Nº 3618 de março de 202040:56resposta a ouvintes
Especial epidemia e o nascimento da quarentena
Episódio especial sobre epidemias ao longo da história, focado na Peste Negra do século XIV e na peste do Porto de 1899. Rui Ramos explica a origem da quarentena nas cidades italianas medievais, os impactos demográficos e sociais da Peste Negra (que matou um terço da população europeia), e como Ricardo Jorge enfrentou a peste bubónica no Porto, provocando uma crise política que elegeu os 'deputados da peste' republicanos.
Ideias principais
- A Peste Negra do século XIV matou entre um terço e metade da população europeia (cerca de 25 milhões em 80 milhões), e algumas regiões só recuperaram a população perdida 200 a 300 anos depois.
- A quarentena nasceu em Ragusa (actual Dubrovnik) em 1377 como isolamento de 30 dias, sendo aumentada para 40 dias em Veneza em 1448, período que coincide precisamente com os 37 dias de infecção à morte da peste bubónica.
- As sociedades medievais enfrentaram epidemias devastadoras sem conhecer as suas causas microbiológicas, mas desenvolveram intuições correctas sobre contágio e isolamento que funcionavam na prática.
- A peste do Porto de 1899, combatida por Ricardo Jorge através de cordão sanitário, provocou descontentamento político que o Partido Regenerador explorou para eleger três deputados republicanos, os 'deputados da peste'.
- A história das epidemias mostra que, apesar do progresso científico, a nossa cultura contemporânea de condenação do passado limita a capacidade de aprender com experiências históricas de gestão de crises sanitárias.
Resumo do episódio
Este episódio especial do podcast *E o Resto é História* foi gravado durante o período inicial da pandemia de Covid-19, com cada apresentador a participar a partir de casa. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a perguntas de ouvintes sobre epidemias ao longo da história, procurando oferecer perspectiva histórica num momento de grande ansiedade colectiva.
A primeira grande questão abordada diz respeito à Peste Negra e ao seu impacto em Portugal. Rui Ramos recorda que esta foi a segunda epidemia de peste com registo histórico na Europa, tendo chegado do continente asiático por volta de 1347-48 e dizimado entre um terço e metade da população europeia - cerca de 25 milhões de pessoas num total estimado de 80 milhões. A ignorância sobre as causas da doença, atribuída então a "miasmas" ou a grupos minoritários como os judeus, contrastava com a continuidade das instituições políticas: guerras, disputas dinásticas e reuniões de cortes prosseguiram apesar da catástrofe. Em Portugal, o rei Afonso IV legislou já em 1349 sobre a escassez de mão-de-obra e o abandono das terras. Quanto à ligação entre a peste e a crise de 1383-1385, os apresentadores consideram-na tênue: embora a sociedade portuguesa tivesse sido profundamente abalada quarenta anos antes, a revolução de Avis não representou uma verdadeira substituição de classes sociais. Ainda assim, a peste desempenhou um papel concreto nesse período ao forçar o rei de Castela a levantar o cerco de Lisboa em 1384, quando a doença grassou no seu exército.
A segunda parte do episódio dedica-se à origem da palavra e da prática da quarentena. O primeiro registo histórico situa-se em Ragusa - a actual Dubrovnik - em 1377, onde os navios provenientes da Ásia eram obrigados a permanecer trinta dias fundeados antes de entrar no porto. Veneza alargou esse período para quarenta dias em 1448, dando origem ao termo. Curiosamente, este intervalo coincide com o período de infecção da peste bubónica, o que revela uma intuição médica notável para a época. Associados a estas práticas surgem os lazaretos, instalações de isolamento localizadas em ilhas afastadas, cujo patrono era São Lázaro. O lazareto de Lisboa, reconstruído em 1867 junto à Torre Velha em Almada, foi descrito pelo ilustrador Rafael Bordalo Pinheiro num livro de 1881, após ter sido internado à chegada do Brasil. O seu relato combina ironia e crítica ao sistema, concluindo que o lazareto "prendia tudo, menos a febre amarela".
Os apresentadores debatem também a tensão, já visível no século XIX, entre duas abordagens às epidemias: o isolamento e os cordões sanitários, tradição do sul da Europa, e o investimento em saneamento básico e higiene pública, preferido no norte. Esta discussão materializa-se no surto de peste bubónica que atingiu o Porto em 1899. O médico Ricardo Jorge identificou os primeiros casos num bairro habitado sobretudo por galegos e viu as autoridades de Lisboa decretarem um cordão sanitário militar em torno da cidade, de agosto a dezembro desse ano. A medida gerou enorme contestação popular: o presidente da câmara demitiu-se em protesto, Ricardo Jorge foi ameaçado e forçado a abandonar o Porto, e o médico Câmara de Pestana morreu infectado durante uma autópsia, com apenas 34 anos. Nas eleições de novembro de 1899, o descontentamento foi aproveitado politicamente pelo Partido Regenerador, que contribuiu para eleger três deputados republicanos pelo Porto - os chamados "deputados da peste" -, numa manobra destinada a desestabilizar o governo progressista. O surto acabou por reforçar a atenção sobre as precárias condições de habitação nas "ilhas" portuenses, onde viviam cerca de 50 mil pessoas, consolidando a ideia de que a saúde pública e o urbanismo estavam indissociavelmente ligados.
Personagens
- D. Afonso IV
- D. Pedro I
- Inês de Castro
- D. Fernando
- D. João I
- D. Duarte
- Jared Diamond
- Ingmar Bergman
- Rafael Bordalo Pinheiro
- Ricardo Jorge
- Câmara Pestana
Lugares/Países
- Portugal
- Europa
- Itália
- França
- Inglaterra
- Castela
- Espanha
- Croácia
- Veneza
- Ragusa (Dubrovnik)
- Constantinopla
- Ásia Central
- Médio Oriente
- Paris
- Brasil
- África
- China
- Índia
- Hong Kong
- Macau
- Estados Unidos
- Porto
- Lisboa
- Almada
- Caparica
- Nova Zelândia
Épocas
- século VI
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- década de 1890
- 1899
- Idade Média
- Monarquia Constitucional
Temas
- epidemias
- saúde pública
- peste
- quarentena
- medicina
- higiene
- urbanismo
- política
- sociedade
- guerra civil
- comércio marítimo
- religião
- judaísmo
- globalização
- população
- clima
- fome
- trabalho
- isolamento sanitário
Eventos
- Peste Negra
- Crise de 1383-1385
- Cerco de Lisboa (1384)
- Guerra dos Cem Anos
- Batalha de Poitiers (1356)
- Assassinato de Inês de Castro (1355)
- Epidemia de Cólera (1833)
- Peste do Porto (1899)
- Ultimato (1890)
- Gripe Espanhola
Guerras e conflitos
- Guerra dos Cem Anos
- Crise de 1383-1385
- Cerco de Lisboa (1384)
- Guerra Civil Portuguesa (década de 1830)
Livros citados
- O Mundo Até Ontem (Jared Diamond)
- No Lazareto de Lisboa (Rafael Bordalo Pinheiro)