Nº 8817 de março de 202149:48resposta a ouvintes
Do coração de Meghan Markle ao coração de D. Pedro
Episódio dedicado a perguntas dos ouvintes, abordando a resistência da monarquia britânica aos escândalos contemporâneos (como a entrevista de Meghan Markle), a história do coração de D. Pedro IV conservado no Porto, a simbologia da espada como arma nobre através dos séculos, a ausência de estátuas figurativas de D. João II em Lisboa e as diferenças entre as cortes portuguesa e espanhola face à corte francesa de Versalhes.
Ideias principais
- As monarquias sobrevivem a escândalos porque estes não são novos, sendo que as repúblicas têm escândalos de outra natureza como corrupção, enquanto as ditaduras apenas os abafam.
- D. Pedro IV pediu que o seu coração ficasse no Porto em gratidão pela resistência da cidade durante o cerco de 1832-33 nas Guerras Liberais, simbolizando o amor à liberdade.
- A espada era muito mais que uma arma: era um símbolo de estatuto nobre, cara de produzir e sofisticada tecnologicamente, mantendo-se como arma cerimonial dos oficiais até à Primeira Guerra Mundial e ainda hoje.
- D. João II, apesar de ser consensualmente considerado o maior estadista português e modelo tanto para republicanos como para o Estado Novo, nunca teve uma estátua figurativa em Lisboa, apenas monumentos abstratos.
- A corte portuguesa dos séculos XVI-XVII era mais sóbria e retirada que a francesa de Versalhes, não por atraso mas por um modelo diferente de poder régio baseado no distanciamento da aristocracia e proximidade ao povo, embora a 'lenda negra' protestante a retratasse como obscura e decadente.
Resumo do episódio
O episódio 88 de *E o Resto é História* é dedicado sobretudo às perguntas dos ouvintes, mas abre com uma breve reflexão motivada pela entrevista de Meghan Markle e do Príncipe Harry à apresentadora Oprah Winfrey. Rui Ramos aproveita o momento para contextualizar os escândalos da monarquia britânica numa perspectiva histórica mais longa, recordando casos como a abdicação de Eduardo VIII em 1936 e o divórcio de Jorge IV em 1820, e argumentando que todos os regimes têm os seus escândalos - nas repúblicas, tendem a ser de corrupção ou abuso de poder. O elemento verdadeiramente original da situação atual, nota Rui Ramos, é que o escândalo envolve membros muito secundários da família real, o que revela como a monarquia britânica se foi transformando numa espécie de corte alargada, com figuras de linhas colaterais a assumirem papéis públicos e a tornarem-se objeto de atenção mediática. A durabilidade da monarquia no Reino Unido explica-se, em parte, pela sua função de elemento unificador de nações distintas e de países da Commonwealth, algo que nenhuma presidência eleita poderia substituir.
A seguir, os apresentadores respondem a uma pergunta sobre o coração de D. Pedro IV, conservado na Igreja da Lapa no Porto. Rui Ramos traça uma biografia sumária desta figura extraordinária: nascido em 1798, foi imperador do Brasil em 1822 e rei de Portugal em 1826, acumulando simultaneamente as duas coroas antes de as abdicar uma a uma. Quando o irmão D. Miguel usurpou o trono em 1828, D. Pedro reorganizou forças a partir dos Açores e liderou uma expedição militar que culminou na tomada do Porto, onde resistiu durante mais de um ano com apenas sete mil homens contra um exército miguelista de oitenta mil. Morreu em 1834, com 35 anos, no mesmo quarto do Palácio de Queluz onde nascera. Em testamento, pediu que o seu coração embalsamado fosse depositado no Porto, em sinal de gratidão pela lealdade da cidade durante a guerra civil. Os seus restos mortais foram trasladados para o Brasil em 1972, mas o coração permaneceu na Igreja da Lapa, tal como ele desejara.
