Nº 2501 de janeiro de 202041:51análise histórica
E a palavra histórica do ano é... escravatura
Análise aprofundada da escravatura, com destaque para a especificidade da escravatura atlântica moderna promovida pelos europeus entre os séculos XVI e XIX. O historiador João Pedro Marques explica as diferenças entre o tráfico transatlântico e outras formas históricas de escravatura, discute o movimento abolicionista e suas contradições, e aborda a transição problemática para o trabalho forçado colonial português, demonstrando como a escravatura se tornou um problema moral característico da cultura ocidental.
Ideias principais
- A escravatura ocidental moderna distingue-se por ser monorracial, associando pela primeira vez escravidão à cor da pele e origem africana, criando uma ligação inédita entre raça e condição servil.
- O movimento abolicionista britânico teve sucesso moral mas resultados económicos decepcionantes, levando todas as potências coloniais, incluindo Portugal, a adoptarem sistemas de trabalho forçado que reproduziam condições por vezes piores que a escravatura formal.
- A campanha abolicionista criou um sentimento de culpa específico nas sociedades ocidentais que persiste até hoje, sendo explorado politicamente e obscurecendo outras formas históricas de escravatura igualmente brutais no mundo islâmico e noutras culturas.
- Portugal aboliu a escravatura numa fase descendente da maré abolicionista, quando já se sabia que os resultados económicos da abolição ficavam aquém das expectativas, resultando num sistema híbrido de trabalho forçado colonial que durou até meados do século XX.
- A tensão moral entre considerar o escravo simultaneamente como propriedade e como pessoa humana é uma característica distintiva da cultura ocidental desde a Antiguidade, alimentando constante reflexão filosófica e debate político sobre liberdade e humanidade.
Resumo do episódio
Neste episódio especial de Ano Novo, gravado a 1 de janeiro de 2020, Rui Ramos e João Miguel Tavares recebem em estúdio o historiador João Pedro Marques, especialista em escravatura e autor de vários livros sobre o tema. A escolha do convidado não é casual: os apresentadores elegeram a palavra "escravatura" como a palavra histórica que mais marcou o ano de 2019, e é a partir daí que se desenvolve uma conversa alargada sobre as origens, as especificidades e o legado desta instituição.
A conversa começa por uma questão central: por que razão o tráfico de escravos promovido pelas sociedades ocidentais, sobretudo a partir de África e em direção às Américas entre os séculos XVI e XIX, continua a suscitar um debate tão aceso, ao passo que tráficos de escala comparável, como o promovido por sociedades muçulmanas, são praticamente ignorados no espaço público? João Pedro Marques aponta várias razões. Uma é política: a esquerda, que domina grande parte deste debate, tem relutância em criticar o mundo muçulmano. Outra é documental: o tráfico transatlântico deixou registos muito mais detalhados do que o tráfico terrestre pelo deserto do Sara, cujas estimativas numéricas são muito menos seguras. Há ainda uma diferença estrutural: enquanto o tráfico atlântico privilegiava a importação de homens para o trabalho intensivo nas plantações, o tráfico para o mundo muçulmano privilegiava mulheres, destinadas a harens e à concubinagem, o que dificultou a contagem de descendentes.
Para os três, a especificidade mais marcante da escravatura ocidental nas Américas é o seu carácter monorracial - a associação entre escravatura e cor da pele, que não existia, por exemplo, na Roma Antiga ou na escravatura medieval europeia. Recorda-se que até ao século XV a maior parte dos escravos na Europa eram brancos, muitos deles eslavos - daí aliás a própria etimologia da palavra -, e que foi a expansão otomana e o corte do acesso ao Mar Negro que empurrou os mercadores ibéricos para África. A escolha dos africanos em detrimento dos índios americanos resultou também de razões teológicas: os índios eram vistos por muitos como seres inocentes, próximos do Jardim do Éden, enquanto os africanos, pertencentes ao Velho Mundo, já tinham sido expostos à palavra cristã e ao pecado.
O episódio dedica também atenção significativa ao processo abolicionista e às suas limitações. João Pedro Marques explica que quando Portugal aboliu a escravatura, em 1875, a "maré" já vinha em retrocesso: a experiência britânica pós-abolição nas Caraíbas havia mostrado que os trabalhadores libertos fugiam às plantações quando tinham terra disponível, defraudando as expectativas económicas dos abolicionistas. Toda a Europa colonial acabou por recorrer a formas de trabalho forçado - legalmente distintas da escravatura, mas praticamente equivalentes na brutalidade. O relatório de 1947 do capitão Henrique Galvão sobre as colónias portuguesas é citado como ilustração deste paradoxo: sem serem propriedade dos patrões, os trabalhadores "livres" eram por vezes tratados com mais indiferença do que os escravos, porque a sua morte ou doença não representava qualquer perda patrimonial para o empregador.
O episódio fecha com uma reflexão mais ampla sobre aquilo que poderá ser genuinamente específico das sociedades ocidentais: a existência permanente de uma tensão moral em torno da escravatura, uma incapacidade de a praticar sem simultaneamente a questionar. Desde a Antiguidade Clássica até ao iluminismo e à Revolução Francesa, o pensamento ocidental foi alimentando uma contradição interna entre o discurso de libertação - religioso e depois político - e a realidade da escravatura como instituição. Essa tensão, sustentam os participantes com apoio na obra do historiador David Brion Davis, é simultaneamente uma fonte de dinamismo moral e uma das chaves para compreender por que razão o tema continua tão vivo no debate público contemporâneo.
Personagens
- João Pedro Marques
- Bartolomeu de Las Casas
- Aristóteles
- Santo Agostinho
- Bernard Lewis
- Cristóvão Colombo
- Henrique Galvão
- Eça de Queirós
- Sá da Bandeira
- David Brian Davis
- Salazar
Lugares/Países
- Portugal
- África
- Brasil
- Estados Unidos
- Inglaterra
- Espanha
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- Índia
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- Nigéria
- Somália
- Florença
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- Roma
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- Macau
- Constantinopla
- Mar Negro
- Sara
- Mar Vermelho
- São Tomé
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Antiguidade Clássica
- Idade Média
- época moderna
- Império Romano
- Segunda Guerra Mundial
- Estado Novo
Temas
- escravatura
- comércio de escravos
- abolicionismo
- colonialismo
- racismo
- trabalho forçado
- economia colonial
- imperialismo
- religião
- cristianismo
- islamismo
- direitos humanos
- moralidade
- propriedade
- cultura ocidental
Eventos
- Tratado de Tordesilhas
- Revolução Francesa
- abolição da escravatura
- descobrimentos
- tráfico transatlântico
- tráfico transaariano
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
- independência americana
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Escravatura, Perguntas e Respostas
- A Cabana do Pai Tomás
- O Problema da Escravidão na Cultura Ocidental