Nº 11415 de setembro de 202149:20efeméride
Jorge Sampaio e os 20 anos do 11 de Setembro
O episódio analisa a presidência de Jorge Sampaio (1996-2006) e os 20 anos dos atentados de 11 de Setembro. Rui Ramos traça o perfil político de Sampaio desde a oposição estudantil nos anos 60, passando pela 'geringonça' em Lisboa (1989) até à dissolução da Assembleia em 2004. Na segunda parte, discute-se o significado histórico do 11 de Setembro, argumentando que apesar da retirada do Afeganistão, o jihadismo internacionalista de Bin Laden foi derrotado, mas estas guerras reanimaram a polarização política no Ocidente.
Ideias principais
- Jorge Sampaio pertenceu à primeira geração de ativistas de esquerda que não foi comunista nem extrema-esquerda maoísta, formando grupos independentes de amigos que procuravam uma 'unidade da esquerda' pluralista e não sectária.
- A aliança PS-PCP em Lisboa (1989) não foi uma 'geringonça' mas uma coligação formal com programa comum, diferente do modelo de 2015 onde PCP e Bloco apoiavam sem integrar o governo.
- Jorge Sampaio foi o presidente mais interventivo da democracia portuguesa, opondo-se à política orçamental de Durão Barroso ('há mais vida para além do orçamento') e à guerra do Iraque, usando zonas sombras constitucionais para dissolver a Assembleia em 2004.
- O projeto de revolução islâmica internacionalista de Bin Laden foi derrotado: a Al-Qaeda foi destruída, os seus líderes mortos, e o regresso dos talibãs ao Afeganistão não representa o jihadismo revolucionário dos anos 2000.
- O 11 de Setembro terminou o consenso liberal dos anos 90, criando nova polarização política através da contestação anti-imperialista à esquerda e do nacionalismo anti-imigração à direita, reavivando dinâmicas dos anos 60-70.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos: a vida e o legado político de Jorge Sampaio, falecido pouco antes da gravação, e o significado histórico dos atentados do 11 de Setembro, cujo vigésimo aniversário se assinalava nessa semana.
A reflexão sobre Jorge Sampaio começa por situar a sua geração política: a de 1962, a primeira vaga de ativistas de esquerda universitária que já não se identificava com o Partido Comunista, ao contrário da geração anterior de Mário Soares, marcada pela influência soviética. Ao mesmo tempo, essa geração ficou aquém do maoísmo radical que dominaria a esquerda estudantil no final dos anos 60. O que a definia era um socialismo de princípios, avesso ao sectarismo leninista e ao personalismo, cultivado num círculo de amigos que se reunia habitualmente num snack-bar de Lisboa. Rui Ramos sublinha que esta identidade coletiva e não-sectária distinguia Sampaio e o seu grupo tanto do Partido Comunista como de Mário Soares, a quem viam como demasiado pragmático e personalista. Em 1977, o grupo adere ao Partido Socialista em bloco, precisamente quando Soares governava em aliança com o CDS, funcionando como contrapeso à esquerda. Em 1989, Sampaio concretiza a sua visão de unidade da esquerda ao vencer a Câmara de Lisboa com o apoio formal do PS e do PCP - uma aliança eleitoral com programa comum, que os apresentadores distinguem claramente da "geringonça" de 2015, que foi um acordo parlamentar externo ao governo.
Quanto à presidência da República, os apresentadores exploram a tensão entre a imagem de Sampaio como presidente moderado e o que foi efetivamente a sua prática. A revisão constitucional de 1982 tinha aparentemente limitado os poderes presidenciais, retirando ao Presidente a capacidade de demitir o governo por perda de confiança. Mas essa zona cinzenta manteve-se, e Sampaio soube habitá-la. Confrontado com o governo de Durão Barroso, colocou-se abertamente como chefe da oposição ao ajustamento orçamental exigido por Bruxelas. Em 2004, hesitou longamente antes de dar posse a Pedro Santana Lopes como sucessor de Barroso, e depois, ao ver o governo desgastar-se rapidamente, acabou por dissolver a Assembleia da República - apesar de existir uma maioria parlamentar estável, o que tornava essa decisão constitucionalmente controversa. Rui Ramos revela ainda que Sampaio escreveu, no prefácio aos seus discursos de 2004, que se Santana Lopes tivesse ganho as eleições seguintes, se teria demitido da presidência, o que significa que os portugueses votaram, sem o saber, também sobre o futuro do próprio Presidente.
