Nº 12424 de novembro de 202140:11resposta a ouvintes
"Glória", o RARET e a origem do Bloco Central
O episódio discute a série Netflix 'Glória' sobre a RARET (centro de retransmissão da Rádio Europa Livre no Ribatejo durante a Guerra Fria) e analisa em profundidade o único governo de Bloco Central da democracia portuguesa (1983-1985), formado por Mário Soares (PS) e Mota Pinto (PSD). Contextualiza as contradições da Guerra Fria - ditaduras aliadas de democracias - e explica como a grave crise económica, a pressão do FMI e a negociação da entrada na CEE forçaram a coligação, que enfrentou terrorismo, inflação de 34%, desemprego de 11% e profundas divisões internas, culminando na sua queda após apenas dois anos.
Ideias principais
- A RARET em Glória do Ribatejo simbolizava a contradição da Guerra Fria: uma rádio pró-democracia emitindo para ditaduras comunistas a partir de uma ditadura de direita aliada dos EUA, ilustrando a lógica de 'os inimigos dos meus inimigos são meus amigos'.
- O Bloco Central de 1983-1985 foi forçado por uma crise económica devastadora: déficit público de 18,5% do PIB, déficit externo de 12%, inflação de 34%, crise do petróleo e falência do modelo económico estatizado pós-25 de Abril.
- A coligação PS-PSD enfrentou oposição interna severa em ambos os partidos: no PSD, 24 de 57 conselheiros votaram contra ou abstiveram-se, e Marcelo Rebelo de Sousa liderou a corrente anti-Bloco Central que levou Cavaco Silva ao poder.
- O 'fracasso' do Bloco Central teve um resultado histórico decisivo: completou as negociações de adesão à CEE (assinadas em junho de 1985 nos Jerónimos) e beneficiou da queda de 70% dos preços do petróleo entre 1980-1985, que resolveu a crise externa.
- A experiência deixou traumas políticos duradouros: o PS perdeu metade dos votos nas eleições de 1985 (de 36% para 20%), criando o 'tabu' do Bloco Central que persiste na política portuguesa contemporânea, apesar de a história mostrar que tais acordos podem ser necessários mas são sempre muito difíceis de manter.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: o contexto histórico da série televisiva *Glória*, produzida para a Netflix e ambientada na estação de retransmissão rádio americana instalada em Portugal durante a Guerra Fria, e a origem e o legado do único governo de Bloco Central da democracia portuguesa, formado em 1983.
A propósito da estreia da série, Rui Ramos recusa fazer um exercício de *fact-checking* sistemático à ficção, mas analisa o enquadramento histórico que lhe serve de base. A RARET - Rádio Retransmissão - funcionou em Glória do Ribatejo entre 1951 e 1996, retransmitindo emissões da Rádio Europa Livre para os países sob domínio soviético, onde ouvir estas rádios era crime e as emissões sofriam interferências deliberadas. A ironia central do contexto, que a própria série parece explorar, é que esta infraestrutura de propaganda ocidental a favor da liberdade estava instalada num país que era ele próprio uma ditadura. Ramos explica que durante a Guerra Fria os Estados Unidos aplicaram a mesma lógica da Segunda Guerra Mundial: o inimigo do meu inimigo é meu aliado. Salazar servia os seus propósitos estratégicos, apesar da desconfiança mútua. Do lado da oposição portuguesa, havia uma contradição paralela: os democratas que queriam genuinamente a liberdade não podiam contar com o apoio ocidental, que preferia a estabilidade salazarista, e acabavam por se aproximar dos comunistas ou até da União Soviética para obter meios de resistência - como aconteceu com Humberto Delgado no exílio. Ramos conclui que a história real é provavelmente mais dramática do que a ficção, porque esses democratas não tinham a certeza de que o comunismo soviético viria algum dia a ruir, o que tornava o seu pacto com o diabo muito mais angustiante do que qualquer narrativa retrospetiva pode sugerir.
