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Nº 23617 de janeiro de 20241h09efeméride

Lenine morreu há 100 anos. Quem foi este homem?

No centenário da morte de Vladimir Lenin (21 de janeiro de 1924), Rui Ramos e João Miguel Tavares analisam a vida, ideias e legado do líder bolchevista que fundou a União Soviética. O episódio explora como Lenin, em apenas sete anos de poder (1917-1924), criou o marxismo-leninismo, distinguindo-se do marxismo clássico pela ênfase no voluntarismo revolucionário, na vanguarda de revolucionários profissionais e no uso sistemático da violência para tomar e manter o poder. Rui Ramos argumenta que sem Lenin provavelmente não teria havido revolução bolchevista na Rússia, destacando o seu papel individual na história.

Ideias principais

  1. Lenin introduziu uma inovação fundamental no marxismo ao defender que uma vanguarda de revolucionários profissionais poderia forçar a história através da violência organizada, em vez de esperar pelas transformações económicas estruturais previstas por Marx.
  2. O leninismo distingue-se radicalmente da social-democracia europeia ao rejeitar completamente a democracia parlamentar e as eleições livres, estabelecendo desde o início uma ditadura do partido único sustentada pelo terror sistemático.
  3. Lenin usou promessas táticas (paz, terra aos camponeses, autonomia das nacionalidades) apenas como meio para tomar o poder, revertendo todas essas políticas depois de consolidar o controle bolchevista, demonstrando uma flexibilidade tática total subordinada ao monopólio do poder.
  4. As instituições repressivas mais associadas ao stalinismo (Tcheka, GULAG, campos de concentração, terror de Estado, execuções em massa) foram na realidade criações de Lenin desde 1917-1918, não invenções posteriores de Stalin.
  5. A desstalinização de Khrushchev e Gorbachev foi na prática uma desleninização, pois ao perderem a flexibilidade tática extrema de Lenin e Stalin (capacidade de mudar radicalmente de políticas mantendo o controle absoluto), a União Soviética perdeu viabilidade e acabou por se desagregar.

Resumo do episódio

No episódio 236 de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a figura de Lenine por ocasião do centenário da sua morte, ocorrida a 21 de janeiro de 1924. A pergunta central é dupla: o que tornou este homem tão singular ao ponto de o seu corpo embalsamado continuar exposto na Praça Vermelha, em Moscovo, um século depois, e por que razão a União Soviética passou por uma desestalinização mas nunca por uma desleninização?

Rui Ramos começa por situar Lenine - cujo nome real era Vladimir Ilyich Ulyanov - no contexto da intelligentsia russa do final do século XIX. Oriundo de uma família de estatuto nobre e origens etnicamente mistas, Lenine pertencia àquela geração de jovens universitários russos que, embora privilegiados, consideravam as reformas do Império demasiado lentas e tímidas. Essa impaciência radicalizou-os: em vez de aspirarem a transformar a Rússia numa monarquia constitucional à imagem da Europa Ocidental, queriam saltar essa etapa e instaurar imediatamente uma sociedade socialista. O episódio evoca o irmão mais velho de Lenine, Alexandre, que participou numa conspiração para assassinar o czar Alexandre III, foi condenado à morte e recusou pedir clemência por razões de coerência revolucionária - um episódio que ilustra bem o espírito desta geração.

O contributo original de Lenine para o marxismo é apresentado como a introdução do elemento voluntarista. Enquanto a social-democracia alemã - o maior partido marxista da Europa - entendia que a passagem do capitalismo para o socialismo seria um processo histórico estrutural, quase inevitável, e que cabia aos partidos organizarem os trabalhadores e participar na democracia parlamentar à espera dessa transformação, Lenine defendia que uma vanguarda de revolucionários profissionais devia aproveitar todas as oportunidades para tomar o poder pela força. Além disso, contrariou a ideia de que a revolução teria de começar nos países mais industrializados: argumentou que era possível fazer a revolução na Rússia, uma sociedade ainda predominantemente agrária, saltando etapas do desenvolvimento histórico.

Durante os dezassete anos que passou exilado na Europa Ocidental, entre 1900 e 1917, Lenine construiu a sua fação dentro do Partido Social-Democrata Russo - os bolchevistas -, financiada por doações de simpatizantes abastados e por assaltos a bancos coordenados por figuras como Stalin. A Primeira Guerra Mundial revelou-se a sua oportunidade: recusou qualquer solidariedade patriótica com o esforço de guerra russo e, com apoio logístico alemão, regressou à Rússia em abril de 1917 com uma mensagem de paz imediata, repartição de terras pelos camponeses e autonomia para as nacionalidades do Império. Eram promessas que não tencionava cumprir, mas que lhe garantiram a base de apoio necessária para, em novembro de 1917, derrubar não o czarismo - que já tinha caído - mas a República Democrática entretanto instaurada.

Uma vez no poder, Lenine agiu com implacável consistência. Encerrou a Assembleia Constituinte quando os resultados eleitorais foram desfavoráveis aos bolchevistas, eliminou os partidos rivais da esquerda, criou a polícia política, estabeleceu campos de concentração e restabeleceu a pena de morte. O terror, o Gulag e a Checa não foram invenções de Stalin, sublinham os apresentadores: foram criações de Lenine desde os primeiros anos do regime. A grande novidade histórica de Lenine foi precisamente romper com a tradição que associava socialismo e democracia, transformando um partido político num instrumento de ditadura total, o chamado centralismo democrático. A flexibilidade tática - como a Nova Política Económica de 1921, que admitiu temporariamente o mercado - era sempre subordinada ao único objetivo inabalável: o monopólio do poder pelo Partido Comunista. É essa lógica que os apresentadores identificam como o verdadeiro legado leninista, reconhecível tanto no estalinismo como, mais tarde, no modelo do Partido Comunista Chinês após 1978.

Personagens

  • Vladimir Lenin (Vladimir Ilyich Ulyanov)
  • Karl Marx
  • Joseph Stalin
  • Leon Trotsky
  • Alexandre II (czar russo)
  • Alexandre III (czar russo)
  • Nicolau II
  • Alexandre Ulyanov (irmão de Lenin)
  • Dmitry Volkogonov
  • Rosa Luxemburgo
  • Fyodor Dostoyevsky
  • Joseph Conrad
  • Mikhail Gorbachev
  • Nikita Khrushchev
  • Adolf Hitler
  • Fania Kaplan
  • Nikolai Berdyaev

Lugares/Países

  • Rússia
  • União Soviética
  • Alemanha
  • França
  • Inglaterra
  • Suíça
  • Itália
  • Áustria
  • Ucrânia
  • Polónia
  • Finlândia
  • Bielorrússia
  • China
  • Japão
  • Estados Unidos

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • década de 1860
  • década de 1870
  • década de 1890
  • década de 1900
  • década de 1910
  • década de 1920
  • década de 1950
  • década de 1970
  • década de 1980

Temas

  • revolução
  • marxismo
  • comunismo
  • terrorismo político
  • ditadura
  • violência política
  • guerra civil
  • propaganda
  • nacionalismo
  • imperialismo
  • reforma agrária
  • repressão política
  • intelectuais

Eventos

  • Revolução Russa de 1917
  • Revolução de 1905
  • abolição da servidão (1861)
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa
  • fundação da União Soviética
  • queda do muro de Berlim
  • dissolução da União Soviética
  • Comuna de Paris (1870)

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Russo-Japonesa (1904)

Livros citados

  • O Capital (Karl Marx)
  • Os Possessos/Os Demónios (Fyodor Dostoyevsky)
  • Under Western Eyes (Joseph Conrad)
  • biografia de Lenin por Dmitry Volkogonov