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Nº 14413 de abril de 202250:37resposta a ouvintes

Invasões francesas em terra e Gago Coutinho no ar

O episódio aborda dois momentos históricos portugueses: as invasões francesas (1807-1810), destacando o papel da resistência civil armada como estratégia de defesa nacional, e a primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922. Rui Ramos estabelece paralelos entre a guerra de guerrilha portuguesa contra Napoleão e a resistência ucraniana, sublinhando a tradição portuguesa de 'nação em armas' e explorando como os aviadores republicanos procuraram recriar a glória dos Descobrimentos através da conquista dos ares.

Ideias principais

  1. As invasões francesas distinguiram-se na Europa por envolverem massivamente a população civil na resistência, ao contrário da tradição de guerras profissionais do século XVIII, com Portugal aplicando o conceito de 'nação em armas' baseado nas ordenanças desde o século XVI.
  2. A violência da ocupação francesa foi extrema, com massacres de civis documentados (2.969 mortos só em Coimbra em outubro de 1810) e destruição generalizada que deixou memória traumática durante gerações, gerando espírito de retaliação popular.
  3. A travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922 teve importância científica pela inovação na navegação astronómica adaptada à aviação, permitindo aos pilotos saberem sempre a sua posição, ao contrário de voos anteriores 'às cegas'.
  4. Os aviadores portugueses da década de 1920 viam-se conscientemente como sucessores dos navegadores quinhentistas, procurando marcar o Atlântico Sul como espaço histórico português num momento de entusiasmo nacional após a divisão da Noite Sangrenta de 1921.
  5. Portugal fabricava pilotos apesar de não fabricar aviões, beneficiando da experiência colonial de oficiais como Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que conheciam tecnologia através do contacto com outras potências coloniais em África e viam a aviação como crucial para domínio colonial.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre dois temas aparentemente distintos, mas ambos ligados à capacidade de Portugal se afirmar em momentos de crise ou de competição internacional: as Invasões Francesas do início do século XIX e a travessia aérea do Atlântico Sul realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922.

O ponto de partida é uma pergunta de um ouvinte sobre a possibilidade de traçar paralelismos entre as Invasões Francesas e a guerra da Rússia na Ucrânia. Rui Ramos aceita o paralelo com uma ressalva: o elemento mais relevante em comum é o envolvimento da população civil na resistência ao invasor, algo que não era de modo algum habitual na Europa do século XVIII, onde a guerra era tendencialmente entregue a exércitos profissionais. Em Portugal - e também em Espanha -, a existência de uma identidade nacional consolidada permitiu apelar à nação como um todo para resistir à ocupação francesa, ao contrário do que acontecia em Estados dinásticos como a Prússia ou nos territórios fragmentados da Itália e da Alemanha.

Os apresentadores explicam que, em 1807, o governo português optou por não resistir à entrada do exército de Junot, seguindo para o Brasil com a família real e deixando instruções para receber os franceses como aliados. Dissolviram-se as forças armadas portuguesas e uma parte dos militares foi integrada na Grande Armée de Napoleão. Quando eclodiu a revolta popular contra a ocupação, em 1808, foi necessário improvisar uma resistência armada a partir da própria população. Esta resposta não foi apenas espontânea: havia uma tradição institucional, as chamadas ordenanças, que obrigava os homens entre os quinze e os setenta anos a manter armas e a participar na defesa das suas localidades. Em dezembro de 1808, a Regência de Lisboa foi ainda mais longe, decretando formalmente o levantamento em massa do povo português, ordenando que toda a nação se armasse e que as populações se concentrassem nas vilas para resistir ao inimigo. Quando o general Soult entrou no norte do país em 1809, ficou impressionado ao constatar que enfrentava não apenas um exército, mas uma população inteira em armas. Os apresentadores recordam episódios de grande violência de ambos os lados, desde os massacres de civis perpetrados pelos franceses - com quase três mil mortos só no bispado de Coimbra em outubro de 1810 - até às represálias brutais das populações contra os invasores, incluindo o assassínio de um parlamentário francês. A tragédia da Ponte das Barcas, no Porto, é evocada como consequência desta lógica de conflito total, em que toda a população se sentia implicada e temia as represálias do invasor.

