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Nº 7730 de dezembro de 202058:05efeméride

Fernão de Magalhães segundo Henrique Leitão

Episódio dedicado aos 500 anos da viagem de circunnavegação de Fernão de Magalhães (1519-1522), com enfoque na dimensão científica e tecnológica dos descobrimentos portugueses. Henrique Leitão explica como a primeira travessia do Pacífico foi um feito planeado cientificamente, dependente de conhecimentos astronómicos e cartográficos avançados, e discute a evolução da náutica portuguesa do século XV ao XVIII, incluindo o impacto da expulsão dos jesuítas no colapso educativo português.

Ideias principais

  1. A travessia do Pacífico por Magalhães foi o maior oceano do mundo atravessado de uma ponta à outra à primeira tentativa, um feito náutico sem paralelo que estava planeado desde o início e dependia de conhecimento científico preciso da dimensão do oceano.
  2. A viagem tinha como objetivo chegar às Molucas pelo hemisfério espanhol e determinar cientificamente se estavam do lado português ou castelhano segundo o Tratado de Tordesilhas, exigindo a presença de matemáticos e astrónomos para medir a longitude com precisão.
  3. A história da ciência mudou radicalmente nos últimos 50 anos, deixando de ser apenas história intelectual de génios para incluir práticas, comunidades, cultura material e conhecimento de pessoas comuns, o que revelou a importância científica das navegações ibéricas.
  4. Portugal teve superioridade científica náutica no século XVI mas perdeu essa vantagem no século XVII por falhas nos sistemas de ensino, que não conseguiram treinar pilotos e técnicos ao nível exigido pelo progresso científico da época.
  5. A expulsão dos jesuítas por Pombal em 1759 foi uma catástrofe educativa sem precedentes, fechando escolas que educavam 20 mil alunos e substituindo-as por praticamente nada, criando um vazio que só seria recuperado nos anos 1930.

Resumo do episódio

Neste episódio especial de final de ano, Rui Ramos e João Miguel Tavares recebem Henrique Leitão, historiador da ciência e vencedor do Prémio Pessoa, para assinalar os quinhentos anos do início da viagem de circunnavegação liderada por Fernão de Magalhães. O ponto de partida é uma afirmação de alcance: o maior oceano do planeta foi atravessado de uma extremidade à outra, à primeira tentativa, por uma expedição comandada por um português ao serviço de Castela. Leitão insiste que não existe paralelo para este feito na história náutica mundial, e que a analogia mais próxima seria imaginar a conquista do Evereste realizada à primeira tentativa, sem qualquer tentativa prévia falhada.

Um dos primeiros mitos desmontados é o de que Magalhães teria partido para provar que a Terra era redonda. Leitão explica que, no mundo ocidental, a esfericidade da Terra nunca foi posta em causa desde Aristóteles, passando por Eratóstenes e Ptolomeu até aos tratados medievais como o de Sacrobosco. A ideia contrária, ainda ensinada em escolas norte-americanas, não tem qualquer fundamento histórico. A viagem tinha um objetivo muito concreto e comercialmente estratégico: alcançar as ilhas Molucas, o centro do comércio das especiarias, navegando pelo lado castelhano, ou seja, evitando as rotas controladas pelos portugueses. A circunnavegação não estava planeada; resultou de um fracasso, pois Magalhães morreu nas Filipinas e a tripulação sobrevivente, incapaz de regressar pelo Pacífico, acabou por completar a volta ao mundo sob o comando do espanhol Juan Sebastián Elcano.

O elemento científico da expedição é central na análise de Leitão. A questão decisiva era determinar a longitude das Molucas para saber se pertenciam à esfera espanhola ou portuguesa segundo o Tratado de Tordesilhas. Para isso, Magalhães associou-se ao cosmógrafo Rui Faleiro, com quem partilhou em paridade o comando oficial da expedição - uma configuração sem precedentes na história das navegações. Quando Faleiro enlouqueceu e não embarcou, foi substituído pelo astrónomo espanhol Andrés de San Martín. A convicção de Leitão, partilhada por vários historiadores, é que San Martín mediu a longitude já perto das Filipinas e concluiu que as Molucas estavam do lado português, o que tornaria toda a viagem um fracasso nos seus próprios termos. Esta interpretação ajuda a compreender o comportamento aparentemente inexplicável de Magalhães nas Filipinas - quarenta dias de inércia e envolvimento em conflitos locais sem sentido estratégico - e leva alguns historiadores a falar de um estado de desespero, ou mesmo de suicídio implícito.

