Nº 28525 de dezembro de 202452:44efeméride
Longas barbas e barrete – quem foi Vasco da Gama?
Episódio sobre os 500 anos da morte de Vasco da Gama (24 dezembro 1524), explorando a sua figura não como simples navegador mas como político da corte portuguesa. Rui Ramos argumenta que Vasco da Gama foi escolhido por Dom Manuel I por razões políticas e de confiança dinástica, tendo comandado três viagens à Índia numa empresa imperial mais motivada por projeto de cruzada do que por comércio, enfrentando sucessivas lutas políticas na corte que o levaram da oposição ao vice-reinado.
Ideias principais
- Vasco da Gama não era um explorador técnico como Bartolomeu Dias ou Diogo Cão, mas um fidalgo escolhido por razões políticas como homem de confiança da família dos Duques de Viseu, ligada a Dom Manuel I
- A viagem à Índia foi uma decisão política controversa de Dom Manuel I contra o parecer da maioria dos seus conselheiros, motivada por um projeto de cruzada para libertar Jerusalém e não primariamente por interesses comerciais
- A empresa da Índia tinha riscos diplomáticos elevados por poder gerar conflitos com Castela sobre a divisão do mundo estabelecida nos tratados de Tordesilhas, sendo essa uma das principais objeções dos conselheiros régios
- Vasco da Gama tornou-se um político influente após 1499, constituindo uma 'casa' familiar poderosa, mas entrou em oposição a Dom Manuel I defendendo menos Estado na Índia e mais comércio privado, só regressando ao favor régio com Dom João III
- A complexa situação política e religiosa da Ásia (poderes muçulmanos, hindus, rivalidades entre turcos e persas) exigia capacidades diplomáticas e políticas tanto ou mais do que náuticas, papel em que Vasco da Gama se destacou
Resumo do episódio
Transmitido no dia de Natal de 2024, este episódio de *E o Resto é História* assinala os 500 anos da morte de Vasco da Gama, falecido a 24 de dezembro de 1524 em Cochim, na Índia, durante a sua terceira viagem ao Oriente. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se revisitar a figura do navegador português por um ângulo menos convencional do que o habitual, desviando-se das narrativas centradas na ciência náutica ou no comércio das especiarias para sublinhar, acima de tudo, a dimensão política da sua vida e da empresa que comandou.
A conversa começa por enquadrar o contexto da primeira viagem, iniciada em julho de 1497, que implicou uma façanha náutica assinalável: cerca de 90 dias de navegação sem terra à vista, numa grande volta pelo Atlântico Sul a partir de Cabo Verde, para apanhar os ventos favoráveis que permitissem dobrar o Cabo da Boa Esperança, descoberto por Bartolomeu Dias dez anos antes. Rui Ramos sublinha que Vasco da Gama não partiu às cegas - beneficiou do conhecimento acumulado por exploradores anteriores -, mas que a expedição exigiu autoridade e sangue frio para manter as tripulações confiantes ao longo de meses sem avistarem terra.
O ponto central do episódio é, porém, a natureza política da viagem. Rui Ramos recorda que a decisão de enviar uma armada à Índia foi altamente controversa no Conselho do Rei, onde a maioria dos conselheiros se opunha ao projeto. As objeções não eram apenas as do conservadorismo retratado pelo Velho do Restelo em *Os Lusíadas*: havia receios diplomáticos sérios relativamente a Castela, com quem Portugal disputava a partilha do mundo através de tratados como o de Alcáçovas e o de Tordesilhas. Havia também resistência dos mercadores portugueses, para quem as viagens à Índia implicavam um imobilização de capitais por dois anos, muito superior às rotas africanas. Quem financiou a empresa foram sobretudo comerciantes italianos - florentinos e genoveses - interessados em concorrer com Veneza no comércio das especiarias. O rei Dom Manuel ignorou a maioria dos seus conselheiros porque encarava a viagem não como um projeto comercial, mas como uma cruzada: esperava estabelecer aliança com supostos reis cristãos da Índia - o lendário Preste João - para atacar o Islão pela retaguarda e libertar Jerusalém.
É neste contexto que Vasco da Gama surge, aos olhos dos apresentadores, não como um navegador no sentido técnico do termo - diferentemente de Diogo Cão ou Bartolomeu Dias, que eram exploradores oceânicos -, mas como um fidalgo de confiança política do rei. A família dos Gama estava ligada ao Duque de Viseu, pai de Dom Manuel, e essa proximidade explica a escolha do rei, que precisava de alguém politicamente fiel para comandar uma expedição tão contestada. Depois do sucesso de 1499, Vasco da Gama tratou de construir uma base de poder familiar - obter títulos, rendimentos, cargos e alianças matrimoniais -, tornando-se Conde de Vidigueira apenas em 1519, duas décadas após lhe ter sido prometido o título.
A segunda parte do episódio acompanha as lutas políticas que marcam a carreira de Vasco da Gama após o regresso da primeira viagem. A nomeação dos governadores e vice-reis da Índia era um campo de batalha entre Dom Manuel e os seus opositores na nobreza, que preferiam menos Estado e mais comércio privado no Oriente. Vasco da Gama acabou por se alinhar com esta oposição, chegando a pedir licença para se exilar em Castela. Só com a morte de Dom Manuel e a subida ao trono de Dom João III, em 1521, voltou ao favor régio, sendo nomeado vice-rei da Índia em 1524. O seu projeto era radical: abandonar a maioria das fortalezas portuguesas no Oriente e entregar o comércio aos privados. Mas morreu em dezembro desse mesmo ano, sem ter podido concretizar os planos. Rui Ramos conclui que Vasco da Gama foi, antes de mais, um político do início do século XVI que comandou uma das grandes empresas da monarquia portuguesa - e que a história o recorda sobretudo como navegador por força da imortalização que Camões lhe conferiu em *
Personagens
- Vasco da Gama
- Bartolomeu Dias
- Luís Camões
- Pedro Álvares Cabral
- Dom Manuel I
- Dom João II
- Luís Adão da Fonseca
- Dom Afonso V
- Cristóvão Colombo
- Fernando de Magalhães
- Estêvão da Gama
- Paulo da Gama
- Infante Dom Henrique
- Infante Dom Fernando
- Dom Diogo (Duque de Viseu)
- Dom Jorge de Lencastre
- Diogo Cão
- João Paulo Oliveira e Costa
- Dom Francisco de Almeida
- Afonso de Albuquerque
- Lopes Soares de Albergaria
- Diogo Lopes de Sequeira
- Carlos V
- Dom João III
- Duque de Bragança
- Dom Estêvão da Gama
- Dom Cristóvão da Gama
- Duarte Pacheco Pereira
- Dom Duarte
Lugares/Países
- Portugal
- Índia
- Castela
- Brasil
- África
- Etiópia
- Marrocos
- Egipto
- Pérsia
- Veneza
- Florença
- Génova
- Europa
- Médio Oriente
- Ásia
- Ilhas Molucas
- Congo
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XVII
- 1488
- 1497-1499
- 1524
Temas
- expansão marítima
- descobrimentos
- navegação
- diplomacia
- comércio
- política cortesã
- cruzadas
- imperialismo
- colonialismo
- islão
- cristianismo
- especiarias
- escravatura
Eventos
- Primeira viagem de Vasco da Gama à Índia
- Descoberta do Cabo da Boa Esperança
- Tratado de Alcáçovas-Toledo
- Tratado de Tordesilhas
- Descobrimento do Brasil
- Circum-navegação de Magalhães
Guerras e conflitos
- Cruzadas
- Conflito com o Islão
Livros citados
- Os Lusíadas