A segunda parte do episódio centra-se no centenário da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, completada em junho de 1922. João Miguel Tavares contextualiza o entusiasmo global pela aviação no início do século XX: após os irmãos Wright, a Primeira Guerra Mundial acelerou o desenvolvimento aeronáutico e criou uma geração de pilotos veteranos empenhados em bater recordes. Em Portugal, esse entusiasmo cruzava-se com a vontade de reafirmar a presença histórica no Atlântico Sul - o espaço das rotas dos Descobrimentos - e de ligar a metrópole ao Brasil e às colónias africanas. Gago Coutinho, oficial de Marinha com vasta experiência em levantamentos topográficos em Moçambique, adaptou o sextante marítimo para uso aéreo e inventou um corretor de rumos, tornando possível pela primeira vez navegar sobre o oceano sem pontos de referência terrestres e sem voar às cegas. A viagem foi atribulada: três hidroaviões foram necessários, dois naufragaram, e a chegada ao Rio de Janeiro só ocorreu a 17 de junho, após 79 dias de peripécias. O impacto em Portugal foi enorme, unindo momentaneamente um país dividido pela violência política, e a imprensa internacional noticiou o feito como um recorde científico e de navegação. O episódio termina com uma referência à viagem Lisboa-Macau de 1924, realizada por Sarmento de Beires e Brito Pais, e à morte de Sacadura Cabral nesse mesmo ano, a quem Fernando Pessoa dedicou um poema.

Personagens

  • José Almeida
  • Napoleão
  • Junot
  • Marquês da Lorna
  • Gomes Freire
  • Soult
  • Loison
  • Massena
  • José Daniel Rodrigues da Costa
  • Arnaldo Gama
  • Gago Coutinho
  • Sacadura Cabral
  • Manfred von Richthofen
  • Louis Blériot
  • Irmãos Wright
  • Santos Dumont
  • Florbela Espanca
  • António José de Almeida
  • Alves dos Reis
  • Sarmento de Beires
  • Brito Pais
  • Lelo Portela
  • António Azevedo Maia
  • Fernando Pessoa

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Espanha
  • Rússia
  • Ucrânia
  • Prússia
  • Alemanha
  • Itália
  • Inglaterra
  • Brasil
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • Macau
  • Estados Unidos
  • Suíça
  • China
  • Índia
  • Birmânia
  • Vietname
  • Pérsia
  • Arábia

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • século XV
  • século XVI
  • 1807-1810
  • 1813
  • 1808
  • 1762
  • 1801
  • Primeira Guerra Mundial
  • 1919
  • 1920
  • década de 1920
  • 1922
  • 1924
  • 1925

Temas

  • guerra
  • invasões
  • resistência civil
  • nacionalismo
  • aviação
  • navegação
  • tecnologia
  • colonialismo
  • heroísmo
  • recordes
  • patriotismo
  • descobrimentos
  • defesa militar
  • guerrilha

Eventos

  • Invasões Francesas
  • Primeira travessia aérea do Atlântico Sul
  • Desastre da Ponte das Barcas
  • Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921
  • Centenário da Independência do Brasil
  • Viagem Lisboa-Macau de 1924

Guerras e conflitos

  • Invasões Francesas
  • Guerras Napoleónicas
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Peninsular

Livros recomendados

  • De Portugal a Macau - Sarmento de Beires
  • Aviadores Portugueses 1920-1934 - Mário Correia
  • Memórias do General Marquês da Lorna - Manuel Amaral (ed.)

Livros citados

  • O Sargento Mor de Villar - Arnaldo Gama