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Nº 34227 de janeiro de 202636:18análise histórica

Doutrina Monroe: o que é isso, exatamente?

O episódio explora a Doutrina Monroe, proclamada em 1823 pelo presidente americano James Monroe (embora redigida por John Quincy Adams), que declarava que as Américas não deveriam ser colonizadas por potências europeias. Inicialmente uma declaração vazia sem poder real, só ganhou força no final do século XIX quando os EUA se tornaram uma potência industrial e militar, transformando-se num pretexto para intervenção americana na América Latina ao longo do século XX.

Ideias principais

  1. A Doutrina Monroe foi proclamada em 1823 quando os Estados Unidos eram uma potência fraca com apenas 9 milhões de habitantes e praticamente sem marinha de guerra, incapaz de a fazer cumprir
  2. Foi a Grã-Bretanha, não os Estados Unidos, quem verdadeiramente impediu a reconquista europeia das Américas no século XIX, enviando 10 mil soldados para apoiar os independentistas e usando a sua supremacia naval
  3. A doutrina só adquiriu significado prático no final do século XIX quando os EUA se tornaram a maior potência industrial do mundo, derrotando a Espanha em 1898 e tomando Cuba, Porto Rico e as Filipinas
  4. Theodore Roosevelt redefiniu a doutrina em 1904 como direito de intervenção americana em caso de 'flagrante e crónica malfeitoria' de países latino-americanos, levando a ocupações do Haiti, Nicarágua e República Dominicana
  5. Donald Trump recuperou a doutrina em 2025 após John Kerry a ter declarado extinta em 2013, definindo-a explicitamente como supremacia americana no hemisfério ocidental

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* dedica-se a explicar o que é a Doutrina Monroe, um conceito formulado nos Estados Unidos em 1823 que voltou ao centro do debate público por ser invocado como referência para a política externa de Donald Trump. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se percorrer a história desta doutrina desde a sua origem até ao presente, esclarecendo o que ela significou em cada época e como o seu sentido se foi transformando ao longo de dois séculos.

O ponto de partida é a figura de James Monroe, o quinto presidente dos Estados Unidos e último dos chamados pais fundadores, cuja carreira esteve intimamente ligada à expansão territorial americana, desde a negociação da compra da Louisiana à França em 1803 até à aquisição da Florida à Espanha em 1819. Em 1823, numa mensagem ao Congresso, Monroe declarou que os continentes americanos não poderiam ser considerados suscetíveis de nova colonização por potências europeias. Os apresentadores sublinham, porém, que as ideias e a redação foram essencialmente obra do secretário de Estado John Quincy Adams. O contexto imediato era o receio de que as grandes potências conservadoras europeias - Áustria, Prússia, Rússia e França - que acabavam de enviar um exército para repor o absolutismo em Espanha e Portugal, decidissem também ajudar a Espanha a recuperar as suas colónias nas Américas, onde os movimentos independentistas ainda travavam guerras abertas.

Rui Ramos é peremptório: em 1823, os Estados Unidos não tinham praticamente nenhum meio para fazer cumprir a doutrina. Com cerca de nove milhões de habitantes, uma economia essencialmente agrária, um exército diminuto e uma marinha de guerra quase simbólica, eram um país que, poucos anos antes, vira a sua capital, Washington, ser ocupada e incendiada pelo exército britânico. Quem efetivamente impediu o regresso das potências europeias às Américas foi a Grã-Bretanha, que reconheceu as novas repúblicas, forçou Portugal a aceitar a independência do Brasil, e chegou a ter dez mil soldados a combater ao lado de Simón Bolívar. Londres tinha para isso motivos concretos: garantir o acesso comercial e impedir que a França usasse a Espanha para instalar monarquias bourbon no continente americano.

