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Nº 16110 de agosto de 202247:09análise histórica

Duncan Simpson e as cartas portuguesas para a PIDE

Conversa com o historiador Duncan Simpson sobre o seu livro que analisa cartas enviadas por portugueses à PIDE entre 1958 e 1968. O episódio explora a relação multifacetada entre a sociedade portuguesa e a polícia política, mostrando que ia muito além da simples repressão: incluía denúncias oportunistas, pedidos de ajuda, cunhas e até mediação de conflitos laborais. Simpson defende uma renovação historiográfica do estudo do Estado Novo, criticando a abordagem memorialista dominante.

Ideias principais

  1. 95% das cartas analisadas por Duncan Simpson nunca tinham sido consultadas por outros investigadores, revelando uma lacuna significativa na historiografia do Estado Novo.
  2. A população portuguesa usava ativamente a PIDE não apenas por medo, mas também como patrocinador e mediador de conflitos pessoais, laborais e comunitários, numa relação de clientelismo que ajudou a sustentar o regime.
  3. A PIDE desempenhava papéis surpreendentes, incluindo arbitragem de disputas laborais onde por vezes tomava o partido dos operários contra os patrões, funcionando como mediador dentro da estrutura corporativa.
  4. A historiografia do Estado Novo tem sido dominada por uma abordagem memorialista que se confunde com políticas de memória antifascista, impedindo análises mais objectivas e nuanceadas do funcionamento do regime.
  5. A normalização e rotinização da PIDE no quotidiano de uma população já despolitizada desde a Monarquia e a Primeira República foi crucial para a longevidade do Estado Novo, num contexto de pobreza generalizada onde o clientelismo era altamente procurado.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* recebe o historiador Duncan Simpson, investigador no Instituto de Ciências Sociais de Lisboa, para falar do seu mais recente livro, *Tenho o Prazer de Informar o Sr. Diretor: Cartas de Portugueses à PIDE, 1958–1968*. A obra analisa um vastíssimo conjunto de cartas - na sua maioria inéditas - enviadas por cidadãos comuns à polícia política do Estado Novo, e propõe uma leitura radicalmente diferente da que tem dominado a historiografia: em vez de uma sociedade passiva e vitimizada perante um aparelho repressivo, o que as cartas revelam é uma relação ativa, interativa e multifacetada entre os portugueses e a PIDE.

Simpson começa por traçar o seu percurso pessoal: nascido em Paris de pais ingleses, chegou a Portugal pela primeira vez aos dezasseis anos como turista, ficou encantado pelo país e acabou por doutorar-se no King's College de Londres com uma tese sobre as relações entre a Igreja Católica e o Estado Novo. A investigação sobre a PIDE surgiu mais tarde, já como investigador no ICS. Os apresentadores interrogam-no sobre as analogias e diferenças entre a PIDE e outras polícias políticas europeias - a Gestapo, a Stasi, a polícia de Franco. Simpson sublinha que a utilização oportunista da polícia política para resolver conflitos privados é um traço comum a todos estes regimes: denúncias entre colegas de trabalho, entre vizinhos, entre ex-namorados, frequentemente com pretextos políticos inventados para cobrir motivações pessoais. A grande diferença é que regimes de alta mobilização ideológica, como o nazi, geravam mais denúncias por convicção, ao passo que o Estado Novo, de baixa mobilização ideológica, produzia sobretudo denúncias de carácter oportunista - embora as motivações raramente fossem puras e se misturassem frequentemente com ecos genuínos do catolicismo, do anticomunismo ou do imperialismo colonial.

Um dos exemplos mais ilustrativos que Simpson apresenta é o de uma pequena aldeia perto de Lisboa cujos habitantes se juntaram para pedir a um agente da PIDE que passava férias na localidade que intercedesse junto das autoridades para que fosse instalada electricidade na aldeia. O pedido chegou ao próprio Salazar e foi atendido pelo Ministério das Obras Públicas. Este episódio ilustra o argumento central do livro: a PIDE funcionava também como um patrono, um intermediário numa rede de clientelismo que mantinha a população numa relação de dependência e de aceitação implícita do regime. Simpson vai mais longe e fala em normalização: a polícia acabou por ser incorporada na vida quotidiana dos portugueses como uma instituição banal, algo para que contribuiu uma tradição de despolitização que antecedia o próprio Estado Novo e que a Primeira República não corrigiu. Outro caso surpreendente é o de um gerente de uma metalúrgica do Porto que pediu à PIDE para intervir num problema de produtividade - e os agentes, após ouvirem os operários, concluíram que o problema era de má gestão patronal, funcionando assim como árbitros de um conflito laboral.

A conversa alarga-se à historiografia do Estado Novo. Simpson critica abertamente o que considera um bloqueio académico: 95% das cartas que utilizou nunca tinham sido consultadas, apesar de os arquivos da PIDE estarem abertos desde 1994. Na sua análise, o campo foi dominado por uma historiografia de teor memorialístico - comprometida com a preservação da memória antifascista - que tende a deslegitimar abordagens metodologicamente diferentes. Identifica dois grupos: os que veem o regime como fascismo absoluto e os que, com preocupação memorialista, acabam por produzir história normativa em vez de analítica. Rui Ramos recorda a polémica que envolveu a sua própria *História de Portugal* em 2012, quando comparar a violência da PIDE com a de outras polícias foi interpretado como negacionismo. Todos concordam que o ambiente piorou nas últimas décadas, em parte pela radicalização política e pelo impacto das redes sociais, que desfavorecem a nuance.

O episódio encerra com Simpson a descrever o seu próximo projecto: uma história da PIDE vista de baixo, em inglês, que combinará investigação arquivística, um inquérito a quatrocentas pessoas que viveram o regime sem actividade política e entrevistas de história oral em várias cidades portuguesas - tudo para compreender como funcionou a vasta maioria da

Personagens

  • Duncan Simpson
  • Salazar
  • Irene Flunser Pimentel
  • Francisco Bethencourt
  • Paul Preston
  • Franco
  • Mussolini
  • Barbieri Cardoso
  • Fernando Rosas
  • Manuel Loff
  • Geoffrey Cubitt
  • Jürgen Habermas

Lugares/Países

  • Portugal
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Espanha
  • Itália
  • República Democrática Alemã
  • Europa de Leste

Épocas

  • Estado Novo
  • Primeira República
  • Monarquia Constitucional
  • Pós-25 de Abril
  • Anos 60
  • Anos 80
  • Anos 90

Temas

  • repressão política
  • polícia política
  • ditadura
  • clientelismo
  • denúncia
  • memória histórica
  • historiografia
  • controle social
  • censura
  • guerra colonial
  • anticomunismo
  • imperialismo
  • catolicismo
  • relações laborais
  • emigração

Eventos

  • 25 de Abril
  • Revolução de 1974
  • Queda do Muro de Berlim
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Colonial

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Colonial

Livros recomendados

  • Tenho o Prazer de Informar o Sr. Diretor - Cartas de Portugueses à PIDE 1958-1968

Livros citados

  • Tenho o Prazer de Informar o Sr. Diretor - Cartas de Portugueses à PIDE 1958-1968