Nº 28815 de janeiro de 202549:27análise histórica
Gronelândia, o território de que toda a gente fala
O episódio explora a história da Gronelândia desde os primeiros colonizadores nórdicos no século X até à actualidade, passando pela presença portuguesa nos séculos XV-XVI, a colonização dinamarquesa e o interesse geopolítico contemporâneo dos Estados Unidos. Aborda a sucessão de povos (vikings, inuítes), as alterações climáticas que moldaram a ocupação humana, e as mudanças de soberania entre Noruega e Dinamarca, terminando com a discussão sobre o interesse estratégico americano no território.
Ideias principais
- A Gronelândia foi colonizada por nórdicos entre os séculos X-XIV durante um período climaticamente mais temperado, mas a população europeia desapareceu com a pequena idade do gelo, sendo substituída pelos inuítes vindos do Canadá.
- Navegadores portugueses como Gaspar Corte Real exploraram a Gronelândia em 1500-1501, e o Mapa de Cantino de 1502 documenta a reivindicação portuguesa sobre o território, que se julgava poder ser a ponta da Ásia.
- A Gronelândia pertenceu à Noruega até 1814, passando então para a Dinamarca pelo Tratado de Kiel, com a Noruega a tentar recuperá-la em 1931 até um tribunal internacional confirmar a soberania dinamarquesa em 1933.
- O território evoluiu de colónia para província dinamarquesa (1953), depois região autónoma (1979), com reconhecimento do povo gronelandês como distinto (2009), seguindo um percurso semelhante ao da Islândia rumo à independência.
- O interesse americano pela Gronelândia, manifestado desde 1867 e renovado por Trump, relaciona-se com recursos minerais (terras raras), controlo de rotas marítimas no Ártico e contenção da influência chinesa e russa, numa reedição da doutrina Monroe.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* parte da actualidade política - as declarações do presidente Donald Trump sobre a intenção de adquirir a Gronelândia - para explorar a história desta enorme ilha ártica, a maior do mundo, com mais de dois milhões de quilómetros quadrados mas apenas cerca de 57 mil habitantes. Rui Ramos e João Miguel Tavares usam este pretexto para traçar uma narrativa que vai das primeiras navegações nórdicas medievais até à geopolítica contemporânea do Árctico.
Os apresentadores começam por situar a ligação portuguesa ao território. Embora Portugal seja normalmente associado ao Atlântico Sul e às rotas para a Índia e para o Brasil, houve navegadores portugueses a explorar o Atlântico Norte desde o século XV. São mencionados os casos de Pedro de Barcelos e João Fernandes Labrador, que terão viajado para a Terra Nova e o Labrador entre 1495 e 1498, e sobretudo os Corte Real - Gaspar, Miguel e Vasco, filhos do capitão da ilha de São Jorge - cujas expedições são parcialmente confirmadas pelo célebre mapa de Cantino de 1502. Nesse mapa, contrabandeado de Lisboa por um agente do Duque de Ferrara, o sul da Gronelândia aparece descrito como terra descoberta por ordem de D. Manuel I, sendo então interpretada como uma possível extremidade do continente asiático.
Mas a descoberta europeia da Gronelândia é, na verdade, um redescobrimento, pois os chamados homens do Norte - os nórdicos medievais que a cultura popular designa por vikings, termo que os historiadores do século XIX popularizaram - já lá tinham chegado séculos antes. Guiados pela saga de Erico Vermelho e pela saga dos habitantes da Gronelândia, registadas nos séculos XIII e XIV, sabe-se que por volta do ano 982 Erico Vermelho, banido da Islândia, liderou a colonização da ilha, dando-lhe o nome de Terra Verde, alegadamente para atrair novos colonos. Os vestígios arqueológicos - centenas de quintas, igrejas, cemitérios - confirmam a existência de uma comunidade europeia próspera durante os séculos X a XIV, favorecida por um período de clima mais temperado. A partir do século XIV, com o início da chamada Pequena Idade do Gelo, as condições deterioraram-se, o contacto com a Noruega foi-se perdendo e a comunidade nórdica desapareceu, muito provavelmente por abandono progressivo e, possivelmente, por pressão dos Inuit, população originária da Ásia que chegara à Gronelândia vinda do norte do Canadá.