Ao longo do século XIX, a doutrina foi sistematicamente ignorada na prática. França e Grã-Bretanha bloquearam Buenos Aires em meados do século; em 1862, a França invadiu o México e instalou um imperador habsburgo, só retirando em 1867 por pressão prussiana na Europa. O próprio termo "Doutrina Monroe" só foi cunhado décadas após a declaração original, sendo utilizado pela primeira vez em 1865. A transformação decisiva ocorreu no final do século XIX, quando os Estados Unidos se tornaram a maior potência industrial do mundo, com uma população de 76 milhões de habitantes e uma produção de aço superior à da Grã-Bretanha e da Alemanha juntas. Em 1898, expulsaram a Espanha de Cuba e adquiriram as Filipinas, Guam e Porto Rico; em 1904, assumiram o controlo do Canal do Panamá.

Foi precisamente em 1904 que o presidente Theodore Roosevelt reformulou a doutrina de forma radical, atribuindo aos Estados Unidos o direito de intervir em qualquer país latino-americano que incorrsse em "flagrante e crónica malfeitoria" - leia-se, incapacidade de honrar dívidas externas. O objetivo declarado era evitar que as potências europeias recorressem à diplomacia das canhoneiras, mas o efeito prático foi legitimar a intervenção americana no Haiti, na Nicarágua e na República Dominicana. Durante a Guerra Fria, a doutrina foi reinterpretada como o direito de impedir regimes pró-soviéticos no hemisfério, sendo invocada por Kennedy em 1962 durante a crise dos mísseis em Cuba. Em 2013, o secretário de Estado John Kerry anunciou que a doutrina tinha chegado ao fim, em nome de uma relação de igualdade com a América Latina. É essa renúncia que Trump reverte em 2025, repondo explicitamente a supremacia americana no hemisfério ocidental como eixo da estratégia de segurança nacional - num sentido que, concluem os apresentadores, pouco tem a ver com as intenções originais de Monroe ou Adams, mas que os meios atuais dos Estados Unidos tornam, ao contrário de 1823, inteiramente exequível.

Personagens

  • James Monroe
  • John Quincy Adams
  • Thomas Jefferson
  • Dom Pedro I do Brasil
  • Fernando VII de Espanha
  • Simón Bolívar
  • Chateaubriand
  • Napoleão Bonaparte
  • Dom Miguel I de Portugal
  • Maximiliano do México
  • Napoleão III
  • Theodore Roosevelt
  • John F. Kennedy
  • John Kerry
  • Barack Obama
  • Donald Trump

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • França
  • Grã-Bretanha
  • Espanha
  • Portugal
  • Brasil
  • Venezuela
  • México
  • Argentina
  • Peru
  • Chile
  • Cuba
  • Haiti
  • Nicarágua
  • República Dominicana
  • Panamá
  • Filipinas
  • Áustria
  • Prússia
  • Rússia
  • Alemanha
  • Canadá
  • Gronelândia
  • Dinamarca
  • Jamaica
  • Bahamas
  • Guadalupe
  • Martinica
  • Guiana Francesa
  • Guiana Inglesa
  • Guiana Holandesa
  • Porto Rico
  • Guam

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • década de 1820
  • Guerra Civil Americana
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Temas

  • diplomacia
  • geopolítica
  • colonialismo
  • independência
  • imperialismo
  • dívida externa
  • política canhoneira
  • expansão territorial
  • guerra
  • comércio internacional
  • escravatura

Eventos

  • Independência dos Estados Unidos
  • Compra da Louisiana
  • Independências da América Latina
  • Invasão francesa de Espanha (1823)
  • Guerra de 1812-1814
  • Incêndio de Washington
  • Independência do Brasil
  • Guerra México-Estados Unidos
  • Bloqueio de Buenos Aires
  • Intervenção francesa no México
  • Construção do Canal do Panamá
  • Guerra Hispano-Americana
  • Ocupação do Haiti
  • Ocupação da Nicarágua
  • Crise dos mísseis de Cuba

Guerras e conflitos

  • Guerra de Independência Americana
  • Guerras Napoleónicas
  • Guerra de 1812
  • Guerra México-Estados Unidos
  • Guerra Civil Americana
  • Guerra Hispano-Americana
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria