Nº 1416 de outubro de 201943:45análise histórica
Fascistas, comunistas, maoístas e um romano chamado Sertório
Este episódio aborda três temas: primeiro, a definição histórica rigorosa de fascismo, distinguindo o fenómeno do pós-Primeira Guerra Mundial do uso indiscriminado actual do termo; segundo, o maoísmo português nos anos 60-70, explicando porque gerações universitárias aderiram a este radicalismo vindo da China via França; terceiro, responde a uma pergunta sobre o general romano Sertório, que liderou lusitanos numa guerra civil romana na Península Ibérica no século I a.C.
Ideias principais
- O fascismo histórico caracteriza-se pela contestação aberta da democracia parlamentar, pelo recurso sistemático à violência como método político, e por uma revolução social total ao serviço da nação, distinguindo-se assim de meros autoritarismos.
- O maoísmo português dos anos 60-70 foi essencialmente uma importação francesa do Maio de 68, atraindo jovens que viam os partidos comunistas pró-soviéticos como conservadores do sistema, procurando uma experiência revolucionária total e confrontacional.
- Muitos ex-maoístas portugueses transitaram para a direita democrática após terem combatido o Partido Comunista Português como inimigo comum entre 1974-75, explicando a presença de antigos radicais em posições moderadas actuais.
- A presença de Sertório na Península Ibérica no século I a.C. revela que os lusitanos já estavam profundamente integrados no mundo romano, participando em guerras civis romanas e não apenas em lutas pela independência, contrariando a mitologia nacional simplificada.
- A fixação em definições históricas estritas de fascismo pode impedir a identificação de novas formas de ameaça à democracia, tal como as ditaduras modernas já não se parecem com as do século XX mas continuam a ser ditaduras.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em três momentos distintos: uma discussão sobre o conceito de fascismo e o seu uso na linguagem política contemporânea, uma reflexão sobre o maoísmo português, e uma breve incursão à história romana através da figura de Sertório.
A conversa começa com uma questão lançada por João Miguel Tavares a propósito da chegada de André Ventura ao Parlamento: o que distingue verdadeiramente um fascista? Rui Ramos começa por contextualizar historicamente o fascismo como um fenómeno do pós-Primeira Guerra Mundial, nascido num clima de desilusão nacional, medo da revolução bolchevista e crise dos valores liberais do século XIX. O fascismo italiano, liderado por Mussolini - ele próprio proveniente do socialismo -, combinava métodos e retórica revolucionários com um forte apelo à nação, distinguindo-se das esquerdas marxistas pelo recuo da luta de classes em favor da unidade nacional contra inimigos externos ou internos. Ramos sublinha que os comunistas, ao recusarem reconhecer a dimensão revolucionária do fascismo, acabaram por usar o rótulo de "fascista" para designar tudo o que não fosse comunista, incluindo os social-democratas. A partir da derrota do fascismo em 1945 e da sua associação ao genocídio nazi, a palavra tornou-se sobretudo um insulto político sem conteúdo analítico preciso. Para Ramos, as características verdadeiramente definidoras do fascismo histórico são três: a rejeição ideológica explícita da democracia parlamentar, o recurso sistemático à violência como instrumento político, e a ambição de uma revolução social total que penetra na vida quotidiana dos cidadãos. O historiador adverte que a fixação neste rótulo pode impedir-nos de reconhecer ameaças contemporâneas à democracia que assumem formas novas - como regimes que usam eleições condicionadas e tribunais para perpetuar o poder - e que não cabem na definição clássica de fascismo.
A segunda parte do episódio é dedicada ao maoísmo português, evocado a propósito do aniversário do início da Grande Marcha, em outubro de 1934. Tavares recorda que Portugal teve uma geração marcante de ex-maoístas, entre os quais Durão Barroso, Maria José Morgado e José Pacheco Pereira. Ramos explica que o maoísmo chegou a Portugal essencialmente pela via francesa, filtrado pelo ambiente universitário do Maio de 68, e não por um conhecimento directo da China. O apelo do maoísmo residia precisamente no facto de os partidos comunistas pró-soviéticos serem vistos como forças conservadoras, integradas no sistema, incapazes do confronto radical que estes jovens procuravam. A China maoísta e Cuba surgiam, por contraste, como expressões de um comunismo mais jovem, mais combativo e mais total - uma experiência que envolvia toda a vida, dos hábitos pessoais às relações amorosas. Em Portugal, após o 25 de Abril, os maoístas do MRPP acabaram por se aliar, paradoxalmente, a sectores de direita e de esquerda moderada no combate ao Partido Comunista pró-soviético, o que poderá ajudar a explicar a posterior trajectória política de alguns dos seus militantes.
O episódio encerra com uma pergunta enviada por um ouvinte de nove anos sobre Sertório, general romano do século I a.C. que combateu na Península Ibérica. Ramos explica que Sertório era um partidário de Mário na guerra civil romana contra Sila, e que veio para a Hispânia - onde já havia sido governador - para continuar essa luta a partir de uma base periférica, apoiado pelos lusitanos. O historiador aproveita para questionar a imagem romântica dos lusitanos como povo isolado e indómito: a sua participação ao lado de Sertório revela, antes, uma integração já considerável no mundo romano. Tal como Viriato, Sertório acabou assassinado pelos seus próprios companheiros em 72 a.C., o que facilitou a sua absorção pela mitologia nacional portuguesa, tornando-o numa espécie de romano honorário da nossa história.
Personagens
- André Ventura
- Benito Mussolini
- Lenin
- Manoel de Lucena
- Mao Tsé-Tung
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- Maria José Morgado
- José Pacheco Pereira
- Nuno Crato
- José Manuel Fernandes
- José Lameiro
- António Costa Pinto
- Jorge Coelho
- Stalin
- Quinto Sertório
- Mário
- Sila
- Plutarco
- Viriato
- Camões
Lugares/Países
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- União Soviética
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- Roma Antiga
- Península Ibérica
Épocas
- Pós-Primeira Guerra Mundial
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- Século I a.C.
- Segunda Guerra Mundial
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- Renascimento
Temas
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Livros citados
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