Quando os noruegueses regressaram em força em 1721, chefiados pelo missionário protestante Hans Egede - movido pela angústia de que ainda houvesse noruegueses católicos na ilha, alheios à Reforma - só encontraram Inuit, que acabaram por ser convertidos ao luteranismo. A partir daí, a Gronelândia tornou-se colónia norueguesa e, após o Tratado de Kiel de 1814, passou para a Dinamarca, que ficou com todas as possessões extra-europeias da Noruega ao ceder o território peninsular à Suécia. Uma tentativa norueguesa de reocupar a ilha em 1931 foi resolvida pelo Tribunal Internacional da Liga das Nações, que em 1933 confirmou a soberania dinamarquesa. Desde então, a Gronelândia evoluiu de colónia a território integrado, depois a região autónoma em 1979 e, em 2009, ao reconhecimento do seu povo como distinto dos dinamarqueses, com a língua gronelandesa como única oficial.
O episódio termina com a análise da actualidade: a diminuição do gelo ártico abre perspectivas de exploração de recursos minerais e de novas rotas marítimas, atraindo o interesse da China e da Rússia. Os Estados Unidos, que já tinham proposto comprar a Gronelândia em 1867 e em 1945, e que mantêm uma base militar na ilha desde a Segunda Guerra Mundial, surgem agora a renovar esse interesse, numa lógica que Rui Ramos compara à doutrina de Monroe - a demarcação de uma esfera de influência americana no Atlântico Norte, sinalizando às potências externas que não serão toleradas naquela área.
Personagens
- Donald Trump
- Gaspar Corte Real
- D. Manuel I
- Alberto Cantino
- Duque de Ferrara
- Pedro de Barcelos
- João Fernandes Labrador
- João Vaz Corte Real
- Miguel Corte Real
- Vasco Corte Real
- Giovanni Caboto
- Cristóvão Colombo
- Henrique VII de Inglaterra
- Érico Vermelho
- Hans Egede
Lugares/Países
- Gronelândia
- Estados Unidos da América
- Portugal
- Dinamarca
- Noruega
- Islândia
- Canadá
- Suécia
- Austrália
- Europa Ocidental
- Espanha
- França
- Itália
- Alemanha
- Grã-Bretanha
- Holanda
- Bélgica
- Suíça
- Península Ibérica
- Sicília
- Rússia
- Bizâncio
- Império Bizantino
- Terra Nova
- Labrador
- Açores
- Ilhas Faroé
- Alasca
- Sibéria Oriental
- Brasil
- África
- Ásia
- Inglaterra
- Bristol
- Normandia
- Escandinávia
- Península Escandinava
- América do Norte
- Mediterrâneo
- Alcácer do Sal
- Braga
- Aveiro
- São Jorge
- Ferrara
- Évora
- Flórida
- Texas
- Califórnia
- Louisiana
- Panamá
- México
- China
Épocas
- século X
- século XI
- século XII
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Idade Média
- Alta Idade Média
- Antiguidade
- Segunda Guerra Mundial
- pequena idade do gelo
Temas
- exploração marítima
- navegação
- colonialismo
- missionação
- cristianização
- comércio
- pesca
- alterações climáticas
- relações internacionais
- soberania territorial
- autonomia
- independência
- recursos minerais
- geopolítica
- arqueologia
- migrações
- contacto cultural
Eventos
- descobrimento da Gronelândia
- viagem de Vasco da Gama
- Reforma Protestante
- ocupação da Gronelândia pelos EUA
- Tratado de Kiel
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Saga de Érico Vermelho
- Saga dos habitantes da Gronelândia
- Mapa de Cantino