Nº 531 de julho de 201942:41resposta a ouvintes
E se o primeiro rei de Portugal não fosse D. Afonso Henriques?
Episódio dividido em três temas principais suscitados por perguntas de ouvintes: a origem da polémica jornalística em Portugal (com o caso pioneiro de José Liberato Freire de Carvalho e o Conde de Palmela no século XIX), a importância do testemunho de Primo Levi sobre Auschwitz, e a efémera Monarquia do Norte de 1919. Rui Ramos traça a génese da independência da imprensa face ao poder, defende a leitura de 'Se Isto é um Homem', e explica o fracasso da tentativa monárquica liderada por Paiva Couceiro. O episódio termina esclarecendo porque D. Afonso Henriques, e não Garcia II da Galiza, é considerado o primeiro rei de Portugal.
Ideias principais
- A primeira polémica jornalística portuguesa registada envolveu José Liberato Freire de Carvalho, que em 1816 recusou submeter o jornal 'O Investigador Português' à censura prévia do Conde de Palmela, defendendo que um jornal controlado pelo governo perde credibilidade junto dos leitores.
- O Conde de Palmela, surpreendentemente, reconheceu a razão do jornalista e pediu desculpa, compreendendo que informação totalmente controlada não é credível - um exemplo raro de sensibilidade política há 200 anos.
- Primo Levi e Alexandre Solzhenitsyn escreveram os dois livros fundamentais sobre a experiência da desumanização em campos de concentração nazi e soviético, sendo que a força das palavras consegue transmitir dimensões do horror que as imagens não captam.
- A Monarquia do Norte (Janeiro-Fevereiro de 1919) fracassou porque D. Manuel II recusou regressar como chefe de uma revolução, querendo ser restaurado consensualmente como 'rei de todos os portugueses', e porque os monárquicos não tinham o controlo da marinha, essencial para guerras civis em Portugal.
- Garcia II da Galiza (1043-1090) intitulou-se rei de Portugal e Galiza, mas o primeiro rei exclusivamente de Portugal foi D. Afonso Henriques, que se chamou 'rei dos portugueses' (uma comunidade de pessoas) e expandiu o território muito além do condado portugalense original.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram três temas distintos, partindo de acontecimentos recentes ou de efemérides para mergulhar na história portuguesa e europeia.
O primeiro assunto surge a propósito de uma polémica mediática do momento: quando é que a imprensa começou a incomodar o poder em Portugal? Os apresentadores recuam ao século XVIII, ao tempo do Marquês de Pombal, que terá suspendido a Gazeta de Lisboa por desagrado com o seu conteúdo. Mas é no início do século XIX, já durante as guerras napoleónicas, que surgem publicações mais próximas do que hoje entendemos por jornalismo: o Português, o Investigador Português e o Correio Brasiliense, todos editados em Londres para escapar à censura vigente em Portugal. O caso mais revelador é o do redator José Liberato Freire de Carvalho, que dirigia o Investigador Português com subsídio do governo português, mas recusou subordinar a sua linha editorial às orientações do Conde de Palmela, então embaixador em Londres. Numa carta que Liberato guardou em rascunho e publicou décadas depois nas suas memórias, argumentava que nenhum jornalista pode vender as suas opiniões. O Conde de Palmela, homem inteligente, acabou por reconhecer que uma imprensa controlada pelo governo não tem credibilidade. Em 1819, há precisamente duzentos anos relativamente à data de gravação, Liberato fundou o Campeão Português, financiado exclusivamente por assinaturas de leitores, reconhecendo que a independência editorial só é possível com independência económica.
