Nº 17409 de novembro de 202250:03análise histórica
Dois grandes livros que mudaram o século XX
O episódio analisa dois livros fundamentais do século XX que mudaram a forma como o Ocidente olha para a violência e os regimes totalitários: 'A Oeste Nada de Novo' (1929) de Erich Maria Remarque, sobre a Primeira Guerra Mundial, e 'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich' (1962) de Aleksandr Solzhenitsyn, sobre os gulags soviéticos. Rui Ramos contrasta a visão de guerra de 1929 com a actual adaptação cinematográfica da Netflix, e explica como Solzhenitsyn usou estrategicamente a política anti-estalinista de Khrushchev para denunciar não apenas Stalin, mas todo o sistema comunista.
Ideias principais
- A diferença entre o livro de Remarque (1929) e o filme de 2022 revela como a percepção da guerra mudou: o livro mostra a guerra a tornar-se rotina e a absorver os soldados, enquanto o filme mantém o protagonista sempre horrorizado, reflectindo uma geração sem experiência directa de guerra.
- Solzhenitsyn e Stalin são, segundo o historiador Stephen Kotkin, as duas figuras fundamentais da história russa do século XX - um ditador totalitário e um escritor que denunciou o sistema.
- A publicação de 'Um Dia na Vida de Ivan Denisovich' em 1962 resultou de um equívoco calculado: Khrushchev pensava usar o livro como propaganda anti-estalinista, mas Solzhenitsyn visava denunciar todo o sistema comunista, não apenas Stalin.
- Para Solzhenitsyn, a resistência ao totalitarismo não vinha do liberalismo ocidental, mas da tradição espiritual cristã ortodoxa - o que criou mal-entendidos quando chegou ao Ocidente em 1974 e revelou não ser o liberal que esperavam.
- Ambos os autores escreveram a partir de experiência directa: Remarque esteve um mês na frente ocidental antes de ser ferido, e Solzhenitsyn passou oito anos em campos de trabalho soviéticos por criticar a condução da guerra numa carta privada.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam-se a dois livros que consideram entre os mais influentes do século XX: *A Oeste Nada de Novo*, de Erich Maria Remarque, publicado em 1929, e *Um Dia na Vida de Ivan Denisovich*, de Alexandre Soljenitsin, publicado em 1962 na União Soviética. A ocasião é dupla: uma nova adaptação cinematográfica alemã do romance de Remarque disponível na Netflix e o sexagésimo aniversário da publicação do livro de Soljenitsin.
A discussão sobre Remarque parte de uma comparação entre o livro original e o filme de 2022. O romance narra a experiência de Paul, um jovem soldado alemão na frente ocidental da Primeira Guerra Mundial, e o seu impacto foi imediato: no próprio ano de publicação vendeu um milhão de exemplares em alemão e outro milhão em traduções inglesas e francesas, sendo adaptado ao cinema já em 1930, com um Óscar de melhor filme. Rui Ramos sublinha que a força do livro reside numa ideia perturbadora: a guerra não é horrível porque permanece sempre chocante e estranha, mas precisamente porque se torna rotina. Paul não está a olhar para a guerra de fora - a guerra entrou nele, tornou-se a sua única realidade, e é o mundo civil que lhe passa a parecer artificial e incompreensível. O episódio do regresso a casa de licença, em que a mãe lhe faz recomendações triviais sobre as mulheres francesas, ilustra esse abismo. O filme de 2022, pelo contrário, mantém o soldado num estado permanente de choque e horror, como se assistisse a um acidente do qual está separado - uma perspectiva que os apresentadores associam a gerações que não conheceram a guerra e a encaram como espectáculo. A diferença é ainda visível na morte de Paul: no livro, ele morre num dia em que o relatório oficial diz simplesmente que «a oeste nada de novo», o que amplifica a tragédia ao mostrar como a guerra anulou completamente o indivíduo; no filme, a morte ocorre numa ofensiva fictícia nos minutos finais antes do armistício, uma opção dramaticamente eficaz mas historicamente improvável.
A segunda parte do episódio é dedicada a Soljenitsin. Preso em 1945 por comentários críticos numa carta privada, torturado e condenado a oito anos de trabalhos forçados num gulag soviético, o escritor russo passou a considerar dever seu dar testemunho do que havia vivido e do que milhões de outros haviam sofrido. *Um Dia na Vida de Ivan Denisovich* descreve, com um realismo cru e sem comentários do narrador, um único dia na vida de um prisioneiro inocente, desde que acorda até se deitar. Rui Ramos explica como a publicação do livro numa revista literária oficial soviética em novembro de 1962 não foi um acidente: Nikita Khrushchev, fragilizado pela crise dos mísseis de Cuba e empenhado em usar o anti-estalinismo como arma política interna, autorizou a publicação, vendo no texto uma denúncia dos crimes de Estaline. Mas esse foi um equívoco de leitura. Soljenitsin não escrevia sobre os desvios de um ditador - escrevia sobre os crimes estruturais do comunismo enquanto sistema.
O mesmo equívoco repetiu-se no Ocidente, onde o escritor foi acolhido como um liberal dissidente. Quando, após a expulsão da União Soviética em 1974, pôde exprimir-se livremente, ficou claro que as suas convicções não se enquadravam no liberalismo ocidental. Para Soljenitsin, a única resistência eficaz ao totalitarismo não era política mas espiritual: assentava na tradição cristã ortodoxa e na recusa de partilhar as premissas - materialismo, ateísmo, omnipotência humana - que tornavam possível o projecto totalitário. O próprio Ivan Denisovich encarna essa ideia: não é um intelectual com consciência política, mas um homem simples que, ao recusar a mentira e a corrupção do sistema sem sequer as nomear, vive como um justo e nessa integridade encontra uma forma de resistência que o livro apresenta como a única verdadeiramente sólida.
Personagens
- Erich Maria Remarque
- Aleksandr Solzhenitsyn
- Josef Stalin
- Nikita Khrushchev
- Ernst Jünger
- Matthias Erzberger
- Stephen Kotkin
- Boris Pasternak
- Anna Akhmatova
- Lavrentiy Beria
- Aleksandr Tvardovsky
- Ivan Denisovich
Lugares/Países
- Alemanha
- União Soviética
- França
- Bélgica
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Rússia
- Itália
- Portugal
- Noruega
Épocas
- Primeira Guerra Mundial
- século XX
- anos 20
- anos 50
- anos 60
- anos 70
- Guerra Fria
Temas
- guerra
- literatura
- totalitarismo
- repressão política
- cristianismo
- resistência
- campos de concentração
- censura
- dissidência
- pacifismo
Eventos
- Primeira Guerra Mundial
- Revolução Russa
- Guerra Fria
- Prémio Nobel da Literatura
- Crise dos Mísseis de Cuba
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Frente Ocidental
- Guerra Fria
Livros citados
- A Oeste Nada de Novo
- Um Dia na Vida de Ivan Denisovich
- Arquipélago de Gulag
- As Tempestades de Aço
- Réquiem
- Dr. Zhivago
- A Casa de Matriona
- O Carvalho e o Bezerro
- O Pavilhão dos Cancerosos
- O Primeiro Círculo
- Agosto de 1914