Nº 21202 de agosto de 202357:27resposta a ouvintes
E se em vez de um, viessem três Papas a Portugal?
O episódio explora o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417), período em que a Igreja Católica teve simultaneamente dois e até três papas rivais, dividindo a cristandade por obediências políticas e não por doutrinas. Rui Ramos explica como Portugal navegou estas divisões conforme as alianças militares e diplomáticas, reconhecendo alternadamente os papas de Roma e Avignon. A conversa termina com uma reflexão sobre a relação histórica entre poder temporal e religioso, argumentando que os papas medievais tinham muito menos poder real do que os actuais.
Ideias principais
- O Grande Cisma do Ocidente não foi uma divisão doutrinária mas política, criando dois (e depois três) papas que dividiam a obediência da cristandade latina sem criar igrejas separadas teologicamente.
- Portugal mudou quatro vezes de obediência papal durante o reinado de Dom Fernando I, conforme as alianças militares com Inglaterra, França e Castela, demonstrando que o reconhecimento papal era sobretudo uma questão de diplomacia secular.
- A Inquisição portuguesa foi imposta ao Papa pelos reis Dom Manuel e Dom João III contra a vontade papal, evidenciando que a Igreja estava subordinada aos Estados e não o contrário, com bispos nomeados pelos governos até ao século XX.
- Contrariamente à narrativa de declínio, Rui Ramos argumenta que os papas actuais têm muito mais poder efectivo sobre a Igreja do que os papas medievais, que dependiam totalmente dos monarcas e não controlavam sequer a nomeação de bispos nos seus territórios.
- A reforma protestante não foi causada pelo Tratado de Tordesilhas mas atrasou a expansão colonial dos países do norte da Europa, que só competiram com Portugal e Espanha após resolverem os conflitos religiosos internos no final do século XVI.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* foi gravado por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude de 2023 e parte de uma pergunta de um ouvinte sobre o chamado Grande Cisma do Ocidente - o período, entre 1378 e 1417, em que a Igreja Católica teve simultaneamente dois papas, ou, numa fase mais extrema, três. Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitam o mote para explicar como uma instituição que aspira à universalidade pode entrar em colapso por força de interesses muito terrenos.
Os apresentadores começam por enquadrar a natureza do papado: uma instituição ao mesmo tempo universal nas suas pretensões e profundamente local na sua base. O papa residia em Roma, dependia da aristocracia romana - nomeadamente das famílias Colonna e Orsini - e estava permanentemente sujeito às pressões dos grandes monarcas europeus, em especial o rei de França e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Quando, no início do século XIV, Filipe IV de França conseguiu impor um papa da sua confiança, Clemente V, os papas passaram a residir em Avignon, sob influência francesa, durante cerca de setenta anos. O regresso a Roma de Gregório XI, em 1377, desencadeou a crise: após a sua morte, os cardeais italianos elegeram Urbano VI, mas os cardeais franceses recusaram reconhecê-lo, alegando pressão da plebe romana, e elegeram um papa rival, Clemente VII, que se instalou novamente em Avignon. Estava instituído o cisma.
A divisão não foi doutrinal - ao contrário do Cisma do Oriente ou da futura Reforma Protestante - mas sim um cisma de obediências. Os reinos cristãos do Ocidente alinharam-se conforme os seus interesses políticos: aliados e inimigos tenderam a reconhecer papas diferentes. Portugal viveu isso de forma particularmente exemplar: o rei D. Fernando mudou de posição quatro vezes em poucos anos, oscilando entre o papa de Roma e o de Avignon consoante a sua situação militar e diplomática com Castela e Inglaterra. Com a crise de 1383 e a ascensão de D. João I, Portugal fixou-se definitivamente na obediência ao papa de Roma, o que permitiu dar à guerra contra Castela uma dimensão religiosa acrescida, apresentando o adversário como adepto de um antipapa.
