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Nº 8710 de março de 20211h02efeméride

Foi há 60 anos: o início da guerra colonial

Episódio dedicado aos 60 anos do início da guerra colonial portuguesa, a 15 de março de 1961, quando a UPA de Holden Roberto massacrou cerca de 800 brancos e milhares de angolanos no norte de Angola. Rui Ramos explica o contexto internacional da Guerra Fria, a pressão americana de Kennedy sobre Salazar, as razões da violência extrema do ataque e como Portugal conseguiu resistir militarmente durante 13 anos, ao contrário das outras potências coloniais europeias.

Ideias principais

  1. O massacre de 15 de março de 1961 foi deliberadamente marcado para coincidir com uma votação nas Nações Unidas onde os EUA votariam contra Portugal pela primeira vez, numa estratégia de Holden Roberto para criar caos internacional.
  2. A violência extrema foi inspirada por Frantz Fanon e visava criar um corte irreversível entre colonizadores e colonizados, provocando uma debandada como acontecera no Congo Belga, mas o resultado foi o oposto: reforçou a presença militar portuguesa.
  3. Portugal conseguiu manter a guerra durante 13 anos porque os seus territórios eram os mais pobres e menos povoados de África, permitindo uma guerra de baixa intensidade nas fronteiras, sustentável economicamente graças ao crescimento económico dos anos 60.
  4. As potências coloniais europeias só abandonaram os seus territórios depois de guerras violentas e prolongadas (França na Argélia com 500 mil homens, Reino Unido no Quénia), desmentindo a narrativa de que Portugal foi excepcionalmente retrógrado.
  5. A guerra colonial portuguesa foi ignorada internacionalmente porque decorria numa zona marginal, sem grandes batalhas, enquanto o mundo se focava no Vietnã e no Médio Oriente, permitindo a Portugal evitar sanções e manter apoio ocidental no contexto da Guerra Fria.

Resumo do episódio

O episódio número 87 de *E o Resto é História* é dedicado ao início da guerra colonial portuguesa, assinalando os sessenta anos dos massacres de 15 de março de 1961 no norte de Angola. A pergunta de partida é dupla: por que razão a UPA escolheu precisamente aquela data para desencadear os seus ataques, e por que motivo recorreu a um nível de violência tão extremo?

Rui Ramos explica que o dia 15 de março não foi escolhido por acaso. Nessa mesma data estava agendada uma votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre os territórios ultramarinos portugueses, na qual a administração Kennedy iria, pela primeira vez, votar contra Portugal, rompendo com a postura de contenção das potências ocidentais que até então havia protegido Lisboa da pressão internacional. O novo presidente americano acreditava que a melhor forma de combater o comunismo nos países em vias de descolonização era apoiar os movimentos independentistas, retirando assim à União Soviética a bandeira do anticolonialismo. Em paralelo, a embaixada americana em Lisboa tentava criar divisões no seio do governo português, tendo o ministro da Defesa, general Botelho Muniz, mostrado alguma receptividade a uma transição gradual para a autonomia dos territórios africanos, posição que Salazar rejeitou de imediato.

O líder da UPA, Holden Roberto, surgiu neste contexto como figura central. Educado numa missão protestante e residente no Congo, tinha boas relações com os Kennedy e era profundamente anticomunista, mas partilhava também a influência do pensamento de Frantz Fanon, que advogava o uso da violência máxima como instrumento de rutura definitiva entre colonizados e colonizadores. A estratégia de Holden Roberto visava reproduzir o que acontecera no Congo Belga: desencadear um terror de tal magnitude que provocasse a fuga em massa dos colonos portugueses e, eventualmente, uma intervenção internacional. O plano falhou por duas razões: ao contrário dos quadros técnicos belgas, os colonos portugueses eram proprietários enraizados há gerações e recusaram abandonar as suas terras; e os massacres, amplamente divulgados pelo regime de Salazar, geraram um choque profundo em Portugal que se traduziu num apoio generalizado ao envio de tropas, que em poucos meses reocuparam o norte de Angola com perdas relativamente reduzidas.

