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Nº 22318 de outubro de 202357:26análise histórica

Hamas, Gaza, Cisjordânia – que história é esta?

Este episódio traça as origens históricas do conflito israelo-palestiniano desde a dissolução do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial até aos dias de hoje. Rui Ramos explica como a tentativa de substituir impérios multiétnicos por Estados-nação gerou conflitos duradouros, exemplificando com a partilha da Palestina em 1947-48 e as sucessivas guerras árabe-israelitas. A conversa culmina na análise da emergência de movimentos islamistas como o Hamas e o Hezbollah após o fracasso dos nacionalismos árabes laicos.

Ideias principais

  1. O conflito israelo-palestiniano não é único, mas resultado típico da dissolução de impérios multiétnicos após a Primeira Guerra Mundial, comparável aos conflitos na Europa Central e aos Balcãs.
  2. A geografia fragmentada de Gaza e Cisjordânia resulta directamente do plano de partilha da ONU de 1947, que tentou separar populações judaicas e árabes profundamente misturadas num território equivalente ao Alentejo.
  3. Os Estados Árabes que controlaram Gaza e Cisjordânia entre 1948 e 1967 nunca criaram o Estado Árabe da Palestina previsto, mantendo refugiados em campos com a expectativa de destruir Israel.
  4. O Hamas e o Hezbollah emergiram após o descrédito dos nacionalismos árabes laicos nos anos 60-70, transformando-se em instrumentos do Irão para impedir a normalização das relações entre Estados Árabes e Israel.
  5. A solução dos dois Estados é óbvia para todos mas praticamente impossível de executar devido à extrema proximidade geográfica, à mistura de populações, e à ausência de confiança após 75 anos de conflito violento.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* propõe-se explicar, com base na história, o enquadramento do conflito israelo-palestiniano que voltou à atualidade com novos e dramáticos contornos. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de quatro designações omnipresentes nas notícias - Faixa de Gaza, Cisjordânia, Hamas e Hezbollah - e procuram iluminar as suas origens e o seu significado histórico, sem fazer comentário político direto à atualidade.

A conversa começa pela geografia do conflito, cujo ponto de partida remoto é a dissolução dos grandes impérios multinacionais após a Primeira Guerra Mundial. O Império Otomano, que desde o século XV governava uma região de enorme diversidade étnica e religiosa - turcos, árabes, gregos, curdos, arménios, muçulmanos sunitas e xiitas, cristãos de várias confissões, judeus -, desintegra-se após 1918, e os vencedores da guerra tentam substituí-lo por Estados-nação mais ou menos homogéneos. O problema é que as populações estavam profundamente misturadas e reivindicavam os mesmos territórios como seus por razões históricas e religiosas. Rui Ramos traça um paralelo com conflitos europeus análogos, como a guerra greco-turca de 1919-1922, que resultou numa das maiores limpezas étnicas da história, e com a guerra da Jugoslávia nos anos 1990 - conflitos que são, em parte, heranças tardias da dissolução imperial.

No caso da Palestina, o mandato britânico administrou o território entre 1920 e 1948, e as Nações Unidas propuseram em 1947 a sua divisão em dois Estados, um judeu e outro árabe, num mapa de aspeto xadrez que refletia a distribuição entrelaçada das populações. Os judeus aceitaram o plano; os Estados Árabes vizinhos recusaram-no e atacaram militarmente Israel em 1948, saindo derrotados. O Estado Árabe da Palestina nunca chegou a ser fundado: a Cisjordânia foi anexada pela Jordânia e a Faixa de Gaza ficou sob controlo egípcio, mas nenhum destes países integrou as populações palestinianas como cidadãos, mantendo-as em campos de refugiados financiados pelas Nações Unidas, à espera de um regresso que se imaginava possível após a destruição de Israel. Em 1967, Israel derrotou o Egito, a Jordânia e a Síria numa nova guerra e passou a ocupar a Cisjordânia e Gaza, territórios que os acordos de Oslo de 1993 previam devolver à Organização para a Libertação da Palestina, embora esse processo nunca tenha sido concluído.

Os apresentadores sublinham a enorme dificuldade prática da solução dos dois Estados: num território mais pequeno do que o Alentejo, com cerca de oito milhões de judeus e oito milhões de árabes profundamente misturados, a viabilidade de dois Estados contíguos exigiria uma confiança mútua que décadas de conflito, ressentimentos e contas por ajustar tornaram quase impossível de construir.

A segunda parte do episódio foca-se no Hamas e no Hezbollah. Rui Ramos explica que estes movimentos são o resultado do colapso dos nacionalismos árabes laicos que, apoiados pela União Soviética durante a Guerra Fria, fizeram da destruição de Israel o seu grande foco de legitimidade política. A humilhante derrota de 1967 desacreditou esses regimes e abriu espaço para o islão político, cujo grande impulso veio com a Revolução Iraniana de 1979. O Irão passou a financiar e armar milícias xiitas árabes - o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen - para desestabilizar os regimes aliados dos Estados Unidos. O Hamas, de raiz sunita e ligado à Irmandade Muçulmana egípcia, emergiu em 1987 e foi inicialmente tolerado por Israel como eventual contrapeso à OLP. Em 2007, após a retirada israelita de Gaza em 2005, o Hamas tomou o poder na Faixa de Gaza pela força, expulsando e eliminando representantes da OLP, e tornou-se um instrumento útil para o Irão, apesar das diferenças religiosas e culturais entre ambos. Os apresentadores concluem que o ataque recente de outubro de 2023 serviu também para sabotar as negociações em curso entre

Personagens

  • Yasser Arafat
  • Isaac Rabin
  • Anwar Sadat
  • Gamal Abdel Nasser
  • Mohamed Reza Pahlavi

Lugares/Países

  • Israel
  • Palestina
  • Gaza
  • Cisjordânia
  • Líbano
  • Síria
  • Jordânia
  • Egito
  • Turquia
  • Grécia
  • Alemanha
  • Áustria
  • Polónia
  • Checoslováquia
  • Jugoslávia
  • Rússia
  • Estados Unidos
  • União Soviética
  • Irão
  • Iraque
  • Arábia Saudita
  • Iémen
  • Chipre
  • Médio Oriente
  • Ásia Menor
  • Levante
  • Europa Central
  • Europa Oriental

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • século XV
  • século XVI
  • século XX
  • século XIX
  • Antiguidade
  • anos 30
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80
  • anos 90
  • década de 1920
  • década de 1940
  • década de 1990

Temas

  • guerra
  • religião
  • nacionalismo
  • descolonização
  • imperialismo
  • terrorismo
  • refugiados
  • limpeza étnica
  • genocídio
  • Holocausto
  • islamismo político
  • diplomacia
  • colonatos
  • conflito étnico
  • ditadura militar

Eventos

  • dissolução do Império Otomano
  • dissolução do Império Austríaco
  • Holocausto
  • criação do Estado de Israel
  • Guerra do Yom Kippur
  • Acordos de Oslo
  • Revolução Islâmica no Irão
  • Guerra Civil no Líbano
  • Setembro Negro

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Greco-Turca
  • Guerra da Jugoslávia
  • Guerra Árabe-Israelita de 1948
  • Guerra dos Seis Dias
  • Guerra do Yom Kippur
  • Guerra Civil no Líbano