Rui Ramos introduz uma reflexão mais ampla sobre a maneira como a historiografia tem representado estas viagens, oscilando entre apresentá-las como atos de aventura quase suicida ou como empreendimentos quase científicos à moderna. Leitão responde situando essa tensão na evolução da própria história da ciência: durante décadas, esta disciplina valorizou apenas os grandes génios e as ideias sublimes, o que tornava difícil reconhecer o contributo científico das navegações sem grandes nomes a celebrar. Nos últimos cinquenta anos, a historiografia passou a considerar práticas, comunidades, objetos, roteiros e saberes técnicos de pessoas de todos os estratos sociais, o que colocou as navegações ibéricas no centro de um novo campo de estudo, a chamada Iberian Science, revelando uma riqueza histórica antes invisível.

O episódio termina com uma discussão sobre a eventual decadência científica portuguesa a partir do século XVII. Leitão admite alguma razão nas teses de Luís de Albuquerque sobre uma rotinização da náutica portuguesa, mas alerta para o risco de projetar sobre esse período a narrativa liberal de decadência ibérica. A sua explicação privilegia os sistemas de ensino: enquanto no século XVI era possível formar pilotos e cartógrafos em estruturas informais, o avanço do conhecimento exigia cada vez mais instituições escolares sólidas, que Portugal não soube criar ou manter. O momento mais catastrófico foi a expulsão dos jesuítas em 1759, que encerrou de um dia para o outro os colégios que educavam cerca de vinte mil alunos, sem qualquer sistema de substituição equivalente - uma ruptura cujas consequências, segundo Leitão, se

Personagens

  • Fernão de Magalhães
  • Juan Sebastián Elcano
  • Henrique Leitão
  • João Pedro Marques
  • Rui Faleiro
  • Carlos I de Espanha
  • Andrés de San Martín
  • Aristóteles
  • Eratóstenes
  • Ptolomeu
  • João de Sacrobosco
  • Cosmas Indicopleustes
  • Ulisses
  • Joaquim Bensaúde
  • Martin Beheim
  • Regiomontano
  • Abraham Zacuto
  • Luís Albuquerque
  • Pedro Nunes
  • Fernando Oliveira
  • Diogo Sá
  • Isabel I de Inglaterra
  • Marquês de Pombal
  • Passos Manuel
  • Alexander von Humboldt
  • Copérnico
  • Galileu
  • Kepler
  • Newton
  • Luís Teixeira
  • Infante D. Henrique

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Castela
  • Filipinas
  • Molucas
  • Alemanha
  • Inglaterra
  • Holanda
  • Itália
  • França
  • Polónia
  • Estados Unidos

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • século IV a.C.
  • Antiguidade
  • Idade Média

Temas

  • navegação oceânica
  • descobrimentos portugueses
  • história da ciência
  • cartografia
  • astronomia náutica
  • Tratado de Tordesilhas
  • circunnavegação
  • educação
  • ensino
  • magnetismo terrestre
  • construção naval
  • longitude
  • cosmografia
  • império português
  • império espanhol

Eventos

  • primeira circunnavegação da Terra
  • travessia do Estreito de Magalhães
  • travessia do Oceano Pacífico
  • Tratado de Tordesilhas
  • expulsão dos jesuítas
  • Capitulaciones de Valladolid
  • reforma pombalina da educação

Livros citados

  • Atravessando a Porta do Pacífico: Roteiro e Relatos da Travessia do Estreito de Magalhães entre 1520 e 1620
  • De Caelo (Aristóteles)
  • Tratado da Esfera (Sacrobosco)