O segundo tema é uma homenagem ao centenário do nascimento de Primo Levi, nascido a 31 de julho de 1919. Rui Ramos defende que Se Isto É um Homem é leitura obrigatória, a par de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich de Solzhenitsyn, porque ambos os livros descrevem a experiência de desumanização total - a de perceber que se deixou de ser reconhecido como ser humano. O que distingue Primo Levi de documentários e filmes é a capacidade da narrativa escrita para iluminar dimensões que a imagem não capta: a brutalidade entre os próprios prisioneiros, os raros gestos de generosidade, a complexidade das relações num espaço extremo. Rui Ramos refere ainda o debate sobre a morte do escritor em 1987, citando Elie Wiesel, que considerou que Primo Levi morreu de facto em Auschwitz, apenas com quarenta anos de atraso.
Na segunda parte, os apresentadores respondem a perguntas de ouvintes. A primeira aborda a chamada Monarquia do Norte de 1919: após o assassinato de Sidónio Pais em dezembro de 1918, a frágil coligação entre republicanos moderados e monárquicos que sustentava o sidonismo desmoronou-se por desconfianças mútuas, originando um golpe militar no Porto liderado pelo comandante Paiva Couceiro, que instaurou brevemente uma Junta de Governo do Reino. O episódio durou apenas cerca de um mês, travado pela superioridade naval das forças republicanas e pela falta de entusiasmo do rei D. Manuel II, exilado em Londres. Os apresentadores explicam que D. Manuel não queria regressar à frente de uma revolução, mas ser recebido consensualmente como rei de todos os portugueses.
A última questão, proposta por um ouvinte, interroga se Garcia II da Galiza não teria sido o verdadeiro primeiro rei de Portugal, dado que a sua pedra tumular o designa como rei de Portugal e Galiza. Rui Ramos esclarece que Garcia era filho do rei Fernando Magno e governou o condado da Galiza a que pertencia o território portucalense, chamando a si o título régio por ser filho de rei. Não era, porém, rei exclusivamente de Portugal: D. Afonso Henriques foi o primeiro monarca cujo poder assentou apenas neste território e cuja chancelaria utilizou a designação de rei dos portugueses, um título associado a uma comunidade de pessoas e não apenas a um território, e que corresponde já a um Portugal muito mais vasto do que o condado portucalense original.
Personagens
- Marquês de Pombal
- D. José I
- João Bernardo da Rocha Loureiro
- José Liberato Freire de Carvalho
- Hipólito José da Costa
- Conde de Palmela
- D. João VI
- Primo Levi
- Alexandre Solzhenitsyn
- Elie Wiesel
- Alain Resnais
- Sidónio Pais
- Afonso Costa
- Paiva Couceiro
- D. Manuel II
- João Sarmento Pimentel
- Garcia II da Galiza
- Fernando Magno
- D. Afonso Henriques
- Nuno Mendes
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- Londres
- Brasil
- Rio de Janeiro
- França
- Europa
- Alemanha
- Rússia
- Itália
- Galiza
- Porto
- Coimbra
- Lisboa
- Santarém
- Leão
- Castela
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- Segunda Guerra Mundial
- anos 1960
- anos 1980
- século XI
- 1917-1919
- 1910-1917
- Restauração de 1641
- invasões francesas
- guerras napoleónicas
- Primeira República
Temas
- imprensa
- jornalismo
- censura
- liberdade de imprensa
- Holocausto
- campos de concentração
- monarquia
- república
- golpes militares
- guerra civil
- exílio
- independência
- formação de Portugal
Eventos
- Restauração de 1641
- invasões francesas
- Congresso de Viena
- 31 de janeiro de 1891
- golpe de Sidónio Pais 1917
- assassinato de Sidónio Pais 1918
- Monarquia do Norte 1919
- Batalha de Pedrosos 1071
- julgamento de Auschwitz anos 60
Guerras e conflitos
- guerras napoleónicas
- Segunda Guerra Mundial
- incursões monárquicas 1911-1912
- guerra civil portuguesa 1919
Livros recomendados
- Se Isto é um Homem
- Um Dia na Vida de Ivan Denisovich
Livros citados
- Se Isto é um Homem
- Um Dia na Vida de Ivan Denisovich
- Auschwitz (três volumes sobre julgamento)
- memórias de José Liberato Freire de Carvalho