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Nº 11308 de setembro de 202150:14resposta a ouvintes

José Hermano Saraiva era um grande historiador?

O episódio analisa o papel de José Hermano Saraiva enquanto historiador versus divulgador, explorando a sua carreira desde jurista e político salazarista a figura televisiva icónica. Rui Ramos distingue o Hermano Saraiva dos anos 70, com interpretações inovadoras e democratizantes da história, do divulgador mais tardio. O episódio prossegue com uma análise do papel dos almirantes na história portuguesa contemporânea, desde figuras políticas da Primeira República até ao 25 de Abril.

Ideias principais

  1. José Hermano Saraiva não era investigador universitário mas tinha interpretações e teorias históricas próprias, publicando obras académicas respeitadas e dirigindo trabalhos com colaboração dos principais historiadores portugueses.
  2. O programa 'O Tempo e a Alma' (1971-72) representou uma democratização da história, questionando narrativas tradicionais com uma visão populista e republicana que correspondia às aspirações das classes médias emergentes do desenvolvimentismo dos anos 60.
  3. A transição de Hermano Saraiva do marcelismo para a democracia foi facilitada pela sua abordagem já crítica e descentralizadora da história, percorrendo depois todo o país a dar história às localidades além de Lisboa.
  4. Contrariamente à ideia popular, Portugal teve vários almirantes enquanto heróis nacionais e figuras políticas centrais no século XX, desde presidentes da República (Canto e Castro, Américo Tomás) a protagonistas de revoluções e do 25 de Abril.
  5. A raridade de almirantes famosos em épocas anteriores explica-se porque 'almirante' foi durante séculos um título hereditário de certas famílias, não uma patente de carreira, e os grandes comandantes navais dos Descobrimentos não tinham esse título.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda duas questões distintas enviadas por ouvintes. A primeira interroga a verdadeira dimensão de José Hermano Saraiva enquanto historiador, distinguindo-o do simples "contador de histórias". A segunda explora o papel dos almirantes na história portuguesa, procurando perceber por que razão figuras navais não ocupam maior destaque na memória colectiva do país.

Relativamente a José Hermano Saraiva, Rui Ramos começa por esclarecer que não se tratava de um investigador universitário nem de um licenciado em História - era, de formação, jurista e advogado. Contudo, recorda que muitos dos grandes historiadores portugueses, como Alexandre Herculano ou Oliveira Martins, também não tiveram carreiras académicas, pelo que a ausência de um vínculo universitário não inviabiliza a condição de historiador. Hermano Saraiva veio de uma família de erudição: era filho de um professor que se distinguira em estudos sobre os painéis de Nuno Gonçalves e irmão de António José Saraiva, reputado historiador da literatura. Antes de chegar à televisão, foi uma figura do Estado Novo - chegou a ministro da Educação Nacional em 1968, cargo que abandonou em 1970, queimado politicamente pela agitação académica da época. É então que, no outono de 1971, surge na RTP com o programa *O Tempo e o Modo*, apresentado de forma simples mas de enorme eficácia comunicativa, combinando uma dicção cuidada, leitura dramatizada de documentos históricos e uma postura iconoclasta que questionava as versões consagradas. Rui Ramos sublinha que esta abordagem não era meramente narrativa: Hermano Saraiva propunha interpretações sobre figuras como D. Afonso Henriques ou sobre a crise dinástica de 1383, defendendo uma visão da história centrada no papel do povo, com afinidades com um certo republicanismo cultural. A sua *História Concisa de Portugal*, publicada em 1978, é apresentada como uma síntese séria e bem construída, não uma colectânea de anedotas. Nos anos 80, dirigiu uma ambiciosa *História de Portugal* publicada em fascículos, com colaboração de historiadores universitários de primeira linha como José Mattoso, o que contraria a ideia de que seria visto pelo meio académico como uma figura sem crédito. Nas décadas seguintes, regressou à televisão para percorrer o país e dar história às localidades portuguesas, acompanhando o espírito descentralizador da democracia. Rui Ramos conclui que, se no fim da vida o seu conhecimento estava inevitavelmente datado face à historiografia universitária em expansão, seria um erro reduzi-lo a um simples entretedor: foi um comunicador com interpretações próprias que despertou genuíno interesse histórico em várias gerações de portugueses.

