Nº 34703 de março de 202640:51efeméride
Há 110 anos, a Alemanha declarou guerra a Portugal
Episódio sobre os 110 anos da declaração de guerra da Alemanha a Portugal (9 de março de 1916), analisando as razões políticas da entrada portuguesa na Primeira Guerra Mundial. Rui Ramos argumenta que a intervenção foi uma opção política de Afonso Costa e do Partido Republicano Português para consolidar o regime republicano através da aliança com Inglaterra e França, apesar da resistência britânica inicial e da oposição interna. A guerra resultou em catástrofe humana, económica e política, com milhares de mortos, custos equivalentes a 50% do orçamento anual, crise de abastecimentos e violência social que acabaria por conduzir à ditadura militar de 1926.
Ideias principais
- A entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial foi uma opção política deliberada de Afonso Costa para consolidar a República e ganhar prestígio internacional, não uma inevitabilidade estratégica ou militar.
- A Inglaterra resistiu durante dois anos à participação portuguesa por considerar o exército português mal preparado e Portugal um potencial fardo estratégico, só aceitando sob pressão francesa em 1916.
- O esforço de guerra português foi proporcionalmente superior ao da Guerra Colonial: custou 50% do orçamento anual versus 22%, cerca de 8% do PIB versus 3%, e causou mais mortes por ano apesar da menor duração.
- A guerra não trouxe a união nacional pretendida mas agravou a violência política, exemplificada pela repressão de 19 de maio de 1917 que matou 38 pessoas em Lisboa, num governo que um jornalista do PRP descreveu como 'encharcado em sangue'.
- A participação na guerra transformou o exército português num corpo profissional moderno e duplicou o número de oficiais, criando as condições para a ditadura militar de 1926 que pôs fim à Primeira República.
Resumo do episódio
O episódio centra-se na declaração de guerra da Alemanha a Portugal, a 9 de março de 1916, assinalando o 110.º aniversário desse momento. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem desta data para analisar por que razão Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial, se essa decisão foi um erro, uma inevitabilidade ou ambas as coisas, e que consequências teve para a frágil Primeira República.
Para enquadrar a questão, Rui Ramos recua à natureza do regime republicano instaurado em 1910. A Primeira República foi, na sua leitura, um domínio quase exclusivo do Partido Republicano Português de Afonso Costa, o chamado Partido Democrático, que excluiu os analfabetos do sufrágio em 1913, reprimiu violentamente a oposição, perseguiu a Igreja Católica e acumulou milhares de presos políticos. Este modelo de governação escandalizou a Europa, incluindo os aliados britânico e francês, e alimentou rumores de que a Inglaterra poderia deixar a Espanha invadir Portugal ou partilhar as colónias portuguesas com a Alemanha. É neste contexto de fragilidade interna e de deslegitimação externa que a guerra surge, para Afonso Costa, como uma oportunidade política extraordinária: entrar no conflito ao lado dos Aliados seria a forma de provar a solidez da República e de forçar uma união nacional que silenciaria os adversários.
Os apresentadores explicam que a entrada na guerra não foi, porém, imediata nem pacífica. Entre 1914 e 1916, Portugal esbarrou na resistência britânica: Londres considerava o exército português mal treinado, uma espécie de polícia interna, e temia que a sua participação criasse mais encargos do que vantagens para os Aliados, nomeadamente ao obrigar a Marinha Real a desviar meios para defender a costa portuguesa dos submarinos alemães. Dentro do campo republicano, Manuel Brito Camacho argumentava que Portugal já estava na guerra - em África, onde Angola e Moçambique faziam fronteira com colónias alemãs - e que o sacrifício europeu seria inútil. Para Afonso Costa, porém, só a guerra na Europa, visível e mediática, servia os seus propósitos políticos. Foi a pressão francesa, em 1916, perante a batalha de Verdun e a iminente ofensiva do Somme, que finalmente convenceu a Inglaterra a aceitar os contingentes portugueses. O mecanismo escolhido foi a requisição dos navios alemães ancorados em portos portugueses, o que levou Berlim a declarar guerra a Lisboa, e não o inverso - uma distinção politicamente calculada para que Portugal aparecesse como vítima de agressão e não como agressor.
O episódio descreve as consequências desta intervenção como catástrofes acumuladas. O Corpo Expedicionário Português, cerca de cinquenta mil homens enviados para guarnecer dezasseis quilómetros de frente no norte de França, sofreu entre sete e oito mil mortos, dezenas de milhar de feridos e desaparecidos, com a batalha de La Lys, em abril de 1918, a tornar-se símbolo do desastre. Em termos financeiros, a guerra consumiu anualmente cerca de cinquenta por cento do orçamento do Estado e equivaleu a oito por cento do PIB, um esforço muito superior ao da Guerra Colonial dos anos sessenta. A crise de abastecimentos foi devastadora: em 1917, a tonelagem descarregada nos portos portugueses representava apenas vinte por cento do volume de 1913, o que provocou escassez de trigo, carvão e adubos. Os anos de 1917, 1918 e 1919 são descritos como os piores do século XX para a população portuguesa, agravados ainda pela pandemia de gripe que se seguiu ao conflito.
Politicamente, a guerra não produziu a tão desejada união nacional. Pelo contrário, o PRP endureceu a repressão, classificando qualquer opositor como agente alemão. Em maio de 1917, a Guarda Republicana matou cerca de trinta e oito pessoas durante protestos por falta de pão em Lisboa. Afonso Costa foi derrubado em dezembro de 1917. A guerra transformou também o exército: o corpo de oficiais duplicou, rejuvenesceu e saiu do conflito com um novo prestígio e uma nova consciência de missão. São precisamente estes oficiais que, em maio de 1926, põem fim à República e instalam a ditadura militar. Rui Ramos conclui que a entrada na Primeira Guerra Mundial foi simultaneamente inevitável, dada a lógica política
Personagens
- Afonso Costa
- António José de Almeida
- Manuel Brito Camacho
- João Chagas
- Augusto Soares
- Friedrich Rosen
- D. Manuel II
- Ricardo Ferraz
Lugares/Países
- Portugal
- Alemanha
- Inglaterra
- França
- Espanha
- Áustria
- Rússia
- Angola
- Moçambique
- Cabo Verde
- Funchal
- Ponta Delgada
Épocas
- Primeira República Portuguesa
- Primeira Guerra Mundial
- século XX
Temas
- guerra
- política
- diplomacia
- militarismo
- colonialismo
- economia
- República
- violência política
- anticlericalismo
Eventos
- Declaração de guerra da Alemanha a Portugal
- Proclamação da República (1910)
- Batalha de Lalis
- Batalha de Verdun
- Batalha do Somme
- Queda de Afonso Costa (1917)
- Golpe de 28 de Maio de 1926
- Apreensão de navios alemães (1916)
- Manifestações de 19 de maio de 1917
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerras Coloniais em Angola e Moçambique
Livros citados
- Grande Guerra e Guerra Colonial, Custos para os Cofres Portugueses