Nº 32102 de setembro de 202543:48análise histórica
Estradas, canais e comboios chegam a Portugal
O episódio analisa a transformação da mobilidade em Portugal entre os séculos XIX e XX, desde a chegada das estradas macadamizadas e caminhos de ferro até ao automóvel. Explora como a influência de Adam Smith impulsionou o investimento em infraestruturas, associando circulação a prosperidade económica e construção nacional. Conclui mostrando como a mobilidade geográfica permitiu mobilidade social, urbanização e a transformação radical da sociedade portuguesa.
Ideias principais
- A leitura de Adam Smith por elites portuguesas, incluindo absolutistas como José Acúrsio das Neves, introduziu a ideia de que a riqueza depende da facilidade de circulação, não da sua restrição, tornando as infraestruturas uma obsessão governamental.
- Portugal construiu os caminhos de ferro mais caros da Europa devido ao relevo acidentado, financiando-os com endividamento externo junto de investidores de Londres, Paris e Frankfurt interessados em projectos de transportes.
- A mobilidade geográfica tornou-se instrumento de construção nacional: era necessário 'fundir' e 'mestiçar' as populações regionais para criar uma nação unificada, não apenas comunidades locais isoladas.
- A emigração em massa para o Brasil no século XIX e princípio do XX, facilitada pelos barcos a vapor, tornou-se o principal elevador de mobilidade social portuguesa, com remessas superando o antigo ouro colonial.
- Entre 1900 e 2000, metade da população concentrou-se em Lisboa, Porto e Setúbal (antes 29%), e o emprego agrícola foi substituído por serviços, numa transformação económica e cultural impossível sem mobilidade geográfica massiva.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é a segunda parte de uma série dedicada à mobilidade geográfica dos portugueses ao longo da história. Partindo da constatação, desenvolvida no episódio anterior, de que os portugueses praticamente não saíam do lugar onde nasciam até ao século XIX, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram agora as transformações nas infraestruturas de transporte e comunicação que tornaram possível - e depois desejável - a deslocação das pessoas.
O ponto de partida intelectual da mudança encontra-se na difusão das ideias de Adam Smith em Portugal, ainda no final do século XVIII. O ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho leu e promoveu a leitura de *A Riqueza das Nações*, convencendo administradores e governantes de que a prosperidade dependia da livre circulação de bens, capitais e pessoas. Esta ideia fez escola mesmo entre políticos não liberais: o miguelista José Cúrcio das Neves, por exemplo, defendia que as péssimas estradas portuguesas eram o principal obstrangulamento da economia nacional. A partir desta lógica, os governos do século XIX tornaram-se obcecados com a construção de infraestruturas, financiando-as frequentemente com empréstimos nas praças de Londres, Paris e Frankfurt, onde havia investidores disponíveis para apostar em caminhos de ferro e estradas.
Os resultados foram impressionantes em termos quantitativos. Em 1853 existiam 151 quilómetros de estrada em Portugal; em 1863 já eram 1537, o que permitiu instalar sistemas de diligências que reduziram a viagem Lisboa-Porto de sete dias para 34 horas. A chegada do caminho de ferro acelerou ainda mais o processo: a partir de 1856, os comboios atingiam 50 quilómetros por hora - uma velocidade que os apresentadores comparam ao espanto que hoje causaria um Fórmula 1 -, ligando Lisboa a Elvas, ao Porto e a Beja na década de 1860. A tudo isto se somaram o correio diário regular, estabelecido em 1853, e o telégrafo elétrico, que permitia saber em minutos o que acontecia noutra cidade ou noutro continente. Além da economia, a circulação passou a ser entendida como sinónimo de civilização e de construção da identidade nacional: a *Revista Universal Lisbonense* defendia em 1842 que era necessário misturar as populações do campo e da cidade para que Portugal fosse verdadeiramente uma nação.
No século XX, a revolução dos transportes continuou com as camionetas e os camiões após a Primeira Guerra Mundial - uma transformação que os apresentadores consideram tão significativa quanto a do comboio, embora menos celebrada na memória histórica -, com o desenvolvimento da aviação comercial e a fundação da TAP em 1945, fortemente ligada às ligações ao ultramar, e finalmente com a massificação do automóvel particular: de cerca de um milhão de veículos em 1980, Portugal passou a sete milhões vinte anos depois.
Toda esta mobilidade geográfica está, segundo Rui Ramos, na base das transformações sociais e económicas mais profundas do Portugal contemporâneo. A deslocação do interior para as grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto foi estrutural: em 1900, os distritos de Lisboa, Porto e Setúbal concentravam 29% da população; no ano 2000, concentravam 50%. Esta urbanização facilitou a escolarização, melhorou o acesso a cuidados de saúde e favoreceu mudanças culturais, como a secularização progressiva dos comportamentos. A mobilidade geográfica foi também o principal motor da mobilidade social: ir para o Brasil no século XIX e início do século XX, emigrar para França e Alemanha nos anos 1960 e 1970, ou mudar-se para Lisboa foram as formas concretas através das quais os portugueses mudaram de vida e de classe. O episódio conclui com a ideia de que vivemos hoje num mundo em que a deslocação deixou de ser uma necessidade excecional para se tornar uma dimensão constitutiva da própria identidade - algo que teria parecido completamente estranho a qualquer português do século XIX.
Personagens
- Adam Smith
- Rodrigo de Sousa Coutinho
- D. João VI
- José Acúrsio das Neves
- Frédéric Bastiat
- Fontes Pereira de Melo
- Eça de Queirós
- John Loudon McAdam
- Oliveira Martins
- Camilo Castelo Branco
- Salazar
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Inglaterra
- França
- Alemanha
- Estados Unidos
- Espanha
- Itália
- Argentina
- Angola
- Moçambique
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- economia
- infraestruturas
- transportes
- mobilidade
- emigração
- urbanização
- colonialismo
- modernização
- industrialização
- turismo
Eventos
- chegada do caminho de ferro a Portugal
- construção de estradas macadamizadas
- época do volfrâmio
- descolonização
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- A Riqueza das Nações (Adam Smith)
- O Brasil e as Colónias Portuguesas (Oliveira Martins)
- A Capital (Eça de Queirós)
- Os Emigrantes (Ferreira de Castro)
- A Cidade e as Serras (Eça de Queirós)
- Volfrâmio (Alves Redol)