Nº 27516 de outubro de 202438:39resposta a ouvintes
Líbano: que país é este e qual a sua história?
O episódio traça a história do Líbano desde as suas origens como mosaico religioso protegido por montanhas até à devastadora guerra civil de 1975-1990. Rui Ramos explica como um país considerado a 'Suíça do Médio Oriente', com imprensa livre, universidades prestigiadas e sistema bancário próspero, se desintegrou devido a mudanças demográficas, urbanização acelerada, presença de milícias palestinianas e interferências da Síria, Israel e Irão. A análise mostra como o delicado equilíbrio confessional entre cristãos maronitas, sunitas, xiitas e drusos colapsou, transformando Beirute num campo de batalha de exércitos privados e o país num estado falhado até aos dias de hoje.
Ideias principais
- O Líbano foi historicamente único no Médio Oriente por ter maioria cristã até ao século XX, protegida pela geografia montanhosa que permitiu resistir à conquista islâmica, com os maronitas em comunhão com Roma a formarem a elite política.
- A mudança demográfica foi decisiva: emigração cristã maciça e alta natalidade muçulmana inverteram o equilíbrio populacional, tornando os xiitas a maior comunidade nos anos 1970, mas sem que o sistema político confessional (presidente cristão, primeiro-ministro sunita, presidente do parlamento xiita) fosse ajustado.
- A urbanização explosiva concentrou metade dos 3 milhões de habitantes em Beirute até 1980, misturando comunidades antes segregadas geograficamente e criando uma população jovem (41% com menos de 20 anos), desempregada e facilmente recrutável para milícias.
- A presença de organizações armadas palestinianas expulsas da Jordânia em 1970 militarizou a política libanesa, com a OLP a formar exércitos privados que apoiavam muçulmanos contra cristãos, levando todas as comunidades a criar as suas próprias milícias (Forças Libanesas, Amal, Hezbollah).
- A guerra civil de 1975-1990 teve três fases distintas (cristãos vs muçulmanos/palestinianos, xiitas vs palestinianos, xiitas vs xiitas) e sofreu invasões da Síria (1976-2005) e Israel (1978-2000), com o atentado de 1983 contra forças americanas e francesas a marcar a desistência internacional de impor a paz, deixando o Hezbollah como força dominante apoiada pelo Irão.
Resumo do episódio
O episódio parte de uma pergunta enviada por um ouvinte: como é que o Líbano, outrora conhecido como a Suíça do Médio Oriente e cuja capital, Beirute, era chamada a Paris do Médio Oriente, se transformou num Estado falhado? Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a esta questão através de um percurso pela história do país, desde as suas raízes geográficas e religiosas até à guerra civil que devastou o país a partir de 1975.
O ponto de partida é a geografia. O Líbano é um território montanhoso, do tamanho aproximado do distrito de Beja, com picos que ultrapassam os três mil metros de altitude. Foram precisamente essas montanhas que permitiram, após a expansão islâmica a partir do século VII, a sobrevivência de comunidades cristãs na região. Os maronitas, convertidos por um ermita chamado Maron no século V e em comunhão com Roma, tornaram-se o grupo dominante, sendo ainda a maioria da população no único recenseamento realizado, em 1931. Nas mesmas montanhas sobreviveram também xiitas e os drusos, um movimento religioso de origem islâmica com características tão próprias que a sua classificação como muçulmano é controversa. Durante séculos integrado no Império Otomano, o Líbano beneficiou de um estatuto de autonomia reconhecido em 1861, sob pressão francesa. Após a Primeira Guerra Mundial, tornou-se protetorado francês, tendo a França favorecido claramente a comunidade cristã. Em 1943, sob a França Livre do general De Gaulle, o país tornou-se independente.
A república nasceu de um acordo informal entre as várias comunidades: o Presidente da República seria sempre um cristão maronita, o Primeiro-Ministro um muçulmano sunita, e o Presidente do Parlamento um xiita. Este equilíbrio confessional permitiu durante décadas uma coexistência relativamente pacífica. O Líbano distinguia-se no contexto árabe pela sua liberdade de imprensa, pelo cosmopolitismo de Beirute, pela presença de universidades fundadas por missionários europeus e americanos no século XIX, e por um sector bancário que atraía fortunas de toda a região. Era genuinamente uma exceção no Médio Oriente.
Mas o arranjo começou a deteriorar-se por razões internas e externas. Demograficamente, os cristãos emigraram em massa para o Ocidente enquanto os muçulmanos registavam taxas de natalidade mais elevadas, invertendo a composição da população. A urbanização acelerada concentrou em Beirute comunidades que, nas aldeias das montanhas, viviam separadas, criando condições de conflito territorial e político. Em simultâneo, após a criação do Estado de Israel em 1948, centenas de milhares de palestinianos chegaram ao Líbano e foram mantidos em campos de refugiados sem lhes ser concedida a nacionalidade libanesa. A partir de 1970, depois de expulsas da Jordânia, as organizações armadas palestinianas, como a OLP de Yasser Arafat, instalaram-se no Líbano e criaram exércitos privados que militarizaram toda a vida política do país. A Síria, que nunca aceitou plenamente a independência libanesa, e Israel, em sentido contrário, passaram também a interferir ativamente, apoiando diferentes milícias consoante os seus interesses.
A guerra civil eclodiu em 1975 e durou quinze anos, atravessando várias fases: primeiro cristãos contra muçulmanos, drusos e palestinianos; depois chiitas contra palestinianos; finalmente, uma guerra entre as próprias milícias chiitas, o Amal e o recém-criado Hezbollah, apoiado pelo Irão, que saiu vencedor. Durante este período, o Líbano foi invadido pela Síria em 1976 e por Israel em 1978 e 1982. Uma força multinacional de paz enviada em 1982 retirou após os atentados suicidas de 1983, que mataram 241 militares americanos e 58 franceses num único dia. Desde então, nenhuma potência voltou a tentar impor a paz no Líbano, deixando o país entregue às suas milícias e às interferências externas, com o Hezbollah a transformar o sul do território numa base de ataque a Israel - o que explica a renovada escalada do conflito que motivou o episódio.
Personagens
- Hemingway
- Maron
- Pierre Gemayel
- Kamal Jumblat
- Yasser Arafat
- Gamal Abdel Nasser
- Charles de Gaulle
Lugares/Países
- Líbano
- Israel
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- França
- Estados Unidos
- Egipto
- Jordânia
- Iraque
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- Império Otomano
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- União Soviética
- Argélia
Épocas
- Antiguidade
- século V
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- anos 1940
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
- anos 1980
Temas
- guerra civil
- conflitos religiosos
- demografia
- urbanização
- migração
- imperialismo
- colonialismo
- nacionalismo árabe
- terrorismo
- religião
- cristianismo
- islão
- sectarismo
- conflito israelo-palestiniano
- refugiados
- imprensa livre
- educação
- sistema bancário
- milícias
- interferência estrangeira
Eventos
- Guerra Civil Libanesa
- criação do Estado de Israel
- Guerra dos Seis Dias
- Revolução dos Cedros
- Setembro Negro
- atentado de Beirute de 1983
- ofensiva do TET
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Libanesa
- conflito israelo-palestiniano
- guerra de 1948
- invasão israelita de 1978
- invasão israelita de 1982
- Guerra dos Campos
- Guerra da Argélia
- Guerra do Vietname