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Nº 32928 de outubro de 202555:24efeméride

Leis de Nuremberga: o que é ser racista (mesmo)

As Leis de Nuremberga de 1935 transformaram o racismo em política oficial do Estado nazi, estabelecendo uma definição biológica de judaísmo e privando os judeus da cidadania alemã. Baseadas em teorias pseudo-científicas de hierarquia racial, estas leis não resultaram de tensões sociais mas de uma ideologia revolucionária que via os judeus como ameaça existencial. O episódio analisa a evolução da perseguição até ao Holocausto, recorrendo ao testemunho do diário de Viktor Klemperer.

Ideias principais

  1. O antissemitismo nazi difere radicalmente da discriminação religiosa medieval porque se baseia numa definição biológica e não religiosa de judaísmo, sendo considerado científico na época.
  2. As Leis de Nuremberga não respondiam a problemas sociais reais, já que os judeus alemães eram menos de 1% da população e estavam profundamente integrados, mas serviam a revolução ideológica nazi.
  3. Hitler instrumentalizou as leis em 1935 para mostrar que continuava revolucionário após eliminar a ala radical das SA em 1934, assumindo o Estado o controlo da perseguição para evitar violência espontânea.
  4. O diário de Viktor Klemperer revela como um professor universitário protestante de origem judaica foi progressivamente excluído da sociedade alemã, não se sentindo judeu mas sendo classificado como tal pelas leis raciais.
  5. Klemperer sobreviveu ao Holocausto por três factores: estar casado com uma ariana, ser veterano da Primeira Guerra Mundial, e ter destruído os documentos durante o bombardeamento de Dresden em 1943, momento em que fugiu misturando-se nos refugiados.

Resumo do episódio

Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares assinalam o nonagésimo aniversário das Leis de Nuremberga, promulgadas a 15 de setembro de 1935, analisando a lógica ideológica que lhes serviu de base e as consequências concretas que tiveram na vida dos judeus alemães.

Os apresentadores começam por explicar o que estas leis estabeleceram: a distinção legal entre cidadãos plenos - apenas os de "sangue alemão" - e os restantes, bem como a proibição de casamentos e relações sexuais entre arianos e judeus. A definição de "judeu" era biológica, não religiosa nem cultural: bastava ter um antepassado judeu para ser assim classificado, independentemente de se ter convertido ao cristianismo, de se falar alemão como língua materna ou de se ter combatido pelo país na Grande Guerra. Rui Ramos sublinha que este antissemitismo é radicalmente diferente da discriminação religiosa medieval - em Portugal ou Espanha, a conversão ao cristianismo bastava para deixar de ser judeu -, porque o que está em causa no nazismo é uma suposta ciência racial desenvolvida por académicos europeus do século XIX, que dividiam a humanidade em raças hierarquizadas e acreditavam ser necessário proteger as raças superiores da "contaminação" pelas inferiores.

Os apresentadores aprofundam a lógica paradoxal do antissemitismo nazi: os judeus não eram vistos como uma raça inferior no sentido tecnológico ou intelectual, mas como uma força dissolvente e conspirativa, agentes do capitalismo globalista que, na visão de Hitler, ameaçava subordinar todas as nações a um sistema de exploração centrado nos Estados Unidos. A eliminação dos judeus era, assim, o equivalente funcional da expropriação dos proprietários pelos comunistas soviéticos: o ato revolucionário central do regime. Ramos nota que ciganos e negros eram também discriminados, mas de forma distinta e menos sistemática - um escritor negro americano que visitou a Alemanha nos anos 30 descreveu sentir menos discriminação ali do que no sul dos Estados Unidos.

Quanto ao contexto de 1935, os apresentadores explicam que Hitler precisava de mostrar serviço após ter eliminado a ala mais radical da SA no verão de 1934, sendo acusado de se ter acomodado ao establishment conservador. A agitação nas bases do partido, com ataques espontâneos a judeus, levou o regime a assumir a liderança da perseguição através de legislação formal, apresentando paradoxalmente as leis como medidas de pacificação. Esta encenação servia também para tranquilizar a opinião internacional antes dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. A partir de 1938, com a Noite de Cristal - desencadeada pelo assassínio de um diplomata alemão em Paris por um jovem judeu polaco -, o ambiente de violência que se instalara progrediu: cerca de 30 mil homens foram detidos, milhares de lojas destruídas e uma série de decretos reduziu progressivamente os judeus a uma condição sem quaisquer direitos civis.

Para ilustrar como tudo isto foi vivido no quotidiano, os apresentadores recorrem ao diário de Victor Klemperer, professor de literatura francesa na Universidade de Dresden. Filho de rabino, batizado como protestante e veterano da Primeira Guerra Mundial, Klemperer sentia-se profundamente alemão e recusou emigrar, esperando que o regime colapsasse. O seu diário regista a descontinuidade das perseguições, a adaptação forçada dos judeus integrados, a adesão de colegas ao nazismo e o pressentimento crescente de uma violência maior. Obrigado a usar a estrela amarela em 1941, poupado às deportações por estar casado com uma ariana, Klemperer sobreviveu por acaso: na madrugada de 13 para 14 de fevereiro de 1945, quando devia apresentar-se para deportação, Dresden foi destruída pelos bombardeiros aliados. Aproveitando o caos, tirou a estrela, destruiu os seus documentos e misturou-se nos refugiados, aguardando os americanos num vilarejo da Baviera. O episódio termina com uma nota tocante do próprio diário: Klemperer escreveu que não esperava a chegada dos americanos, mas o regresso dos alemães - os seus compatriotas, aqueles com quem sempre se identificara e que o regime apagara durante doze anos.

Personagens

  • Adolf Hitler
  • Paul von Hindenburg
  • Joseph Goebbels
  • Viktor Klemperer
  • Otto Klemperer

Lugares/Países

  • Alemanha
  • Polónia
  • Roménia
  • Hungria
  • Rússia
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • França
  • Inglaterra
  • Portugal
  • Espanha
  • Peru
  • Argentina
  • Palestina

Épocas

  • século XIX
  • Terceiro Reich
  • anos 30
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Idade Média

Temas

  • racismo
  • antissemitismo
  • eugenia
  • legislação discriminatória
  • nacionalismo
  • totalitarismo
  • perseguição religiosa
  • genocídio
  • migração forçada
  • ciência racial
  • discriminação jurídica
  • higiene racial

Eventos

  • Leis de Nuremberga
  • Noite de Cristal
  • Jogos Olímpicos de 1936
  • Conferência de Wannsee
  • Bombardeamento de Dresden

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Livros citados

  • Protocolos dos Sábios de Sião
  • Diário de Viktor Klemperer