Nº 34810 de março de 202648:11efeméride
Há 200 anos, D. João VI morreu e tudo mudou
Episódio dedicado aos 200 anos da morte de D. João VI (10 de março de 1826), um rei que governou efetivamente durante 34 anos num período de enormes transformações: guerras napoleónicas, transferência da corte para o Brasil, revoluções liberais e absolutistas, e a independência do Brasil. Rui Ramos desmonta a imagem caricatural de um rei fraco e incompetente, mostrando como D. João VI foi um político arguto que conseguiu evitar a guerra civil mantendo-se acima dos partidos, sendo o último rei reconhecido por todos os portugueses.
Ideias principais
- D. João VI foi efetivamente governante durante 34 anos (1792-1826), sendo um dos mais longos períodos de governo na história portuguesa, apesar de apenas ter sido formalmente rei durante 10 anos
- A imagem tradicional de D. João VI como rei fraco, cobarde e incompetente (frangos no bolso, falta de higiene) é historiograficamente falsa, tendo sido corrigida primeiro no Brasil por Manuel de Oliveira Lima em 1908
- D. João VI nunca foi partidário nem liberal nem absolutista, recusando ter um primeiro-ministro e mantendo ministros com opiniões contraditórias, conseguindo assim ser 'rei de todos os portugueses' e evitar a guerra civil
- A decisão de transferir a corte para o Brasil em 1807 foi um ato de grande coragem política que permitiu a Portugal evitar ter um rei francês (como a Espanha) e ao Brasil evitar a fragmentação da América espanhola
- A morte de D. João VI em 1826 removeu o último dique contra a guerra civil: a sua habilidade política em navegar entre absolutistas e liberais colapsou imediatamente, levando ao conflito entre D. Pedro e D. Miguel que duraria até 1834
Resumo do episódio
O episódio de *E o Resto é História* assinalou os 200 anos da morte de D. João VI, ocorrida a 10 de março de 1826. Rui Ramos e João Miguel Tavares partiram da questão de saber que rei foi este e que consequências teve a sua morte, argumentando que raramente uma morte régia teve tanto impacto no destino de Portugal.
D. João VI não estava destinado ao trono. Era o filho segundo da rainha D. Maria I, e só se tornou herdeiro em 1788, quando o irmão mais velho morreu com 21 anos. Poucos anos depois, em 1792, a mãe foi declarada mentalmente incapaz, e o jovem príncipe viu-se a governar o reino ainda sem título formal de regente, que só lhe foi atribuído em 1799. Contando esse período, acabou por governar Portugal durante 34 anos consecutivos, mais do que qualquer rei desde D. João V. Os apresentadores sublinham que esta trajetória irregular, combinada com os grandes conflitos da época - a Revolução Francesa, as guerras napoleónicas e as pressões simultâneas de Inglaterra, França e Espanha sobre a corte de Lisboa -, colocou o rei perante dilemas extraordinariamente difíceis, em que qualquer escolha geopolítica tinha consequências opostas para o Portugal europeu e para o Brasil.
Rui Ramos defende que a imagem caricatural que persiste de D. João VI - o rei gordo, cobarde, com frangos assados no bolso, popularizada por Oliveira Martins - é profundamente injusta. O rei nunca concentrou o governo num só ministro favorito, como fizera D. José I com Pombal; pelo contrário, tolerava deliberadamente conselheiros com opiniões contraditórias, o que aumentava a sua margem de arbítrio. A decisão de transferir a corte para o Brasil em 1807, frequentemente lida como fuga covarde, é reinterpretada como um ato de grande ousadia que evitou que Portugal tivesse um rei imposto por Napoleão - ao contrário da Espanha - e que adiou por décadas a independência do Brasil, mantendo-a sob controlo da própria dinastia.
Nos últimos seis anos de vida, D. João VI atravessou quatro revoluções e golpes de Estado: a revolução liberal de 1820, a independência do Brasil proclamada por D. Pedro em 1822, a contrarrevolução da Vila Francada em 1823 e a Abrilada de 1824. Em todos estes episódios, o comportamento do rei foi o mesmo: não se fixou em nenhum dos campos em confronto, aliando-se temporariamente ao lado que parecia vencer para depois moderar os seus excessos. Esta postura, que os contemporâneos liam como fraqueza ou oportunismo, é lida pelos apresentadores como uma estratégia deliberada de preservar a legitimidade monárquica acima dos partidos - sendo D. João VI o último rei reconhecido simultaneamente por liberais e absolutistas. Quando os absolutistas triunfavam, protegia os liberais do pior; quando os liberais governavam, não lhes dava combate. O seu objetivo declarado, conforme explicou ao embaixador britânico, era impedir que potências estrangeiras alimentassem os extremismos internos.
Quanto à questão do envenenamento, os apresentadores resumem o estado da investigação: análises laboratoriais às vísceras conservadas em São Vicente de Fora detetaram traços de arsénico, mas os próprios cientistas admitem que a contaminação posterior ou o uso medicinal da substância são explicações igualmente plausíveis. Rui Ramos acompanha o ceticismo dos biógrafos Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, argumentando que o palácio era demasiado vigiado, que a descrição clínica dos últimos dias - sucessivos "insultos nervosos" - é mais compatível com uma série de acidentes vasculares cerebrais do que com envenenamento, e que nenhum dos grupos políticos de 1826 tinha interesse óbvio em eliminar o rei, cujo desaparecimento representava um salto no escuro.
Personagens
- D. João VI
- D. Maria I
- D. José I
- Marquês de Pombal
- Príncipe D. José (filho de D. Maria I)
- Carlota Joaquina
- D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil)
- Infante D. Miguel
- Napoleão Bonaparte
- José de Seabra da Silva
- Manuel de Oliveira Lima
- Oliveira Martins
- Marquês de Palmela (Duque de Palmela)
- Fernando VII de Espanha
- Infanta D. Isabel Maria
- Infanta D. Maria Francisca
- Infanta D. Maria Teresa
- Infante D. Carlos Maria Isidro
- D. Maria II
- Jorge Pedreira
- Fernando Dores Costa
- D. João V
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Espanha
- França
- Inglaterra
- Europa
- América
- Uruguai
- Argentina
- Rio da Prata
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- guerras napoleónicas
- independência do Brasil
- monarquia constitucional
- monarquia absoluta
- década de 1820
Temas
- monarquia
- guerra
- revolução
- política
- diplomacia
- independência
- constitucionalismo
- absolutismo
- liberalismo
- guerra civil
- colonialismo
- sucessão dinástica
Eventos
- Revolução Francesa
- Invasões Francesas
- transferência da corte para o Brasil
- grito do Ipiranga
- Revolução Liberal de 1820
- independência do Brasil
- Vila Francada
- Abrilada
- Guerra do Uruguai
Guerras e conflitos
- guerras napoleónicas
- Invasões Francesas
- Guerra Civil (1828-1834)
- Guerra do Uruguai
Livros citados
- Portugal Contemporâneo (Oliveira Martins)
- Dom João VI no Brasil (Manuel de Oliveira Lima)
- D. João VI (Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa)