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Nº 26721 de agosto de 202436:45análise histórica

Como se explica tanta violência política nos EUA?

O episódio analisa a violência política nos Estados Unidos, em particular os assassinatos de presidentes, comparando-a com a Europa e o Japão. Rui Ramos argumenta que, ao contrário da percepção comum, a violência política americana não é excecional quando comparada com a França, Alemanha, Itália ou Reino Unido nos séculos XIX e XX. O caso mais extremo revelado é o do Japão nos anos 1920-30, onde metade dos primeiros-ministros foram assassinados.

Ideias principais

  1. Os Estados Unidos tiveram quatro presidentes assassinados entre 1865 e 1963, mas a França teve dois presidentes assassinados e várias tentativas no mesmo período, incluindo 31 tentativas contra De Gaulle.
  2. A Europa dos anos 1920-30 conheceu níveis de violência política de massas sem paralelo nos EUA, com milícias fascistas e comunistas a travarem batalhas de rua em Itália, Alemanha, França e Inglaterra.
  3. O terrorismo político na Europa nos anos 1960-80 (ETA, IRA, Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof) foi mais sistemático e organizado do que qualquer equivalente americano, com apoio político significativo.
  4. O Japão apresenta o caso mais extremo de violência política democrática: entre 1921 e 1936, cinco primeiros-ministros foram assassinados por organizações secretas de jovens militares, representando 50% dos que ocuparam o cargo.
  5. A percepção de maior violência americana deve-se em parte à própria cultura popular americana que projecta essa imagem através do cinema, mas a realidade histórica comparada revela que a profusão de armas não explica sozinha a violência política.
  6. As forças de ordem americanas (FBI) mostraram-se eficazes a conter a violência política organizada, evitando o surgimento de movimentos terroristas duradouros como os que existiram na Europa.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem do atentado contra Donald Trump, ocorrido em julho de 2024, para colocar uma questão mais ampla: a violência política nos Estados Unidos é um fenómeno excepcional no mundo ocidental, ou existem países comparáveis - ou até piores - nesse registo? O ponto de partida são os números impressionantes da história americana: quatro presidentes assassinados em menos de cem anos, três feridos em atentados, e uma lista longa de tentativas falhadas.

Rui Ramos começa por relativizar a singularidade americana, lembrando que a França teve dois presidentes assassinados no mesmo período - Sadi Carnot em 1894 e Paul Doumer em 1932 -, e que o general De Gaulle sobreviveu a pelo menos 31 tentativas de assassinato, a mais famosa das quais em agosto de 1962, quando o seu carro foi crivado de balas. Com algum humor, o historiador nota que, se os atiradoresfranceses tivessem melhor pontaria, o balanço gaulês seria ainda mais sombrio. Acrescenta ainda o caso de Pétain, condenado à morte por razões políticas em 1945, como outro sinal do grau de violência política francesa.

Os apresentadores distinguem depois dois conceitos fundamentais: violência sobre políticos e violência com motivação política. A primeira pode ter causas diversas - perturbações mentais, busca de celebridade -, enquanto a segunda pressupõe uma intenção de alterar a ordem política. Neste sentido, evocam o exemplo do assassino de Kennedy, Lee Harvey Oswald, cuja motivação permanece ambígua, e comparam-no à figura do grego Heróstrato, que incendiou o Templo de Ártemis em Éfeso para ficar na história. O atirador de Trump, segundo as informações disponíveis à data da gravação, tinha pesquisado Oswald, sugerindo um fascínio pelo assassinato como via para a notoriedade, mais do que uma convicção política clara.

O argumento central de Rui Ramos é que, quando se analisa a violência política organizada em democracias a funcionar - excluindo guerras civis, revoluções e regimes autoritários -, os Estados Unidos saem relativamente bem no retrato. Os anos de 1920 e 1930 na Europa são o primeiro exemplo: Itália, Alemanha, França e Reino Unido viram partidos de massas, fascistas e comunistas, criar milícias armadas que travavam batalhas campais nas ruas de Berlim, Roma, Paris e Londres. A famosa Batalha de Cable Street em 1936 opôs os seguidores de Oswald Mosley à esquerda britânica. Nada de comparável ocorreu nos Estados Unidos nessa época. O segundo período de referência são os anos 1960-1980, quando o terrorismo de extrema esquerda e o terrorismo nacionalista varreram a Europa: as Brigadas Vermelhas em Itália assassinaram Aldo Moro, o grupo Baader-Meinhof operou na Alemanha Ocidental, o IRA fez explodir bombas em cidades inglesas durante anos e quase matou Margaret Thatcher em Brighton em 1984. A ETA, em Espanha, chegou a lançar o carro do chefe do governo, o almirante Carrero Blanco, vários andares acima com uma bomba. Os Estados Unidos nunca conheceram uma organização terrorista com esta persistência, dimensão e apoio social interno.

O caso mais extremo apresentado no episódio é, porém, o do Japão. Entre 1921 e 1936, cinco primeiros-ministros foram assassinados por organizações secretas de jovens militares que pretendiam restaurar o poder absoluto do imperador. Os apresentadores citam um livro americano sobre o tema cujo título, Government by Assassination, resume bem a situação: o assassinato tornara-se quase um mecanismo informal de alternância política. A probabilidade de um primeiro-ministro japonês ser assassinado nesse período era de cerca de cinquenta por cento. Rui Ramos recorda ainda que esta tradição não desapareceu por completo, dado que o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe foi assassinado em 2022. A conclusão é que, medida pela violência política organizada em contextos democráticos, a história americana é surpreendentemente menos violenta do que a de vários países europeus e do Japão nos últimos 150 anos.

Personagens

  • Donald Trump
  • Abraham Lincoln
  • James Garfield
  • William McKinley
  • John F. Kennedy
  • Theodore Roosevelt
  • Ronald Reagan
  • Robert Kennedy
  • Lee Harvey Oswald
  • Sadi Carnot
  • Paul Doumer
  • Charles de Gaulle
  • Émile Loubet
  • Alexandre Millerand
  • Philippe Pétain
  • John Lennon
  • Heróstrato
  • Júlio César
  • Brutus
  • Cassius
  • Oswald Mosley
  • Aldo Moro
  • Margaret Thatcher
  • Charlie Chaplin
  • Hara Takashi
  • Hamaguchi Osaki
  • Inukai Tsuyoshi
  • Saito Makoto
  • Takahashi Korekiyo
  • Shinzo Abe

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • França
  • Suíça
  • República Checa
  • Brasil
  • México
  • Canadá
  • Itália
  • Alemanha
  • Reino Unido
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Irlanda do Norte
  • Portugal
  • Japão

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1960
  • anos 1970
  • anos 1980
  • Guerra Civil Americana
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • violência política
  • assassinato político
  • terrorismo
  • democracia
  • fascismo
  • comunismo
  • nacionalismo
  • extrema-esquerda
  • milícias armadas
  • posse de armas

Eventos

  • atentado a Donald Trump
  • assassinato de Abraham Lincoln
  • assassinato de JFK
  • Maio de 1968
  • batalha de Cable Street
  • 11 de setembro de 2001

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Americana
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra do Vietname
  • conflito IRA

Livros citados

  • Government by Assassination