Nº 36109 de junho de 2026efeméride
Itália: o referendo que aboliu a monarquia
O episódio analisa o referendo de 2 de junho de 1946 que aboliu a monarquia em Itália, apenas 85 anos após a unificação do país sob a Casa de Saboia. Rui Ramos explora como os Saboias, uma dinastia que começou como pequenos condes alpinos no ano 1000, unificaram a Itália no século XIX através de habilidade diplomática e alianças estratégicas, mas acabaram por cair após a Segunda Guerra Mundial, numa decisão apertada (54,3% vs 45,7%) que revelou profundas divisões regionais e políticas no país.
Ideias principais
- A monarquia italiana foi desde o início uma monarquia plebiscitada, criada através de referendos por sufrágio universal masculino que aprovaram a anexação dos vários territórios italianos ao Reino de Itália entre 1861 e 1866.
- O resultado do referendo de 1946 foi muito equilibrado (apenas 8 pontos percentuais de diferença) e revelou uma clara divisão regional: 66% do norte votou pela república, enquanto 64% do sul votou pela monarquia, apesar de os Saboias serem uma família do norte.
- A associação com o fascismo de Mussolini não explica sozinha a queda da monarquia, já que Vittorio Emanuele III demitiu Mussolini em 1943, passou para o lado dos aliados e abdicou em favor do filho Humberto II antes do referendo.
- O ressentimento histórico da Igreja Católica contra os Saboias, por terem anexado os Estados Papais no século XIX e o Papa os ter excomungado, teve um papel crucial: a Igreja manteve-se neutral no referendo e os quadros da Democracia Cristã eram maioritariamente republicanos.
- Umberto II, o último rei de Itália conhecido como 'Rei de Maio', partiu para o exílio após a derrota no referendo e instalou-se em Cascais, onde viveu na Villa Itália até à sua morte, fechando assim 800 anos de história da Casa de Saboia.
Resumo do episódio
Em junho de 1946, os italianos foram chamados a decidir, em referendo, o destino do seu regime político. A República venceu com 54,3% dos votos, pondo fim ao Reino de Itália e à dinastia de Saboia, que reinava desde 1861. Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares reconstroem o percurso desta monarquia, desde as suas origens medievais até à sua queda no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, procurando explicar por que razão uma instituição com quase mil anos de história desapareceu numa votação relativamente disputada.
A Casa de Saboia começou por volta do ano 1000 como um pequeno condado nos Alpes, numa região que hoje pertence quase inteiramente à França. Ao longo dos séculos, foi alargando o seu território por meio de uma hábil política de alianças, aproveitando os conflitos entre as grandes potências europeias - sobretudo França e os Habsburgos - para ir acumulando territórios na península itálica. No século XVIII, os Saboias eram já os soberanos do reino do Piemonte e da Sardenha, com capital em Turim. A unificação italiana, concretizada entre 1859 e 1871, foi o seu maior feito político. O primeiro-ministro Cavour, que falava melhor francês do que italiano, aproveitou guerras entre potências vizinhas para, diplomaticamente, ir anexando territórios, cedendo outros em troca - como a Saboia à França, em troca de Milão. Entretanto, líderes republicanos como Garibaldi, convencidos de que uma república nunca seria aceite pela Europa monárquica da época, acabaram por alinhar com a causa dos Saboias. Vitório Emanuel II tornou-se rei de Itália em 1861, legitimado por plebiscitos realizados nos territórios conquistados. A sua luta com o Papa, que perdeu os Estados Pontifícios e se considerou prisioneiro no Vaticano, granjeou à dinastia uma reputação de família real liberal e progressista, admirada pela esquerda europeia.
Essa reputação foi, porém, comprometida no século XX. Em 1922, Vitório Emanuel III nomeou Mussolini chefe do governo e tolerou a ditadura fascista durante duas décadas, incluindo a invasão da Etiópia, a aliança com a Alemanha nazi, as leis antissemitas de 1938 e a entrada na Segunda Guerra Mundial. Os apresentadores reconhecem que estes factos pesaram sobre a imagem da monarquia, mas argumentam que não chegam, por si sós, para explicar a sua queda. Afinal, o mesmo rei demitiu e mandou prender Mussolini em 1943, aliou-se aos aliados e declarou guerra à Alemanha. Em 1946, já tinha até abdicado a favor do filho, Humberto II, um jovem sem responsabilidade direta nos erros do regime.
A análise dos resultados do referendo revela uma divisão geográfica marcante: 66% do norte votou pela República e 64% do sul pela monarquia. No norte, a dinâmica da guerra civil entre 1943 e 1945 havia criado um ambiente antimonárquico transversal: os fascistas ressentiam-se de o rei ter demitido Mussolini, e os resistentes antifascistas consideravam que o rei os abandonara ao fugir para o sul. Tanto uns como outros acabaram por abraçar a causa republicana. A isto acrescentava-se a forte influência do Partido Comunista no norte e centro de Itália, cujas zonas de maior implantação coincidiam com as de maior voto republicano.
Mas Rui Ramos avança ainda um terceiro fator, menos óbvio: o ressentimento histórico da Igreja Católica em relação aos Saboias. Entre 1861 e 1904, o Papa havia proibido os católicos de participar na vida cívica italiana, por considerar ilegítimo o Estado que lhe tomara os territórios. Em 1946, o Vaticano declarou-se neutro e o líder da Democracia Cristã, Alcide De Gasperi - figura dominante da política italiana do pós-guerra -, terá votado pela República, segundo revelações posteriores da sua filha. Num referendo decidido por apenas oito pontos percentuais, a ausência de um empenho activo da Igreja a favor da monarquia pode ter sido determinante. Dois anos depois, em 1948, quando a Igreja se mobilizou a fundo a favor da Democracia Cristã, esse partido obteve 49% dos votos - prova do que essa mobilização era capaz de fazer. Os Saboias, conclui Rui
Personagens
- Vittorio Emanuele II
- Umberto II
- Carlo Alberto
- Vittorio Emanuele III
- Giuseppe Mazzini
- Conde de Cavour
- Giuseppe Garibaldi
- Giuseppe Verdi
- D. Luís I
- Maria Pia de Saboia
- Amadeu de Saboia
- D. Carlos I
- Metternich
- Benito Mussolini
- Adolf Hitler
- Humberto II
- Alcide De Gasperi
- Don Luigi Sturzo
- Rei Miguel da Roménia
- Josef Stalin
- D. Pedro IV
Lugares/Países
- Itália
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Épocas
- Idade Média
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Segunda Guerra Mundial
- pós-guerra
Temas
- monarquia
- república
- referendo
- unificação nacional
- nacionalismo
- fascismo
- diplomacia
- guerra
- religião
- Igreja Católica
- comunismo
- democracia cristã
- resistência
- exílio
Eventos
- Referendo italiano de 1946
- Unificação italiana
- Congresso de Viena
- Revoluções de 1849
- Invasão da Etiópia
- Concordata de 1929
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerras napoleónicas
- Guerra entre França e Áustria (1859)
- Guerra entre Prússia e Áustria (1866)
- Guerra entre França e Prússia (1870)
- Guerra Civil Italiana (1943-1945)
- Guerra Civil Grega