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Nº 24520 de março de 20241h11efeméride

Golpe das Caldas: a revolta falhada antes de Abril

O episódio analisa o Golpe das Caldas de 16 de março de 1974, primeira tentativa falhada de derrubar o regime de Marcelo Caetano, um mês e meio antes do 25 de Abril. Rui Ramos demonstra que o golpe não foi amadorismo isolado, mas resultado de divisões profundas nas elites político-militares da ditadura entre marcelistas, spinolistas e partidários de Kaulza de Arriaga. A análise revela como a fraqueza do regime, incapaz de reprimir a conspiração, tornou inevitável o sucesso posterior do 25 de Abril.

Ideias principais

  1. O Golpe das Caldas não foi um ensaio isolado do 25 de Abril, mas parte de múltiplas conspirações simultâneas dentro das Forças Armadas portuguesas em 1973-74, envolvendo diferentes facções militares e políticas.
  2. A publicação do livro 'Portugal e o Futuro' por Spínola em fevereiro de 1974 precipitou a crise política ao expor publicamente divisões dentro do regime, levando à demissão de Spínola e Costa Gomes no dia 14 de março.
  3. O Movimento dos Capitães não planeava inicialmente um golpe militar, mas sim protestos e manifestos em apoio a Spínola e Costa Gomes, só se radicalizando após a demissão destes generais.
  4. O regime não reprimiu duramente os conspiradores do 16 de março porque estava demasiado dividido internamente e Marcelo Caetano ainda contava com os capitães para contrabalançar a ameaça de Kaulza de Arriaga e da direita conservadora.
  5. A principal lição do 16 de março foi que o regime era extremamente frágil e que com melhor coordenação um golpe seria bem-sucedido, percepção que levou Otelo Saraiva de Carvalho a planear meticulosamente o 25 de Abril com sinais de rádio simultâneos.

Resumo do episódio

O episódio 245 do podcast «E o Resto é História» é dedicado ao Golpe das Caldas, a tentativa falhada de derrubar o regime de Marcelo Caetano que ocorreu na madrugada de 16 de março de 1974, cerca de um mês e meio antes do 25 de Abril. Nessa noite, o Regimento de Infantaria n.º 5, estacionado nas Caldas da Rainha, avançou em direção a Lisboa, mas chegou às portas da cidade sem que as outras colunas esperadas, provenientes de Mafra, Santarém e Vendas Novas, se tivessem juntado ao movimento. A coluna isolada regressou ao quartel, foi cercada por forças fiéis ao regime e rendeu-se ao fim da tarde, após horas de negociação. Cerca de três dezenas de oficiais foram detidos, só libertados após o 25 de Abril.

Para explicar o que aconteceu, Rui Ramos começa por afastar a tendência de contar esta história apenas a partir do fio que liga o movimento dos capitães ao êxito do 25 de Abril, alertando para dois problemas historiográficos: a seleção de um único fio narrativo que apaga tudo o resto que estava a acontecer em simultâneo, e o facto de o historiador conhecer o desenlace, o que distorce a leitura dos acontecimentos. O essencial do contexto está na crescente divisão dentro das elites político-militares do regime entre marcelistas e antimarcelistas, divisão que se agudizou na segunda metade de 1973 e que envolveu os generais que tinham comandado as frentes africanas: Costa Gomes, Spínola e Calusa da Riaga.

A publicação do livro «Portugal e o Futuro», do general Spínola, em fevereiro de 1974, foi o catalisador imediato da crise. Marcelo Caetano interpretou-o como uma crítica à sua política ultramarina e tentou forçar a demissão de Spínola e Costa Gomes, tendo chegado a apresentar a sua própria exoneração por duas vezes ao Presidente da República, Américo Tomás, que a recusou ambas. O momento decisivo ocorreu a 14 de março, quando Spínola e Costa Gomes não compareceram à reunião convocada para demonstrar publicamente o apoio dos generais ao governo - a chamada «brigada do Ramalho» -, tornando pública a rutura. Nesse mesmo dia foram demitidos, e para o lugar de Costa Gomes foi nomeado o general Luz Cunha, visto como próximo de Calusa da Riaga, percebido como representante de uma direita mais dura dentro do regime.

Foi esta demissão que precipitou o golpe de 16 de março. O movimento dos capitães, que até então se dedicava sobretudo a manifestos e protestos de apoio a Spínola e Costa Gomes, e que ainda não preparava propriamente um golpe militar, sentiu que perdera as suas referências institucionais e que a janela de oportunidade se estava a fechar. Officiais como o Major Luís Casanova Ferreira e o capitão Otelo Saraiva de Carvalho improvisaram numa questão de horas um plano de convergência de colunas militares sobre Lisboa, contando com que a saída de uma unidade arrastasse as restantes. O que saiu foi apenas a coluna das Caldas, em parte graças ao prestígio pessoal do capitão Virgílio Varela junto dos seus homens, e a fraca coordenação - agravada por ser sábado, com muitos oficiais de fim de semana - fez o resto.

O episódio sublinha, porém, que o fracasso do golpe não foi uma simples demonstração de amadorismo: revelou sobretudo a extrema fraqueza do regime. O governo não abriu um inquérito sério para desmantelar a conspiração, minimizou publicamente os números dos envolvidos e não reprimiu o movimento de forma eficaz, porque estava demasiado dividido para o fazer e ainda precisava dos capitães como contrapeso a outras fações. O próprio Otelo retirou do dia 16 a lição de que o regime era incapaz de resistir: com melhor coordenação, a queda da ditadura era viável. Foi exatamente essa lição que moldou o plano do 25 de Abril - o mesmo tipo de operação, com colunas a convergir sobre Lisboa, mas desta vez com uma senha radiofónica que garantiu a saída simultânea de todas as unidades, sem deixar ninguém isolado às portas da cidade.

Personagens

  • Marcelo Caetano
  • António de Spínola
  • Francisco da Costa Gomes
  • Américo Tomás
  • Kaulza de Arriaga
  • Otelo Saraiva de Carvalho
  • Vasco Lourenço
  • Melo Antunes
  • Vitor Alves
  • Virgílio Luís Varela
  • Luís Casanova Ferreira
  • Manuel Monge
  • Dinis de Almeida
  • Almada Contreiras
  • Pereira Crespo
  • Salgueiro Maia
  • Adriano Moreira
  • Franco Nogueira
  • Luz Cunha
  • Charles de Gaulle

Lugares/Países

  • Portugal
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • Açores
  • França
  • Estados Unidos

Épocas

  • Estado Novo
  • Guerra Colonial
  • Revolução de 25 de Abril de 1974
  • anos 1970

Temas

  • golpes de Estado
  • conspirações militares
  • guerra colonial
  • ditadura
  • transição democrática
  • política militar
  • repressão política

Eventos

  • Golpe das Caldas
  • 25 de Abril de 1974
  • 11 de Março de 1975
  • Brigada do Reumático
  • publicação de Portugal e o Futuro
  • eleição presidencial de 1972

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial Portuguesa
  • Guerra da Guiné
  • Guerra de Angola
  • Guerra de Moçambique

Livros citados

  • Portugal e o Futuro