A terceira questão versa sobre o simbolismo da espada na Europa medieval e a sua persistência como insígnia dos oficiais militares. Rui Ramos explica que a espada era uma arma cara e tecnicamente sofisticada, reservada à nobreza guerreira, enquanto a infantaria plebeia se armava de lanças, piques e outros instrumentos mais rudimentares. Mesmo com a difusão das armas de fogo, a espada manteve-se associada aos oficiais - especialmente na cavalaria, mais aristocrática - até à Primeira Guerra Mundial, tornando-se progressivamente uma arma cerimonial carregada de valor simbólico, ligada à honra e ao estatuto. Os apresentadores evocam exemplos literários e cinematográficos, do rei Artur aos Jedi de *Guerra das Estrelas*, passando pelas katanas dos samurais japoneses.
Segue-se uma pergunta sobre a ausência de uma estátua figurativa de D. João II em Lisboa, apesar da reputação excecional deste rei. Rui Ramos recorda que o "Príncipe Perfeito" foi admirado tanto pelos liberais e republicanos - pelo confronto com a grande nobreza - como pelo Estado Novo, que nele via um modelo de estadista providencial. Existiu um projeto de estátua nos anos trinta, concluído em pedra e exposto na Exposição do Mundo Português de 1940, mas a obra desapareceu sem nunca ter sido instalada no espaço público. O escultor responsável, Rui Roque Gameiro, morreu jovem num acidente de aviação em 1935. Para além deste episódio, Rui Ramos sugere que a ausência de monumentos a D. João II se deve também ao facto de o rei não estar associado a nenhuma localidade em particular, perdendo assim o impulso do bairrismo que em Portugal explica muitos monumentos.
Por fim, os apresentadores abordam a representação sombria dos portugueses e espanhóis em filmes e séries históricas. Rui Ramos argumenta que as cortes ibéricas do século XVI e XVII eram de facto mais reservadas e menos faustosas do que a corte de Luís XIV em Versalhes, que se tornou o modelo cinematográfico da vida cortesã. Os reis de Portugal e Espanha privilegiavam o distan
Personagens
- Meghan Markle
- Príncipe Harry
- Oprah Winfrey
- Eduardo VIII
- Jorge IV
- Rainha Carolina
- Rainha Vitória
- Richard Nixon
- D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil)
- D. João VI
- D. Maria II
- D. Miguel
- D. Pedro II do Brasil
- Marcelo Caetano
- Rui Moreira
- Vasco da Gama
- D. Manuel I
- Fernando Pessoa
- Infante D. Henrique
- Afonso de Albuquerque
- Leopoldo de Almeida
- D. José I
- D. Maria I
- Rui Roque Gameiro
- D. Carlos
- D. Pedro I
- Luís XIV
- Maria Antonieta
- D. Duarte
- Filipe II
- Carlos V
- D. Afonso VI
- D. Pedro II de Portugal
- Maria Francisca de Sabóia
- São Romã
- D. João IV
- Gil Vicente
- D. Afonso Henriques
- D. Sebastião
- Marquês de Pombal
- Duque de Viseu
- Salazar
- Sofia Coppola
- Roman Polanski
- Richard Wagner
- George Lucas
- Siegfried
Lugares/Países
- Reino Unido
- Inglaterra
- Escócia
- País de Gales
- Irlanda
- Irlanda do Norte
- Portugal
- Brasil
- Canadá
- Austrália
- Nova Zelândia
- Jamaica
- França
- Espanha
- Estados Unidos
- Açores
- Japão
Épocas
- século XIX
- século XVIII
- século XV
- século XVI
- século XVII
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- época contemporânea
Temas
- monarquia
- escândalo político
- parlamentarismo
- democracia
- império
- Commonwealth
- guerras civis
- liberalismo
- absolutismo
- descobrimentos
- expansão ultramarina
- nobreza
- corrupção
- ditadura
- liberdade de imprensa
- heráldica
- armas medievais
- estatuária
- protocolo de corte
- música sacra
Eventos
- Abdicação de Eduardo VIII
- Escândalo do Panamá
- Watergate
- Independência do Brasil
- Guerras Liberais
- Cerco do Porto
- Exposição Universal de 1998
- Exposição do Mundo Português de 1940
Guerras e conflitos
- Guerras Liberais
Livros citados
- Mensagem (Fernando Pessoa)