Nº 23724 de janeiro de 20241h12resposta a ouvintes
História dos jornais em Portugal (e suas crises)
Este episódio traça a história da imprensa em Portugal desde o século XVIII até aos anos 1990, focando-se no papel político e económico dos jornais. Rui Ramos explica como os jornais evoluíram de publicações partidárias para grandes empresas comerciais no século XIX e XX, destacando casos como o Diário de Notícias e O Século. O episódio analisa o impacto da censura do Estado Novo, a nacionalização dos jornais após 1974 e o consequente declínio dos grandes títulos históricos.
Ideias principais
- Contrariamente ao que se pensa hoje, muitos jornais em Portugal foram criados como negócios lucrativos e geraram fortunas consideráveis, como evidencia o palacete construído pelo proprietário de O Século em 1904.
- A maioria dos jornais do século XIX nasceu ligada a partidos políticos, funcionando como principal forma de organização partidária antes da existência de estruturas formais de partido.
- O analfabetismo não impediu a difusão da imprensa, pois os jornais eram lidos em voz alta em cafés e famílias, criando uma esfera pública alargada de debate e informação.
- A nacionalização dos bancos em 1975 levou inadvertidamente à estatização dos principais jornais portugueses, causando partidarização, perda de credibilidade e declínio irreversível de títulos históricos como O Século.
- A censura do Estado Novo não apenas limitou a liberdade de expressão mas representou um custo económico significativo para os jornais, devido a atrasos, alterações de última hora e imprevisibilidade das proibições.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* debruça-se sobre a história da imprensa periódica em Portugal, desde as suas origens no século XVII até ao presente, respondendo a um desafio de um ouvinte que pediu uma panorâmica deste tema num momento em que a comunicação social portuguesa atravessa sérias dificuldades financeiras. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta analítica: quando os jornais surgiram e se multiplicaram, era o lucro a sua principal motivação? A resposta é que não havia uma resposta única - alguns foram criados como negócios deliberados, outros como instrumentos políticos, e muitos acabaram por ser as duas coisas em simultâneo.
O percurso histórico começa nas gazetas e mercúrios do século XVII, publicações periódicas que misturavam notícias, comentário, anúncios e folhetins literários, e que circulavam num país com elevado analfabetismo mas onde a leitura em voz alta, nos cafés e nas famílias, multiplicava o alcance de cada exemplar. A grande explosão da imprensa ocorre durante as Invasões Francesas, entre 1807 e 1814, quando o governo tolerou dezenas de novas publicações de pendor patriótico. Após esse período, os governos tentaram restringir a imprensa, o que levou ao florescimento de jornais em língua portuguesa publicados em Londres - como o *Correio Brasiliense* de Hipólito da Costa -, que entravam clandestinamente em Portugal e eram lidos com enorme avidez, a ponto de o próprio governo português passar a financiar jornais contrapostos, também em Londres, aproveitando o maior crédito que uma publicação londrina conferia junto dos leitores portugueses.
Com a Revolução Liberal de 1820 e a lei de liberdade de imprensa que dela resultou, os jornais tornaram-se o principal veículo de organização política: cada corrente parlamentar tinha o seu jornal, e era através da imprensa que se tornavam visíveis as divisões partidárias numa época em que os partidos ainda não estavam formalmente constituídos. A grande viragem comercial dá-se em 1864 com a fundação do *Diário de Notícias*, o primeiro grande jornal sem cor política declarada, de preço muito mais baixo que os concorrentes e apostado nos pequenos anúncios classificados, que transformaram o jornal num instrumento de comunicação quotidiana da cidade de Lisboa. O sucesso foi enorme: em vinte anos, os anúncios publicados anualmente passaram de 14 mil para 178 mil, e a tiragem diária quadruplicou. O *Século*, fundado em 1880 como jornal republicano, seguiu caminho semelhante ao desligar-se do partido e tornar-se uma grande empresa comercial, cujo proprietário Silva Graça acumulou uma das maiores fortunas de Lisboa. Os apresentadores evocam as sedes monumentais destes jornais - o edifício de oito mil metros quadrados do *Diário de Notícias* na Avenida da Liberdade, inaugurado em 1940 por Óscar Carmona, ou a torre de catorze andares do *Jornal de Notícias* no Porto - como evidência de que os jornais foram, durante décadas, verdadeiras empresas industriais com tipografias, frotas de distribuição e centenas de trabalhadores.
O episódio aborda também o impacto da censura prévia imposta a partir de 1926 pela ditadura militar e depois pelo Estado Novo, que, além de limitar a liberdade de expressão, representava um custo operacional permanente para as redações, obrigadas a aguardar a aprovação dos censores antes de fechar as edições. Apesar disso, a imprensa portuguesa continuou a crescer nos anos 1950 e 1960, alimentada pela publicidade da sociedade de consumo e por tiragens que, no caso da *Bola*, chegavam a mais de 200 mil exemplares por número. O ponto de inflexão chega com a compra dos grandes títulos por grupos bancários em 1972 e, sobretudo, com a nacionalização dos bancos em 1975, que transformou a grande imprensa em propriedade do Estado e a submeteu às conveniências dos sucessivos governos. O encerramento do *Século* em 1977 é descrito como uma tragédia simbólica e o início de um longo declínio. A recuperação parcial dos anos 1980 e 1990, com o surgimento do *Público*, do *Independente* e a consolidação do *Expresso*, coexistiu já com a concorrência da rádio e da televisão privada, e foi rapidamente ultrapassada pela chegada da internet,
Personagens
- José Tengarrinha
- Fernando Correia
- Carla Batista
- Hipólito José da Costa
- João Bernardo da Rocha Loureiro
- Francisco Solano Constâncio
- José Liberato de Freire Carvalho
- Almeida Garrett
- Silva Graça
- Carlos Gulbenkian
- Pardal Monteiro
- Almada Negreiros
- Marechal Carmona
- António Rodrigues Sampaio
- José Agostinho de Macedo
- Camilo Castelo Branco
- Alexandre Herculano
- Ramalho Ortigão
- Eça de Queirós
- Oliveira Martins
- Mariano de Carvalho
- Manuel Brito Camacho
- João Chagas
- Alfred Keil
- Afonso Costa
- António José de Almeida
- Dom Miguel
- Salazar
- Marcelo Caetano
- Orson Welles
Lugares/Países
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Épocas
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- século XIX
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- invasões francesas
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- Revolução Constitucional de 1820
- monarquia constitucional
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- ditadura militar
- Estado Novo
- Revolução de 25 de Abril
- PREC
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- década de 1970
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Eventos
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- regicídio de 1908
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- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- nacionalização dos bancos em 1975
- caso República
- adesão à Comunidade Económica Europeia
Guerras e conflitos
- invasões francesas
- guerra peninsular
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros recomendados
- História da Imprensa Periódica Portuguesa
- Jornalistas do Ofício à Profissão Mudanças no Jornalismo Português 1956-1968