Para resolver o impasse, reuniu-se em 1409 o Concílio de Pisa, que depôs os dois papas existentes e elegeu um terceiro. Como nenhum dos depostos aceitou a decisão, a Igreja ficou, durante cinco anos, com três papas em simultâneo. A solução definitiva veio com o Concílio de Constança, patrocinado pelo futuro imperador Sigismundo, que conseguiu que o papa de Roma resignasse e que os outros dois fossem depostos, elegendo-se então Martim V, da família Colonna, como papa universal. Curiosamente, o concílio organizou o seu vasto clero por "nações" à semelhança das universidades medievais - e Portugal ficou integrado na "nação espanhola", juntamente com Castela e Aragão, o que os apresentadores aproveitam para recordar que "Espanha" era então o nome latino de toda a Península Ibérica.
O episódio termina com duas reflexões mais amplas. A primeira diz respeito à Inquisição: ao contrário do que frequentemente se supõe, foi imposta pelos reis de Portugal e de Espanha contra a vontade papal, sendo um tribunal do Estado e não da Igreja. A segunda, e talvez mais surpreendente, é a tese de que os papas actuais são, paradoxalmente, mais poderosos do que os seus antecessores medievais. Até ao século XIX, as igrejas nacionais eram controladas pelos governos, que nomeavam bispos e dispunham das suas rendas; o papa pouco mais fazia do que sancionar essas decisões. Foi apenas após a perda dos Estados Papais e, sobretudo, com as separações entre Igreja e Estado no século XX, que o papa se tornou o verdadeiro soberano de uma organização espiritual centralizada e independente dos poderes políticos nacionais.
Personagens
- Papa Gregório XII
- Papa Bento XIII
- Papa João XXIII (antipapa)
- Papa João XXIII (século XX)
- Papa Clemente V
- Papa Urbano VI
- Papa Clemente VII
- Papa Martinho V
- Papa João Paulo II
- Papa Bento XVI
- Papa Francisco
- Filipe IV (rei de França)
- Dom Fernando I (Portugal)
- Dom João I (Portugal)
- Dom Sancho II (Portugal)
- Dom Afonso III (Portugal)
- Dom Manuel I (Portugal)
- Dom João III (Portugal)
- Dom Pedro I (Portugal)
- Cardeal Infante Henrique
- Francisco I (rei de França)
- Isabel I (Inglaterra)
- Carlos V (imperador)
- Carlos Magno
- Martinho Lutero
- Júlio César
- Constantino (imperador romano)
- Jesus Cristo
Lugares/Países
- Portugal
- França
- Itália
- Roma
- Avignon
- Castela
- Inglaterra
- Alemanha
- Espanha
- Aragão
- Polónia
- Hungria
- Dinamarca
- Escandinávia
- Holanda
- Países Baixos
- Japão
- Brasil
- Índia
- China
- Constantinopla
- Pisa
- Constança
- Perugia
Épocas
- século XV
- século XIV
- século XI
- século XVI
- século XIX
- século XX
- Idade Média
- Antiguidade
Temas
- religião
- papado
- cisma
- diplomacia
- guerra
- poder político
- inquisição
- reforma protestante
- colonialismo
- expansão marítima
- Igreja Católica
- ortodoxia
- protestantismo
- judaísmo
- perseguição religiosa
- concílios
- monarquia
Eventos
- Grande Cisma do Ocidente
- Cisma do Oriente
- Reforma Protestante
- Crise de 1383-1385
- Guerra dos Cem Anos
- Concílio de Pisa
- Concílio de Constança
- Concílio de Perugia
- Batalha de Aljubarrota
- Cortes de Coimbra (1385)
- Tratado de Tordesilhas
- Unificação da Itália
- Jornadas Mundiais da Juventude
Guerras e conflitos
- Guerra dos Cem Anos
- Guerra entre Portugal e Castela (1381-1383)
- Guerras religiosas (século XVI)