A segunda parte do episódio parte da figura do vice-almirante Gouveia e Melo, tornado célebre pela coordenação da vacinação contra a Covid-19, para perguntar por que razão os almirantes portugueses não são mais celebrados. Rui Ramos explica que, durante séculos, "almirante" foi um título hereditário - os Pessanhas detiveram-no durante quase 150 anos - e não uma patente aberta a quem fizesse carreira naval. Os grandes comandantes das armadas do século XVI, como D. Francisco de Almeida ou Afonso de Albuquerque, não eram almirantes; exerciam funções mistas de terra e mar, sem distinção clara entre exército e marinha. Com a revolução tecnológica do século XIX, a construção de navios de guerra tornou-se tão dispendiosa que Portugal ficou impossibilitado de competir com as grandes potências navais, o que limitou o espaço para figuras militares navais de destaque. Ainda assim, os almirantes marcaram presença notável na história contemporânea portuguesa, sobretudo porque os navios no Tejo tornavam a Marinha decisiva nas revoluções em Lisboa. Rui Ramos enumera vários exemplos: o almirante Cândido dos Reis, figura central do 5 de Outubro de 1910; o almirante Canto e Castro, que presidiu à República entre 1918 e 1919; o almirante Américo Tomás, que governou durante dezasseis anos como presidente no Estado Novo; o almirante Sarmento Rodrigues, ligado ao luso-tropicalismo; e, já no período revolucionário, o almirante Rosa Coutinho, associado à independência de Angola, e o almirante Pinheiro de Azevedo

Personagens

  • José Hermano Saraiva
  • Joel Serrão
  • António José Saraiva
  • José Saraiva (pai)
  • Nuno Gonçalves
  • Alexandre Herculano
  • Oliveira Martins
  • João Lúcio de Azevedo
  • Henrique da Gama Barros
  • José Mattoso
  • Veríssimo Serrão
  • Salazar
  • Marcelo Caetano
  • Veiga Simão
  • D. Afonso Henriques
  • Fernão Lopes
  • D. João I
  • Gilberto Freyre
  • Couveia e Melo
  • Gago Coutinho
  • Vasco da Gama
  • Manuel Peçanha
  • D. Fernando
  • Infante D. Pedro Carlos
  • Marquês de Angeja
  • D. Francisco de Almeida
  • Afonso de Albuquerque
  • Charles Napier
  • Duque da Terceira
  • Duque de Saldanha
  • João de Azevedo Coutinho
  • D. Manuel II
  • Cândido dos Reis
  • Jaime Leal do Rego
  • Pimenta de Castro
  • Manuel de Arriaga
  • Afonso Costa
  • Sidónio Pais
  • Canto e Castro
  • Américo Tomás
  • Humberto Delgado
  • Carmona
  • Manuel Sarmento Rodrigues
  • Adriano Moreira
  • Rosa Coutinho
  • Pinheiro de Azevedo
  • Vasco Gonçalves
  • Machado Santos
  • Teixeira da Mota

Lugares/Países

  • Portugal
  • Brasil
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Japão
  • Itália
  • Holanda
  • Moçambique
  • Angola
  • Guiné
  • Timor
  • Índia

Épocas

  • século XVI
  • século XIV
  • século XV
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Primeira República
  • Marcelismo
  • 25 de Abril
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80
  • anos 90

Temas

  • historiografia
  • divulgação histórica
  • televisão
  • académia
  • política
  • marinha
  • poder naval
  • colonialismo
  • revolução
  • golpes de Estado
  • monarquia
  • república
  • ditadura
  • democracia
  • descolonização

Eventos

  • Revolução de 5 de Outubro de 1910
  • 25 de Abril de 1974
  • Crise académica de 1969
  • Revolução de 14 de Maio de 1915
  • Guerra Civil de 1832-1834
  • Monarquia do Norte
  • Crise de 1383

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Campanhas de ocupação em África
  • Guerra Civil portuguesa de 1832-1834

Livros citados

  • Dicionário de História de Portugal
  • História da Literatura Portuguesa
  • Outras Maneiras de Ver
  • História Concisa de Portugal
  • Ditos Portugueses Dignos de Memória
  • Crónica de D. João I