Nº 1630 de outubro de 201943:22resposta a ouvintes
Governos, excentricidades parlamentares e epidemias
Episódio centrado em três questões fundamentais sobre a história de Portugal: a origem do conceito de governo (desde D. Afonso Henriques até ao primeiro governo moderno em 1834 com o Duque de Palmela), a formação da identidade nacional portuguesa (um processo longo que se consolidou nos séculos XIX-XX), e a história das epidemias em Portugal (da Peste Negra à gripe pneumónica e cólera). Rui Ramos explica como as instituições políticas modernas são radicalmente diferentes das medievais e como projectamos anacronicamente categorias actuais no passado.
Ideias principais
- O primeiro governo no sentido moderno surgiu em 1834 com o Duque de Palmela, quando apareceu pela primeira vez um chefe de governo sem pasta e ministros solidários entre si, conceito radicalmente diferente dos secretários de Estado da monarquia absoluta.
- A identidade nacional portuguesa é um processo histórico longo que só se consolidou nos séculos XIX e XX através da escola, Estado e símbolos nacionais, não sendo causa mas produto da independência do reino medieval.
- Os portugueses medievais tinham múltiplas identidades (religiosa, local, de classe) mais importantes que a nacional, como se viu nas crises dinásticas de 1383 e 1580 quando muitos apoiaram candidatos estrangeiros por lealdade à legitimidade dinástica.
- A Peste Negra de 1348 foi a epidemia mais devastadora da história portuguesa, matando cerca de um terço da população europeia, cujos níveis populacionais só recuperaram 200-300 anos depois no século XVII.
- O sistema parlamentar português sempre teve forte disciplina partidária devido aos sistemas eleitorais que impediam deputados independentes, tornando impossível o surgimento de verdadeiros excêntricos políticos ao longo da história.
Resumo do episódio
Neste décimo sexto episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre três temas distintos: as origens do governo português, a excentricidade parlamentar e as grandes epidemias em Portugal.
O episódio abre com uma pergunta aparentemente simples - qual foi o primeiro governo de Portugal? - que se revela muito mais complexa do que parece. Rui Ramos adverte para o erro frequente de projetar categorias do presente no passado: o que hoje entendemos por governo é uma instituição radicalmente diferente do poder exercido por reis como D. Afonso Henriques, que era, acima de tudo, um guerreiro, um juiz e um soberano cristão, rodeado de nobres, clérigos e letrados. Esse poder medieval não pretendia transformar a economia nem a sociedade, mas antes preservar os estatutos e privilégios de cada grupo. Para Ramos, a ideia de um governo como agência de ordem, progresso e transformação do país começa a afirmar-se apenas no século XVIII, com o Iluminismo, e consolida-se com a Revolução Liberal. É em 1834, após o fim da guerra civil, que surge pela primeira vez algo semelhante ao que hoje chamamos governo: um conjunto de ministros solidários entre si, escolhidos por um chefe - o Duque de Palmela, que os apresentadores apelidam, com alguma ironia, de "primeiro António Costa" -, respondendo perante um parlamento eleito. A expansão posterior do número de ministros está ligada tanto ao alargamento das funções do Estado como à necessidade de representar correntes internas dos partidos.
O segundo tema surge a propósito de um assessor de um deputado do LIVRE que se apresentou no parlamento com uma saia, facto que animou as redes sociais. Os apresentadores usam o episódio para refletir sobre a (escassa) tradição de excentricidade parlamentar em Portugal. Ramos argumenta que a disciplina partidária e os sistemas eleitorais sempre impediram os deputados de agir com verdadeira independência, tornando raros os comportamentos genuinamente excêntricos. O que existe, afinal, são estilos tribais: uma maneira de falar e de se apresentar que identifica imediatamente a filiação partidária - da UDP ao PCP, do Bloco ao LIVRE. A excentricidade individual foi sempre substituída pelo conformismo do grupo.
A terceira parte responde a duas perguntas de ouvintes. A primeira interroga quando surgiu a identidade portuguesa. Ramos explica que, embora existam "portugueses" como designação geográfica desde muito cedo, a identidade nacional tal como a vivemos hoje é um produto essencialmente dos séculos XIX e XX, forjada através da escola, dos meios de comunicação e de referências simbólicas como Os Lusíadas de Camões, cuja centralidade na consciência nacional só se afirmou plenamente a partir do centenário de 1880. Antes disso, as identidades religiosas, dinásticas e locais competiam com - e por vezes sobrepunham-se a - qualquer sentido de pertença nacional.
A segunda pergunta de ouvinte versa sobre as epidemias em Portugal. Ramos aponta a Peste Negra de meados do século XIV como a mais devastadora, tendo matado talvez um terço da população europeia, com a recuperação demográfica a demorar cerca de duzentos ou trezentos anos. Refere também a cólera de 1834, introduzida provavelmente por combatentes estrangeiros durante a guerra civil, e a gripe pneumónica de 1918-1919, que terá causado cerca de sessenta mil mortes em Portugal - mais do que toda a Primeira Guerra Mundial. O episódio termina com o surto de peste bubónica que atingiu o Porto em 1899, vindo provavelmente de Macau: contido com relativo sucesso graças a medidas de isolamento e desinfecção, mas muito mal recebido pela população, o que contribuiu para uma vaga de votos republicanos nas eleições seguintes - os chamados "deputados da peste".
Personagens
- D. Afonso Henriques
- António Costa
- Marquês de Pombal
- D. João VI
- Duque de Palmela
- Joacim Catar Moreira
- Rafael Esteves Martins
- Almeida Santos
- Nuno Krus Abecasis
- Luís de Camões
- D. Fernando I
- Filipe II de Espanha
- Rainha D. Teresa
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Galiza
- Castela
- Espanha
- França
- Europa
- Ásia
- Macau
Épocas
- Idade Média
- século XII
- século XIV
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Primeira República
- Revolução Liberal de 1820
- Primeira Guerra Mundial
Temas
- governo
- formação do Estado
- identidade nacional
- Parlamento
- epidemias
- peste
- sistema político
- linguística
- religião
- monarquia
- liberalismo
- constitucionalismo
Eventos
- Revolução Liberal de 1820
- Guerra Civil entre liberais e absolutistas
- Peste Negra
- Gripe Pneumónica de 1918-19
- Revolução de 1383
- Assembleia Constituinte de 1975
Guerras e conflitos
- Guerra Civil entre liberais e absolutistas
- Primeira Guerra Mundial
Livros citados
- Os Lusíadas