmente fiável, obrigando Hitler a jogadas cada vez mais arriscadas como a invasão da União Soviética em 1941.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda duas questões distintas: a origem e persistência do domínio do Partido Comunista Português no sindicalismo nacional, e a explicação para a surpreendente e rápida derrota da França perante a Alemanha nazi em 1940.

A conversa começa a partir das comemorações do Primeiro de Maio organizadas pela CGTP em Lisboa, no contexto do confinamento pandémico, que suscitaram polémica mas também revelaram a força política ainda considerável do PCP na área laboral. Rui Ramos argumenta que essa força tem raízes paradoxais: foi o próprio Estado Novo que a tornou possível. A partir de 1933, o regime salazarista construiu grandes sindicatos nacionais integrados numa estrutura corporativa, com meios materiais, sedes e regalias suficientes para atrair trabalhadores urbanos da indústria e dos serviços. Durante décadas, a infiltração comunista nesses organismos foi limitada, porque as direcções sindicais precisavam de homologação governamental. Só com o governo de Marcelo Caetano, a partir de 1968-69, essa exigência caiu, permitindo que o PCP ocupasse progressivamente posições de liderança nos sindicatos. Depois do 25 de Abril de 1974, os governos provisórios entregaram ao PCP o controlo do Ministério do Trabalho e legislaram a unicidade sindical, impedindo a criação de sindicatos concorrentes nas mesmas áreas de actividade. O raciocínio era instrumental: usar o PCP para disciplinar a conflitualidade laboral num período de inflação elevada e instabilidade social. A UGT só surgiu em 1978, após o reconhecimento do pluralismo sindical, mas nunca conseguiu desafiar seriamente a hegemonia da CGTP, em parte porque o sindicalismo entrou em declínio geral e a base que resistiu concentrou-se no sector público e nas empresas de transportes, precisamente onde o PCP continua a dominar.

A segunda parte responde à questão de um ouvinte sobre se os extremismos políticos do século XX correspondiam a classes sociais distintas - os fascistas às classes altas e os comunistas às classes populares. Rui Ramos rejeita esta simplificação, recordando que tanto o fascismo como o comunismo reclamavam para si a representação dos trabalhadores e dos humilhados. Os nazis, por exemplo, identificavam o capitalismo com o judaísmo e denunciavam uma suposta aliança entre capitalistas americanos e bolchevistas soviéticos. A realidade histórica mostra que ambos os movimentos recrutaram em todas as classes sociais, e que operários se revoltaram contra regimes comunistas - como em Kronstadt em 1921 ou na Hungria e na Polónia nos anos 50 - tal como militares aristocratas tentaram derrubar Hitler em 1944.

A terceira temática do episódio é a queda da França em 1940. João Miguel Tavares recorda que, entre setembro de 1939 e maio de 1940, decorreu uma estranha fase de não-guerra - a *drôle de guerre* - durante a qual os aliados esperavam, convictos de que tinham os recursos e o tempo a seu favor, enquanto tentavam asfixiar economicamente a Alemanha. Rui Ramos sublinha que os aliados não estavam em desvantagem material: a Inglaterra produziu nesse ano mais do dobro dos aviões fabricados pela Alemanha, e os tanques franceses eram tecnicamente superiores aos alemães. A vantagem alemã residia na doutrina táctica - a *Blitzkrieg* -, que coordenava colunas blindadas com apoio aéreo e comunicações por rádio, algo impossível na Primeira Guerra Mundial. Os aliados dispersavam os seus blindados como apoio à infantaria, em vez de os concentrar em colunas ofensivas. A ofensiva através das Ardenas, que ninguém esperava, foi quase descoberta por aviões de reconhecimento franceses, mas o alto comando não reagiu a tempo. A paragem alemã que permitiu a evacuação de Dunquerque ficou sem explicação definitiva, embora as vanguardas blindadas alemãs estivessem elas próprias em risco de cerco. Em suma, a vitória alemã resultou de uma combinação de ousadia estratégica, inovação táctica e uma dose considerável de sorte - uma sorte que, como se viria a confirmar na campanha da União Soviética em 1941, não voltaria a repetir-se.

Personagens

  • Francisco Lima
  • Salazar
  • Marcelo Caetano
  • Hitler
  • Trotsky
  • Pétain

Lugares/Países

  • Portugal
  • Alemanha
  • França
  • Inglaterra
  • União Soviética
  • Rússia
  • Polónia
  • Espanha
  • Bélgica
  • Holanda
  • Luxemburgo
  • Noruega
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • Áustria
  • Itália
  • Estados Unidos
  • Japão

Épocas

  • Estado Novo
  • século XIX
  • Primeira República
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 20
  • anos 30
  • 25 de Abril de 1974
  • PREC

Temas

  • sindicalismo
  • comunismo
  • fascismo
  • política laboral
  • corporativismo
  • anarquismo
  • guerra
  • estratégia militar
  • classes sociais
  • ditadura
  • democracia
  • inflação
  • greves
  • repressão política

Eventos

  • 1 de maio
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução de 25 de Abril
  • queda de França
  • invasão da Polónia
  • Tratado de Versalhes
  • Grande Depressão
  • Pacto Nazi-Soviético
  • evacuação de Dunkirk
  • invasão da Noruega
  • levantamento de Kronstadt

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Blitzkrieg