A segunda parte do episódio é dedicada ao Bloco Central. Para explicar por que razão este governo se tornou necessário em 1983, Ramos começa pelo contexto económico: a segunda crise do petróleo, desencadeada pela guerra entre o Irão e o Iraque em 1979, fez subir os preços da energia em 127%, devastando as contas externas de um país fortemente dependente de importações. A este choque externo somava-se o peso do Estado herdado do período revolucionário: empresas públicas ineficientes e endividadas, défices do sector público que chegaram a 18,5% do PIB e compromissos sociais assumidos num clima de euforia que o crescimento económico subsequente não sustentava. Portugal estava pela segunda vez a negociar com o Fundo Monetário Internacional e precisava de estabilizar as finanças para concluir a adesão à Comunidade Económica Europeia, cujo pedido fora apresentado em 1977.
No plano político, a Aliança Democrática entre PSD e CDS tinha-se desfeito e o general Eanes era um adversário comum a Mário Soares e a Carlos Mota Pinto, o que aproximou os dois líderes. As eleições de abril de 1983 deram 36% ao PS e 27% ao PSD, e após meses de negociações tensas - incluindo um referendo interno no PS e uma votação dividida no Conselho Nacional do PSD - o governo tomou posse em junho de 1983. Os dois anos que se seguiram foram marcados por austeridade severa, inflação que atingiu 34%, desemprego a 11%, salários em atraso, confrontos entre polícia e trabalhadores, e terrorismo das FP-25. Internamente, o governo sofreu com a resistência de sectores do PSD que preferiam a bipolarização com o PS, entre os quais se destacava o jovem Marcelo Rebelo de Sousa. Com a morte de Mota Pinto em maio de 1985 e a ascensão de Cavaco Silva à liderança do PSD, o apoio ao governo desapareceu e o general Eanes dissolveu a Assembleia. Nas eleições de outubro de 1985, o PS caiu de 36% para 20%, o que se tornou a justificação histórica para o trauma duradouro que o Bloco Central representa para os socialistas.
Apesar de tudo, Ramos aponta dois resultados positivos: o acordo com o FMI acabou por ser desnecessário na sua totalidade, porque os preços do petróleo colapsaram 70% entre 1980 e 1985
Personagens
- António de Oliveira Salazar
- Mário Soares
- Carlos Alberto da Mota Pinto
- Francisco Pinto Balsemão
- Francisco Sá Carneiro
- António Ramalho Eanes
- Marcelo Caetano
- Humberto Delgado
- John F. Kennedy
- Dwight Eisenhower
- Harry Truman
- Lyndon Johnson
- Joseph Stalin
- Adolf Hitler
- Mikhail Gorbachev
- Aníbal Cavaco Silva
- Rui Machete
- Marcelo Rebelo de Sousa
- José Miguel Júdice
- Hernâni Lopes
Lugares/Países
- Portugal
- Estados Unidos
- União Soviética
- Rússia
- Angola
- Moçambique
- Brasil
- Irão
- Iraque
- Eslováquia
- Alemanha
- América Latina
Épocas
- Estado Novo
- Guerra Fria
- Segunda Guerra Mundial
- Revolução de 25 de Abril
- PREC (Processo Revolucionário em Curso)
- anos 60
- anos 70
- anos 80
- década de 50
Temas
- Guerra Fria
- ditadura
- democracia
- anticomunismo
- colonialismo
- descolonização
- integração europeia
- crise económica
- austeridade
- terrorismo
- coligações políticas
- Fundo Monetário Internacional
- nacionalizações
- defesa
- energia
- censura
- rádio
- comunicação social
Eventos
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- entrada na Comunidade Económica Europeia
- eleições de 1983
- eleições de 1985
- eleições presidenciais de 1986
- golpe de Beja (1961)
- revisão constitucional de 1982
- queda do Muro de Berlim
- eleições de 1958
- eleições de 1980
- Congresso do PSD de 1985
Guerras e conflitos
- Guerra Fria
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial
- guerra Irão-Iraque