A segunda parte do episódio responde a outra questão: era absurdo Portugal combater por África nos anos 1960? Os apresentadores argumentam que não, ou pelo menos que era discutível, recordando que todas as grandes potências coloniais - Reino Unido, França, Bélgica, Holanda - resistiram durante anos e com exércitos muito maiores antes de abandonarem os seus territórios. O abandono aconteceu quando o custo de manter a presença se tornou insustentável, algo que Portugal, paradoxalmente por ser um país mais pobre com colónias menos desenvolvidas e menos populosas, conseguiu adiar durante treze anos. A guerra manteve-se como um conflito de baixa intensidade nas fronteiras, com uma taxa de mortalidade por combatente muito inferior à registada pelos americanos no Vietname, enquanto a economia metropolitana e colonial crescia a ritmos significativos ao longo dos anos sessenta.

Os apresentadores sublinham ainda que Portugal beneficiou de um contexto internacional favorável: os Estados Unidos acabaram por mudar de posição após a resistência portuguesa em Angola, enquanto França e Alemanha apoiaram diplomaticamente e forneceram material militar. As independências africanas, muitas vezes marcadas por guerras civis e ditaduras, desacreditavam a causa independentista aos olhos de parte da opinião ocidental. Acresce que a guerra colonial portuguesa era praticamente invisível na imprensa internacional, eclipsada pelo Vietname e pelos conflitos do Médio Oriente. Rui Ramos conclui que a ditadura foi também uma condição essencial para a longevidade do esforço de guerra: sem debate público, sem liberdade de imprensa e com a censura a filtrar as notícias provenientes de África, era impossível que se formasse uma contestação organizada semelhante à que nos Estados Unidos acabaria por pôr termo à guerra do Vietname.

Personagens

  • Salazar
  • Holden Roberto
  • John F. Kennedy
  • Robert Kennedy
  • Eisenhower
  • Richard Nixon
  • Botelho Moniz
  • Frantz Fanon
  • Amilcar Cabral
  • Agostinho Neto
  • Jonas Savimbi
  • Eduardo Mondlane
  • Adriano Moreira
  • Harold Macmillan
  • Charles de Gaulle
  • Norton de Matos
  • Álvaro Cunhal
  • Marcelo Caetano
  • Pompidou
  • Che Guevara
  • Mitterrand
  • Venâncio Deslandes

Lugares/Países

  • Portugal
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné-Bissau
  • Estados Unidos
  • Congo Belga
  • França
  • Reino Unido
  • Bélgica
  • Argélia
  • Quénia
  • Indonésia
  • Vietnã
  • Malásia
  • Índia
  • Paquistão
  • Birmânia
  • Rodésia
  • África do Sul
  • Nigéria
  • Libéria
  • Alemanha
  • Itália
  • União Soviética
  • China
  • Espanha
  • Brasil
  • Timor

Épocas

  • Estado Novo
  • Guerra Fria
  • anos 60
  • anos 50
  • século XX
  • Segunda Guerra Mundial
  • princípio do século XX
  • fim do século XIX

Temas

  • colonialismo
  • guerra colonial
  • descolonização
  • independência
  • ditadura
  • anticomunismo
  • nacionalismo
  • guerrilha
  • diplomacia
  • Guerra Fria
  • violência colonial
  • economia de guerra
  • ONU
  • NATO
  • política internacional

Eventos

  • massacre de 15 de março de 1961
  • revolta da Baixa do Cassanje
  • Conferência de Berlim
  • 25 de abril de 1974
  • partilha da Índia
  • independência do Congo
  • cimeira dos Açores
  • golpe de Botelho Moniz
  • Dien Bien Phu

Guerras e conflitos

  • guerra colonial portuguesa
  • guerra de Angola
  • guerra da Guiné
  • guerra de Moçambique
  • guerra da Argélia
  • guerra do Vietnã
  • guerra do Quénia
  • guerra da Indonésia
  • guerra da Malásia
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • campanha contra os Mau Mau