Nº 25712 de junho de 202440:25efeméride
Luís de Camões, o grande historiador de Portugal
A propósito dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões (1524-2024) e do Dia de Portugal (10 de junho), Rui Ramos defende que Camões foi não apenas um grande poeta, mas o principal historiador de Portugal. Através d'Os Lusíadas, Camões fixou os episódios memoráveis da história portuguesa, estruturou a narrativa nacional em torno de dois momentos fundacionais (D. Afonso Henriques e D. João I) e conferiu à história de Portugal uma dimensão universal e providencialista.
Ideias principais
- Os Lusíadas foram o livro mais lido e editado em Portugal desde o século XVI (cerca de 100 edições até ao século XIX), moldando a memória histórica coletiva mais do que qualquer obra de historiografia.
- Camões estruturou a história de Portugal em torno de dois momentos fundacionais: a fundação do reino por D. Afonso Henriques (século XII) e a refundação por D. João I (séculos XIV-XV), criando uma narrativa hierarquizada em vez de uma mera cronologia.
- O poeta fixou em versos memoráveis os episódios mais célebres da história portuguesa (Egas Moniz, Inês de Castro, Aljubarrota, etc.), que passaram a fazer parte da cultura escolar e erudita durante séculos.
- A dimensão universal d'Os Lusíadas apresenta a história de Portugal como história da humanidade, atribuindo aos descobrimentos portugueses um sentido providencialista de unificação do mundo entre Ocidente e Oriente.
- Camões não inventou os episódios históricos mas trabalhou sobre fontes escritas (crónicas de Fernão Lopes, Zurara, etc.) e tradições orais das famílias nobres e populares, organizando-as numa obra de extraordinária complexidade literária e erudição.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debatem o papel de Luís de Camões como historiador de Portugal, aproveitando a ocasião dos 500 anos do nascimento do poeta, cuja data tradicional é 1524, e a proximidade do 10 de junho, dia da sua morte em 1580 e posterior Dia de Portugal. A questão de partida é aparentemente paradoxal: pode um livro repleto de deuses, musas e mitologia greco-latina ser considerado uma obra de história? A resposta de Rui Ramos é afirmativa, desde que se entenda a história não apenas como investigação de arquivo, mas como aquilo que uma sociedade sabe ou julga saber do seu passado.
O historiador começa por contextualizar as fontes que Camões terá utilizado. Os Lusíadas, publicados em 1572, não contêm invenções do autor: praticamente tudo remete para crónicas escritas anteriores - como as de Fernão Lopes ou Gomes Eanes de Zurara - ou para tradições orais que circulavam nos meios nobres e populares. Os livros de linhagens medievais, compilados por José Mattoso, preservam histórias de famílias fidalgas que chegaram ao século XIX através de cantilenas e lendas recolhidas por eruditos como José Leite Vasconcelos. Camões, ele próprio nobre e homem de vasta erudição clássica, tinha acesso a este duplo fundo de memória escrita e oral.
O argumento central de Rui Ramos assenta em três contributos decisivos de Camões para a memória histórica portuguesa. O primeiro é a fixação de episódios e personagens memoráveis. Os Lusíadas concentram praticamente todos os grandes momentos da história de Portugal até ao século XVI - Egas Moniz, o Milagre de Ourique, Geraldo Sem Pavor, a Batalha do Salado, Inês de Castro, os Doze de Inglaterra, Nuno Álvares Pereira, a Batalha de Aljubarrota -, apresentando-os em versos que ficaram na memória colectiva. Tratando-se do livro continuamente mais lido e reeditado em Portugal desde o século XVI - Teófilo Braga contou cerca de cem edições -, os Lusíadas tornaram-se o principal veículo de transmissão dessas histórias, primeiro entre os eruditos e depois, a partir do século XIX, através das escolas.
O segundo contributo é estrutural. Camões não tratou todos os reis com igual atenção: concentrou a maior parte dos versos dos cantos terceiro e quarto em dois reinados, o de D. Afonso Henriques e o de D. João I. Com esta escolha, impôs uma hierarquia narrativa à história de Portugal - um momento de fundação no século XII e um momento de refundação no século XIV e XV -, sublinhando a autonomia do reino face a Castela e o arranque da expansão ultramarina. Seguindo a análise de Jorge de Sena, Rui Ramos defende que esta estrutura camoniana acabou por moldar a própria historiografia posterior, orientando o interesse dos investigadores precisamente para esses dois períodos. Expressões como «a ínclita geração» passaram para os livros de história sem necessidade de citar a fonte, tamanha era a familiaridade dos leitores com os Lusíadas.
O terceiro contributo é filosófico e universal. A viagem de Vasco da Gama serve a Camões para dar à história de Portugal uma dimensão cósmica: os portugueses são os agentes de uma transformação do mundo, ao ligar o Ocidente ao Oriente. A intriga dos deuses - recurso literário herdado da Eneida - amplifica este significado, pois até as divindades se reúnem para debater o que aquela viagem vai mudar. No canto décimo, a ninfa Tétis revela a Vasco da Gama a «grande máquina do mundo», sugerindo que a história de Portugal não é apenas a história de um povo pequeno, mas parte de um desígnio universal. É este providencialismo que permite aos portugueses, segundo Rui Ramos, relacionarem-se com o seu passado não apenas com orgulho, mas com um sentido de justificação da própria existência colectiva - ainda que a voz do Velho do Restelo introduza uma nota de dúvida e de crítica que os próprios Lusíadas não silenciam.
Personagens
- Luís de Camões
- Vasco da Gama
- Frei António Brandão
- Alexandre Herculano
- José Mattoso
- Jorge de Sena
- Fernão Lopes
- Gomes Eanes de Zurara
- José Leite de Vasconcelos
- Viriato
- D. Afonso Henriques
- D. Manuel I
- D. João I
- Egas Moniz
- Geraldo Sem Pavor
- Inês de Castro
- Nuno Álvares Pereira
- D. Fernando
- D. Dinis
- D. Sebastião
- Infante D. Henrique
- Infante D. Pedro
- Infante D. Fernando
- D. Duarte
- Francisco de Almeida
- Afonso de Albuquerque
- Damião de Góis
- João de Barros
- Teófilo Braga
- António Ferreira
Lugares/Países
- Portugal
- Índia
- Taprobana
- Europa
- Moçambique
- Melinde
- Castela
- Ceuta
- Tânger
- Norte de África
- Alentejo
- Algarve
- Coimbra
- Lisboa
- Oriente
- Península Ibérica
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- século XII
- século XIV
- século XV
- Idade Média
- 1580
Temas
- literatura
- história
- historiografia
- poesia épica
- memória coletiva
- expansão marítima
- descobrimentos
- identidade nacional
- mitologia greco-latina
- educação
- nobreza
- tradição oral
- erudição
- reconquista cristã
Eventos
- Batalha de Ourique
- conquista de Lisboa
- Batalha de Aljubarrota
- conquista de Ceuta
- viagem de Vasco da Gama à Índia
- Batalha do Salado
- Doze de Inglaterra
- Batalha de Alcácer Quibir
- 10 de junho
Guerras e conflitos
- Reconquista cristã
- invasão mourisca da Península Ibérica
Livros citados
- Os Lusíadas
- Décadas da Ásia
- Eneida
- Crónica de D. João I
- livros de linhagens