Nº 31523 de julho de 202551:41efeméride
Hitler e os 100 anos da publicação de “Mein Kampf”
O episódio analisa os 100 anos da publicação de 'Mein Kampf' (1925), explorando como Hitler construiu a sua narrativa política e ideológica enquanto esteve preso após o Golpe de Munique de 1923. Rui Ramos e João Miguel Tavares discutem o conteúdo do livro, a síntese entre nacionalismo e socialismo, o antissemitismo ideológico e a conspiração judaica internacional, e como o colapso económico de 1929 transformou um livro com vendas modestas numa obra central do movimento nazi.
Ideias principais
- Hitler construiu em 'Mein Kampf' um personagem de líder solitário em luta contra o destino, combinando a narrativa hollywoodesca do homem que supera adversidades com a rejeição do hedonismo e do conforto, apelando ao risco e à aventura.
- O antissemitismo de Hitler não era pessoal mas ideológico, baseado na teoria da conspiração dos 'Protocolos dos Sábios de Sião', que lhe permitia unificar todos os seus inimigos (capitalismo, comunismo, liberalismo, parlamentarismo) como instrumentos de uma conspiração judaica internacional.
- O livro vendeu apenas milhares de exemplares entre 1925-1928, durante a prosperidade económica da República de Weimar, só se tornando bestseller após o colapso de 1929, quando as ideias apocalípticas de Hitler ganharam audiência num contexto de crise.
- Hitler via os Estados Unidos como o centro da conspiração judaica internacional e a Alemanha como potencial colónia financeira americana, sendo a América e não a Rússia o seu verdadeiro inimigo conceptual, embora planeasse a expansão territorial para Leste.
- Mesmo membros do Partido Nazi como Albert Speer nunca leram o livro, aderindo pelo carisma de Hitler nos comícios, o que explica como muitos alemães se surpreenderam com o Holocausto e a guerra mundial apesar de tudo estar escrito no 'Mein Kampf'.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* assinala os cem anos da publicação de *Mein Kampf*, o livro de Adolf Hitler editado pela primeira vez em julho de 1925. Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem a origem da obra, o seu conteúdo doutrinário e o percurso editorial paradoxal de um livro que, apesar de ter anunciado o que viria a acontecer, foi ignorado pela maioria dos seus contemporâneos.
Os apresentadores começam por contextualizar o momento em que o livro foi escrito. Hitler redigiu-o durante a prisão em que cumpriu apenas nove meses de uma pena de cinco anos, na sequência da fracassada tentativa de golpe de Estado em Munique, em novembro de 1923, inspirada na marcha de Mussolini sobre Roma do ano anterior. Antes disso, Hitler era uma figura essencialmente local, um orador de comícios na Baviera, recrutado originalmente como agente de infiltração pelo exército alemão nos grupos extremistas que proliferavam no caos político da República de Weimar. O livro surgiu, assim, de uma confluência de motivações: afirmar-se como líder e doutrinador do movimento nacional-socialista, fazer propaganda numa altura em que a actividade pública lhe estava vedada, e obter rendimentos aproveitando a notoriedade que o julgamento lhe dera.
O primeiro volume, de carácter autobiográfico, apresenta Hitler como um rebelde contra a família e o funcionalismo público, um nacionalista alemão nascido na Áustria que despreza o Império Austro-Húngaro por este proteger as minorias eslavas em detrimento dos falantes de alemão. É George Orwell quem, numa recensão de 1940, capta o essencial desta dimensão: o que importa no livro não são as ideias em si nem o estilo, mas o personagem que Hitler constrói - o líder solitário, endurecido pelo sofrimento, que alia a narrativa do homem em luta contra o destino à recusa do hedonismo e do conforto como ideais suficientes para a vida humana. O segundo volume, mais doutrinário, desenvolve o conceito de Estado popular: um Estado racial e social que combina o nacionalismo com o socialismo, apresentando o nacional-socialismo como síntese das duas grandes correntes que dividiam a política alemã.
Central ao livro é o antissemitismo, que Hitler não dissimula mas justifica como ideologia, não como atitude pessoal. A conspiração judaica funciona como elemento unificador de todas as suas hostilidades: contra o capitalismo financeiro internacional, contra o marxismo, contra os Estados Unidos e contra a União Soviética. Os judeus são descritos como agentes de uma globalização dissolvente das nações, o que os desumaniza progressivamente até os tornar uma abstracção - condição intelectual que, sem anunciar explicitamente o extermínio, cria o ambiente mental em que ele se torna concebível. Quanto à guerra, Hitler defende no livro que a expansão alemã deve orientar-se para leste, aproveitando o que considera serem Estados falhados na Europa Central e Oriental e uma Rússia enfraquecida pelo comunismo, evitando assim o confronto com as potências ocidentais - um cálculo que se revelaria inteiramente errado em 1939.
Apesar de todo este conteúdo, as vendas iniciais foram modestas: nove mil exemplares em 1925, decrescendo nos anos seguintes. A Alemanha vivia então um período de relativa prosperidade sustentada por capitais americanos, e o Partido Nazi obteve apenas dois por cento dos votos nas eleições de 1928. Só com o colapso financeiro de 1929 e a subsequente crise económica alemã é que Hitler ganhou uma audiência de massas e o livro saltou para um milhão de exemplares vendidos em 1933, ano em que se tornou chanceler. Após 1945, os direitos de autor passaram para o Estado da Baviera, que impediu novas edições em alemão até o copyright expirar em 2016. A edição académica publicada em 2017, anotada por historiadores, vendeu oitenta e cinco mil exemplares, e o livro continua a circular em traduções por todo o mundo.
Personagens
- Adolf Hitler
- Rodolf Hess
- Albert Speer
- Benito Mussolini
- Anton Drexler
- Erich Ludendorff
- George Orwell
- Erich Maria Remarque
- Joachim von Ribbentrop
- Vladimir Lenin
- Josef Stalin
Lugares/Países
- Alemanha
- Áustria
- Baviera
- Munique
- Viena
- França
- Itália
- Rússia
- União Soviética
- Estados Unidos
- Inglaterra
- Polónia
- Checoslováquia
- Hungria
- Roménia
- Berlim
- Japão
- Turquia
- Portugal
Épocas
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- República de Weimar
- anos 1920
- anos 1930
Temas
- nazismo
- antissemitismo
- fascismo
- nacionalismo
- socialismo
- propaganda
- teoria da conspiração
- extremismo político
- golpe de Estado
- paramilitarismo
- guerra
- genocídio
- capitalismo financeiro
- globalização
- imperialismo
- racismo
Eventos
- Golpe da Cervejaria de Munique
- Tratado de Versalhes
- Marcha sobre Roma
- Crise da Bolsa de 1929
- Holocausto
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Mein Kampf
- Os Protocolos dos Sábios de Sião
- O Meu Despertar Político
- A Oeste Nada de Novo