Nº 19108 de março de 202341:56efeméride
Guantánamo: os EUA têm uma base em Cuba. Como?
O episódio explora duas efemérides de fevereiro: a origem da base americana de Guantánamo em Cuba (1903), resultado da Guerra Hispano-Americana e do protetorado dos EUA sobre Cuba; e a execução de Sophie Scholl (1943), estudante alemã de 21 anos que liderou o grupo de resistência não-violenta Rosa Branca contra o nazismo. Ambas as histórias ilustram as dinâmicas de poder imperial e a resistência moral em contextos de opressão.
Ideias principais
- A base de Guantánamo foi estabelecida perpetuamente em 1903 como parte do protetorado americano sobre Cuba após a expulsão da Espanha, permitindo aos EUA supervisionar as finanças e relações externas cubanas.
- Fidel Castro nunca tentou ocupar Guantánamo militarmente apesar da retórica anti-americana, recusando-se apenas a aceitar o pagamento anual de cerca de 4000 dólares desde 1959, deixando acumular mais de 245 mil euros não levantados.
- Sophie Scholl e o grupo Rosa Branca representam uma das raríssimas manifestações de resistência interna ao nazismo na Alemanha, motivados não por razões políticas mas por profundas convicções religiosas cristãs.
- A passividade alemã face ao nazismo explica-se pela extrema violência repressiva, pelos sucessos iniciais de Hitler (1933-1942) e pelo medo de que a derrota do regime significasse a destruição total da Alemanha.
- A resistência de Sophie Scholl era essencialmente um acto de testemunho moral e religioso, inspirado pelo conceito católico de consciência e martírio, tornando-se símbolo da 'outra Alemanha' que resistiu ao nazismo.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast aborda dois temas históricos distintos, unidos por uma mesma data de aniversário: a origem da base naval americana de Guantánamo, em Cuba, e a história de Sophie Scholl e do grupo de resistência alemão conhecido como Rosa Branca.
Rui Ramos começa por explicar como é que os Estados Unidos foram parar a Cuba. A raiz da questão remonta a 1898, quando a ilha era a última grande colónia espanhola nas Américas. Cuba mantivera-se sob domínio espanhol durante tanto tempo por duas razões principais: a elite crioula local recusava desencadear um processo de independência que pudesse provocar uma revolta dos escravos, tendo bem presente o exemplo haitiano; e a Espanha, ao contrário das outras potências europeias que disputavam colónias em África, concentrava nessa ilha o essencial do seu prestígio e rendimento imperial. Quando uma campanha da imprensa sensacionalista americana e a explosão do navio de guerra Maine no porto de Havana forneceram o pretexto para uma guerra, os Estados Unidos destruíram a esquadra espanhola em apenas quatro meses. Em 1902, Washington concedeu formalmente a independência a Cuba, mas conservou o direito de supervisionar as finanças e a política externa cubana, numa relação que se aproximava de um protetorado. Foi no quadro desse tratado que, em 1903, Cuba cedeu aos Estados Unidos a Baía de Guantánamo em arrendamento perpétuo. A renda anual fixou-se em pouco mais de quatro mil dólares - valor que o governo cubano deixou de levantar depois de Fidel Castro chegar ao poder em 1959. Castro contestou retoricamente a presença americana, mas nunca arriscou um confronto direto, limitando-se a erguer um perímetro de catos e minas à volta da base. Os Estados Unidos, amparados pelo tratado, mantiveram-se. Após o 11 de setembro de 2001, Guantánamo ganhou nova notoriedade como local de detenção de suspeitos de terrorismo num estatuto jurídico propositadamente ambíguo: nem prisioneiros de guerra abrangidos pela Convenção de Genebra, nem detidos sujeitos à jurisdição dos tribunais americanos.
A segunda parte do episódio é dedicada a Sophie Scholl, guilhotinada em Munique a 22 de fevereiro de 1943, aos vinte e um anos. Sophie e o irmão Hans, estudantes universitários, faziam parte de um pequeno círculo de amigos - o grupo Rosa Branca - que entre 1942 e 1943 redigiu e distribuiu seis panfletos clandestinos criticando a ditadura nazi e denunciando o massacre de judeus na Polónia. Detidos em flagrante na Universidade de Munique quando Sophie atirou panfletos do alto de uma galeria para o átrio da entrada, foram julgados e executados no mesmo dia da condenação.
Rui Ramos procura explicar o que tornava este grupo tão raro num regime com uma base social tão larga. Invoca o jornalista alemão exilado Sebastian Haffner, segundo o qual apenas cerca de um quinto dos alemães apoiava genuinamente o nazismo, mas a grande maioria permanecia passiva por três razões: o terror da repressão, o sucesso aparente do regime até 1942 e a convicção de que uma derrota de Hitler significaria a destruição total da Alemanha. O que distinguia os membros da Rosa Branca era uma profunda convicção religiosa - luterana na maior parte, com afinidades com o pensamento católico do Cardeal Newman, ortodoxo no caso de Alexander Schmorell - que os impelia a dar testemunho moral mesmo à custa da própria vida, ultrapassando assim os cálculos racionais que paralisavam os demais. Sophie Scholl terá dito a uma companheira de cela que não era possível esperar que o bem triunfasse se ninguém estivesse disposto a morrer por ele. Ainda em 1943, a Royal Air Force distribuiu um dos panfletos da Rosa Branca em milhões de exemplares sobre a Alemanha. No pós-guerra, estes jovens tornaram-se um dos grandes símbolos de que a resistência ao nazismo existiu, mesmo que tenha sido tragicamente pequena.
Personagens
- Fidel Castro
- Sophie Scholl
- Hans Scholl
- Alexander Schmorell
- Willi Graf
- Jürgen Wittgenstein
- Christoph Probst
- Kurt Huber
- Adolf Hitler
- Cardinal Newman
- Sebastian Haffner
- Klaus von Stauffenberg
- Konrad Adenauer
- Martinho Lutero
- Karl Marx
Lugares/Países
- Estados Unidos
- Cuba
- Espanha
- Alemanha
- Porto Rico
- Filipinas
- Guam
- México
- Haiti
- Polónia
- União Soviética
- Rússia
- Inglaterra
- França
- Bélgica
- Portugal
- Canadá
- Ucrânia
- Bielorússia
- Afeganistão
- Iraque
Épocas
- século XIX
- século XX
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- fim do século XIX
- década de 1870
- década de 1890
- anos 1930
- anos 1940
Temas
- colonialismo
- imperialismo
- guerra
- independência
- escravatura
- resistência
- ditadura
- nazismo
- religião
- cristianismo
- martírio
- direito internacional
- terrorismo
- direitos humanos
- genocídio
- Holocausto
Eventos
- atentados de 11 de setembro
- Guerra Hispano-Americana
- Crise dos Mísseis de Cuba
- execução de Sophie Scholl
- Batalha de Stalingrado
- atentado de 20 de julho de 1944
Guerras e conflitos
- Guerra Hispano-Americana
- Segunda Guerra Mundial
- Crise dos Mísseis de Cuba