Na segunda parte, os apresentadores analisam o 11 de Setembro. Rui Ramos contextualiza a estratégia da Al-Qaeda: Osama Bin Laden não pretendia apenas atacar o Ocidente, mas forçar as potências ocidentais a intervir militarmente no mundo islâmico, tornando visível a dependência dos regimes árabes em relação ao apoio americano e obrigando cada muçulmano a escolher entre a modernidade ocidental e o jihadismo revolucionário. Esta estratégia, no entanto, acabou por falhar. Os Estados Unidos destruíram a Al-Qaeda no Afeganistão, mataram Bin Laden em 2011 e derrotaram o Estado Islâmico em 2019. O regresso dos talibãs ao poder não representa uma vitória do internacionalismo jihadista, até porque os próprios talibãs prometeram não acolher a Al-Qaeda.
O segundo grande significado histórico do 11 de Setembro foi, segundo os apresentadores, o fim do aparente consenso político dos anos 90. As guerras do Afeganistão e do Iraque reanimaram uma esquerda radical que parecia derrotada após a queda do Muro de Berlim, e a associação entre imigração e risco de segurança alimentou uma direita nacionalista que encontraria expressão no Brexit e em Donald Trump. O episódio conclui com a ideia de que o 11 de Setembro não inaugurou uma era inteiramente nova, mas interrompeu a exceção histórica dos anos 90 - um breve momento em que a política parecia ter chegado a um consenso permanente.
Personagens
- Jorge Sampaio
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Napoleão Bonaparte
- Mário Soares
- Álvaro Cunhal
- José Manuel Galvão Teles
- Nuno Berdot dos Santos
- Vera Jardim
- João Carvinho
- Melo Antunes
- António Guterres
- Salgado Zenha
- Colina Ribeiro Machado
- Cruz Apocasias
- Cavaco Silva
- Durão Barroso
- Pedro Santana Lopes
- Ferro Rodrigues
- José Sócrates
- António Costa
- Nikita Khrushchev
- Stalin
- Osama bin Laden
- Abu Bakr al-Baghdadi
- Che Guevara
- Tony Blair
- Bill Clinton
- Gerhard Schroeder
- Donald Trump
Lugares/Países
- Portugal
- França
- União Soviética
- Hungria
- China
- Estados Unidos
- Iraque
- Afeganistão
- Paquistão
- Síria
- Arábia Saudita
- Egito
- Jordânia
- Argélia
- Irão
- Kuwait
- Reino Unido
- Alemanha
- Espanha
- Europa
- Médio Oriente
- Norte de África
- Ásia Central
- América Latina
Épocas
- anos 60
- anos 70
- Estado Novo
- década de 1960
- década de 1980
- anos 90
- século XXI
- princípio do século XXI
Temas
- política
- democracia
- terrorismo
- islamismo
- fundamentalismo religioso
- guerra
- imperialismo
- globalização
- migração
- extrema-esquerda
- comunismo
- socialismo
- presidencialismo
- parlamentarismo
- constitucionalismo
- revolução
- oposição política
- movimento estudantil
- segurança
- política externa
Eventos
- 11 de Setembro
- atentados do 11 de setembro
- 25 de Abril
- Revolução do 25 de Abril
- 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética
- queda do muro de Berlim
- revisão constitucional de 1982
- eleições autárquicas de 2001
- crise financeira de 2008
- Brexit
- Revolução Islâmica Iraniana de 1978
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- guerra do Vietnã
- guerra contra o Iraque
- guerra do Iraque
- guerra civil argelina
- guerra da Síria
- guerra no Afeganistão
Livros citados
- relatório do Congresso americano sobre o 11 de setembro