Nº 27409 de outubro de 202446:38resposta a ouvintes
Como era Portugal no tempo do império romano?
O episódio explora a presença romana no território português desde 218 a.C. até à desagregação do Império. Rui Ramos analisa como a romanização transformou profundamente as populações ibéricas através da língua latina, infraestruturas urbanas, cristianismo e cidadania. O debate questiona o mito nacionalista de Viriato, defendendo que os portugueses descendem mais dos romanos romanizados do que dos resistentes lusitanos.
Ideias principais
- A profundidade da romanização é visível no facto de os portugueses ainda falarem uma língua derivada do latim e praticarem o cristianismo, religião do Império, quase dois mil anos depois
- A ocupação romana da Península Ibérica começou em 218 a.C. como campanha militar contra Cartago, mas evoluiu para uma integração cultural e política duradoura de cinco séculos
- A romanização não foi apenas imposição militar mas sobretudo imitação voluntária: as elites locais copiavam costumes romanos para ascender socialmente, num processo comparável à globalização contemporânea
- O mito nacionalista de Viriato como herói português é problemático porque assenta em fontes romanas, Viriato provavelmente nunca esteve no actual território português, e os portugueses descendem mais dos romanizados do que dos resistentes
- A desagregação do Império Romano nos séculos IV-V provocou ruralização, desaparecimento de cidades e ascensão de senhores militares, mas o substrato latino e cristão resistiu às invasões germânicas e árabes
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* parte de uma pergunta de uma ouvinte sobre como era a vida no actual território português durante o Império Romano. Rui Ramos e João Miguel Tavares tomam essa questão como ponto de partida para uma conversa alargada sobre a presença romana na Península Ibérica, desde a chegada dos primeiros exércitos até ao lento desmoronamento do mundo romano nos séculos IV e V.
Os apresentadores começam por sublinhar a profundidade da romanização através de um argumento simples mas poderoso: o português é, na sua essência, latim. Ao contrário de outras línguas que conservam marcas vocabulares ou sintácticas de idiomas anteriores, o português deriva directamente do latim sem grandes vestígios das línguas faladas antes da chegada dos romanos. A isso acresce o facto de o cristianismo, a religião do Império Romano tardio, ter permanecido como religião maioritária dos portugueses até hoje. Estes dois factos, por si sós, dão a medida da intensidade da romanização. Os romanos chegaram à Península Ibérica por volta de 218 a.C., inicialmente para combater as bases cartaginesas aí instaladas, atraídos pelos recursos minerais da região - estanho, cobre, chumbo, ouro e prata - e pela possibilidade de capturar escravos. Com a derrota de Cartago, substituíram os cartagineses nos circuitos comerciais que estes já tinham estabelecido, sobretudo no sul da península.
A expansão romana pelo interior fez-se por uma combinação de força militar, diplomacia e alianças com tribos locais que se digladiavam entre si, num processo que Rui Ramos compara à expansão europeia nas Américas no século XVI. A variedade de populações que habitava a península era enorme - celtas vindos do norte da Europa, grupos de origem mediterrânica, populações berberes aparentadas dos iberos - sem qualquer sentido de unidade entre elas. Os romanos foram também impulsionados pelos seus próprios políticos republicanos, que viam nas conquistas externas uma via para a glória e o poder em Roma. É neste contexto que surge Júlio César, cujo quartel-general numa campanha pelo território entre o Tejo e o Douro terá sido Santarém, e cujo nome está provavelmente na origem de topónimos como Pax Iulia, a actual Beja, e Felicitas Iulia Olisipo, a actual Lisboa.
No que respeita à organização do território, os apresentadores explicam que o actual Portugal estava dividido entre duas províncias romanas: a sul do Douro pertencia à Lusitânia, cuja capital era Mérida, na actual Espanha; a norte do Douro integrava a Hispânia Tarraconense, com capital em Tarragona. A romanização assentou numa rede de cidades - pequenas imitações de Roma, com fórum, termas e anfiteatro - ligadas por estradas pavimentadas e pontes. Cidades como Braga, Santarém e Beja eram sedes administrativas desta estrutura. As populações adoptaram progressivamente o latim, o direito romano, a arquitectura rectangular, a telha, a vinha, a oliveira e o uso da moeda, num processo que não foi apenas de imposição mas também de imitação voluntária, comparável ao que hoje chamamos globalização. Em 212 d.C., o édito do imperador Caracala conferiu cidadania romana a todos os habitantes do Império.
A parte final do episódio é dedicada à figura de Viriato e ao modo como foi construído o seu mito. Rui Ramos argumenta que a identificação dos portugueses com Viriato é, em grande medida, uma construção da época renascentista e depois do nacionalismo do século XIX, quando os estados europeus modernos procuraram heróis antigos que prefigurassem as suas identidades nacionais. O problema é que as virtudes atribuídas a Viriato provêm de fontes romanas, e não há provas de que ele alguma vez tenha estado no território que é hoje Portugal. A conclusão é que os verdadeiros antepassados dos portugueses são sobretudo as populações romanizadas da Península Ibérica e os próprios romanos que para cá vieram - não o chefe lusitano que os portugueses e os espanhóis disputaram simbolicamente entre si durante séculos.
Personagens
- Viriato
- Júlio César
- Pompeu
- Trajano
- Caracalla
- Vercingetorix
- Hermann (Hermínio)
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Roma
- Península Ibérica
- Itália
- Cartago
- Norte de África
- Grécia
- Palestina
- Egito
- França
- Catalunha
- Valência
- Andaluzia
- Extremadura
- Galiza
- Alentejo
- Algarve
- Lusitânia
- Tarragonenses
- Gália
Épocas
- Império Romano
- República Romana
- Antiguidade
- século III a.C.
- século VIII a.C.
- século VI a.C.
- 218 a.C.
- 68 a.C.
- 61 a.C.
- 48 a.C.
- 19 a.C.
- 98 d.C.
- 212 d.C.
- século I
- século II
- século III
- século IV
- século V
- século VII
- século XII
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Renascença
- invasões germânicas
- invasões árabes
Temas
- romanização
- conquista militar
- colonização
- urbanização
- comércio
- mineração
- escravatura
- cidadania
- infraestruturas
- cristianismo
- linguística
- identidade nacional
- arqueologia
- agricultura
- cultura material
- guerras civis
Eventos
- conquista romana da Península Ibérica
- guerras entre Roma e Cartago
- Guerra das Gálias
- édito de Caracalla
- invasões germânicas
- invasões árabes
- formação do Reino Suevo
- desagregação do Império Romano
Guerras e conflitos
- guerras púnicas
- guerras civis romanas
- resistência de Viriato
- campanhas de Júlio César
Livros citados
- Os Lusíadas