← Arquivo

Nº 424 de julho de 201940:57análise histórica

História dos incêndios e a origem da 24 de Julho

O episódio aborda dois temas principais: a história dos incêndios florestais em Portugal e a origem do nome da Avenida 24 de Julho em Lisboa. Rui Ramos explica que os grandes incêndios florestais são um fenómeno moderno, resultante da florestação intensiva iniciada no século XIX e do abandono rural no século XX. A Avenida 24 de Julho comemora a entrada triunfal das tropas liberais em Lisboa em 1833, durante a Guerra Civil Liberal. Na segunda parte, responde-se a uma pergunta sobre o desenvolvimento das colónias portuguesas, comparando-as com outras potências europeias.

Ideias principais

  1. Os grandes incêndios florestais em Portugal são um fenómeno moderno: Portugal tinha menos floresta nos séculos passados e iniciou uma arborização intensiva no século XIX, inspirada nos países do Norte da Europa, usando pinheiro bravo e eucalipto.
  2. A florestação portuguesa foi impulsionada por uma visão romântica do século XIX que associava desenvolvimento e riqueza às florestas do Norte da Europa, mas criou um problema estrutural no clima mediterrânico, agravado pelo despovoamento rural do século XX.
  3. A Avenida 24 de Julho comemora a entrada do Duque da Terceira e do exército liberal em Lisboa em 24 de julho de 1833, data fundamental da Revolução Liberal portuguesa, tão importante na época quanto o 25 de Abril é hoje.
  4. As colónias portuguesas eram pobres e subdesenvolvidas até aos anos 60 do século XX, com populações brancas diminutas comparadas às colónias francesas e britânicas, porque Portugal recebeu os territórios menos interessantes na partilha de África.
  5. Angola e Moçambique tornaram-se muito prósperas nos anos 60-70, com taxas de crescimento chinesas, população qualificada e nível de vida superior ao da metrópole, o que explica o impacto dos retornados na sociedade portuguesa após 1975.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos, ligados pela actualidade do momento em que o programa foi gravado: os incêndios florestais em Portugal e a origem histórica do nome da Avenida 24 de Julho, em Lisboa. A segunda parte é dedicada a responder a uma pergunta de um ouvinte sobre o desenvolvimento das colónias portuguesas em África comparativamente às de outras potências europeias.

O debate sobre os incêndios começa por desmistificar a ideia de que o fogo em Portugal é um fenómeno recente. Rui Ramos recorda que desde o século XVI existem medidas legislativas contra incêndios, nomeadamente uma carta régia de 1502, no reinado de Dom Manuel, e disposições nas Ordenações Manuelinas que puniam os incendiários com açoites públicos e degredo para África. Contudo, os grandes incêndios florestais tal como os conhecemos hoje são, de facto, um fenómeno moderno, e a explicação é contraintuitiva: Portugal tem actualmente muito mais floresta do que tinha há dois ou três séculos. As serras portuguesas eram, no século XIX, terrenos nus, penhascos e charnecas. Foi precisamente esse cenário de nudez da paisagem que motivou, a partir da década de 1860, um ambicioso projecto de arborização inspirado nas florestas do Norte da Europa. Escolheram-se espécies de crescimento rápido, como o pinheiro bravo e o eucalipto, que se adaptavam ao clima mediterrânico mas que criaram condições propícias ao fogo. As populações rurais das zonas de montanha resistiram a este processo, pois perdiam os baldios onde apascentavam os rebanhos - tensão que o escritor Aquilino Ribeiro imortalizou em *Quando os Lobos Uivam*. A partir dos anos 60 do século XX, o êxodo rural e o envelhecimento da população agravaram o problema: havia cada vez mais floresta densa e cada vez menos gente para a gerir, resultando no matagal espontâneo que hoje arde com facilidade, sobretudo na região do Pinhal Interior.

O segundo tema surge a propósito da data em que o episódio foi emitido. A Avenida 24 de Julho, em Lisboa, deve o seu nome à entrada do Exército Liberal na capital, no dia 24 de Julho de 1833, comandado pelo Duque da Terceira. Ramos recorda que a avenida ocupa o antigo aterro do Tejo, zona reclamada ao rio entre o Cais do Sodré e Alcântara. A guerra civil entre liberais e absolutistas, travada entre 1832 e 1834, foi o conflito interno mais violento da história contemporânea portuguesa. Dom Pedro, ex-imperador do Brasil, desembarcou no Porto com as suas forças, ficou cercado durante mais de um ano e viu frustrada a esperança de que o país aderisse espontaneamente à sua causa. A viragem ocorreu em 1833, quando a esquadra liberal destruiu a esquadra miguelista ao largo do Cabo de São Vicente, permitindo ao exército liberal avançar pelo Algarve em direcção a Lisboa, que foi tomada sem combate. Os apresentadores sublinham que a revolução liberal, embora eclipsada pela memória da República e do 25 de Abril, foi provavelmente a mais transformadora da época contemporânea em Portugal, tendo introduzido a Constituição, a igualdade perante a lei e o próprio conceito moderno de cidadão.

Na segunda parte, em resposta à pergunta do ouvinte Miguel Taveira, Ramos traça uma distinção clara entre dois períodos. Antes de 1961, as colónias portuguesas em África eram das mais pobres, não por má administração, mas porque Portugal era uma potência pobre e os territórios que lhe couberam na partilha colonial do século XIX eram dos menos ricos em recursos e população. A partir da Segunda Guerra Mundial, e sobretudo nos anos 60, Angola e Moçambique conheceram um crescimento económico acelerado, com taxas comparáveis às da metrópole, tornando-se destinos de imigração e regiões prósperas em termos africanos. A população europeia em Angola saltou de escassas dezenas de milhar para cerca de 300 mil pessoas. Os apresentadores concluem que a independência, ao desencadear guerras civis prolongadas e ao provocar a saída da população europeia, destruiu grande parte desse desenvolvimento, privando os novos países de recursos humanos qualificados que, ao regressar a Portugal como retornados, tiveram um impacto significativo na sociedade portuguesa.

Personagens

  • Dom Manuel I
  • Dom Duarte
  • Dom Afonso V
  • Filipe II de Espanha
  • Aquilino Ribeiro
  • Duque da Terceira
  • Dom Pedro IV
  • Dom Miguel I
  • Marquês de Sá da Bandeira
  • Duque de Saldanha
  • Fontes Pereira de Melo
  • António Augusto de Aguiar
  • Dom Afonso Henriques

Lugares/Países

  • Portugal
  • Brasil
  • Alemanha
  • França
  • Reino Unido
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • São Tomé
  • África do Sul
  • Argélia
  • Rodésia
  • Congo Belga
  • Nigéria
  • Zimbábue
  • Índia
  • Espanha
  • Síria
  • Jordânia
  • Israel
  • Palestina

Épocas

  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Monarquia Constitucional
  • Primeira República
  • anos 60 do século XX
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • incêndios florestais
  • florestação
  • política florestal
  • guerra civil
  • liberalismo
  • colonialismo
  • desenvolvimento colonial
  • migração
  • despovoamento rural
  • independência colonial
  • guerra colonial
  • retornados

Eventos

  • Entrada dos Liberais em Lisboa (24 de julho de 1833)
  • Cerco do Porto
  • Batalha Naval ao largo do Cabo de São Vicente (1833)
  • Conferência de Berlim (1884-1885)
  • Guerra Colonial (1961-1974)
  • 25 de Abril de 1974
  • Partilha de África

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Liberal (1832-1834)
  • Guerra Colonial Portuguesa

Livros citados

  • Quando os Lobos Uivam (Aquilino Ribeiro)
  • Os Maias (Eça de Queirós)