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11 de agosto de 202652:53efeméride

Marcello Caetano nasceu há 120 anos: quem foi ele?

O episódio analisa a figura de Marcello Caetano nos 120 anos do seu nascimento, explorando o seu papel como segundo homem do Estado Novo e sucessor de Salazar. Discute-se a sua tentativa de modernizar o regime entre 1968 e 1974, equilibrando pressões reformistas e conservadoras, e avalia-se se uma transição democrática gradual seria possível. O programa examina o seu legado contraditório: reformista em políticas sociais e económicas, mas incapaz de resolver os problemas estruturais da ditadura e da guerra colonial.

Ideias principais

  1. Marcello Caetano representou uma geração diferente de Salazar, mais urbana e europeizada, mas manteve uma lealdade ambígua ao regime que ajudou a fundar nos anos 30.
  2. O seu governo (1968-1974) promoveu reformas sociais profundas — expansão do ensino, Segurança Social, bases do SNS — mas recusou a democratização plena por ver a democracia como problema e não como solução.
  3. Caetano tentou manter um equilíbrio impossível entre conservadores e reformistas, procurando não perder o controlo da situação, o que o levou a desagradar a ambos os campos.
  4. Sondagens de 1978 mostram que 50% dos portugueses consideravam o governo Caetano o melhor dos últimos 50 anos, sobretudo nas classes populares que beneficiaram da prosperidade económica e do Estado Social.
  5. Ao contrário da visão comum, Caetano tentou negociar o fim da guerra colonial com movimentos independentistas, mas demasiado tarde e sem conseguir evitar o golpe militar de 1974.

Resumo do episódio

Este episódio de «E o Resto é História» é dedicado a Marcello Caetano, por ocasião do 120.º aniversário do seu nascimento, a 17 de agosto de 1906. A conversa parte de um comentário enviado por um ouvinte que interroga se Caetano não será um dos políticos mais incompreendidos da história contemporânea portuguesa — um homem preso entre tempos, de perfil intelectual, bloqueado por lealdades e estruturas que não controlava inteiramente. Rui Ramos e João Miguel Tavares tomam essa sugestão como fio condutor e procuram reconstituir a trajectória e o significado histórico da figura.

Os apresentadores começam por contextualizar a enorme transformação que Portugal atravessou entre os anos 50 e o início dos anos 70: industrialização, urbanização, integração europeia através da EFTA, emigração em massa para a Europa Ocidental e uma revolução cultural e de costumes que afectou todo o continente. Neste quadro, argumentam que a tensão entre a realidade social e o regime não foi vivida apenas por Caetano, mas por praticamente todos os actores políticos do período, tanto salazaristas como opositores. O Estado Novo de 1932 e o Estado Novo de 1970 eram, nas suas palavras, realidades profundamente distintas.

O retrato biográfico de Caetano sublinha a diferença geracional e de formação em relação a Salazar. Nascido em Lisboa numa família modesta, filho de um funcionário da alfândega, Caetano era um homem da capital, da Faculdade de Direito de Lisboa, casado e com filhos — tudo em contraste com o perfil monástico e provinciano de Salazar. Desde muito jovem revelou um percurso fulminante: assessor jurídico do Ministério das Finanças aos 23 anos, um dos autores da Constituição de 1933, ministro das Colónias em 1944, e, em 1955, ministro da Presidência, ou seja, o número dois do governo. Ao longo dos anos foi construindo uma densa rede de discípulos e contactos que atravessava várias sensibilidades políticas, incluindo figuras da oposição como António Sérgio, e alunos que se tornariam líderes da democracia, entre os quais Mário Soares, Álvaro Cunhal, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral.

A relação com Salazar foi sempre ambivalente e progressivamente conflituosa. Caetano acreditava que o Estado Novo podia tornar-se um regime popular sem depender da repressão, apostava no desenvolvimento económico acelerado e discordava da ortodoxia financeira dos seus colegas de governo. A partir de 1958, Salazar afastou-o do executivo, e entre 1962 e 1968, após a demissão da reitoria da Universidade de Lisboa em protesto contra a repressão da greve académica, Caetano viveu numa espécie de oposição interna ao regime. Quando substituiu Salazar em setembro de 1968, após o acidente cerebrovascular deste, chegou carregado de expectativas de renovação que ele próprio alimentou, nomeadamente com as «conversas em família» na televisão e com uma maior tolerância face a publicações e associações como o Expresso e a SEDES.

O núcleo da análise dos apresentadores centra-se na natureza das hesitações e limitações do período marcelista. Rui Ramos argumenta que a prioridade de Caetano não era tanto reformar o regime como não perder o controlo da situação — o que o obrigava a manter permanentemente o equilíbrio entre as várias facções do Estado Novo, nunca se comprometendo definitivamente com nenhuma delas. Tanto a independência das colónias como a democratização eram para ele problemas a gerir com cautela, e não soluções a abraçar com convicção. Ele não era um democrata no sentido de acreditar que a democracia resolve os problemas; via nela, sobretudo, riscos de perda de controlo. A partir de 1972-1973, com a desconfiança crescente dos militares, a inflação e a crise do petróleo, esse equilíbrio tornou-se insustentável, e o golpe de 25 de Abril de 1974 apanhou-o sem margem de manobra.

Personagens

  • Marcello Caetano
  • António de Oliveira Salazar
  • Américo Tomás
  • João de Barros
  • Henrique de Barros
  • Santos Costa
  • Pinto Barbosa
  • Mário Soares
  • Humberto Delgado
  • Henrique Galvão
  • Franco Nogueira
  • António Alçada Baptista
  • António Ferro
  • António Sérgio
  • Craveiro Lopes
  • Botelho Moniz
  • Veiga Simão
  • Baltazar Rebelo de Sousa
  • Spínola
  • Kaúza de Arriaga
  • Jorge Jardim
  • Salgueiro Maia
  • Álvaro Cunhal
  • Francisco Sá Carneiro
  • Diogo Freitas do Amaral
  • Mário Bacalhau
  • Thomas Bruno
  • Cavaco Silva
  • António Guterres
  • Vasco Pulido Valente
  • Maria João Avillez

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Inglaterra
  • Alemanha
  • Espanha
  • África
  • Angola
  • Moçambique
  • Brasil
  • Europa Ocidental
  • Europa Oriental

Épocas

  • Estado Novo
  • século XX
  • anos 30
  • anos 40
  • anos 50
  • anos 60
  • anos 70
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • pós-guerra

Temas

  • ditadura
  • política
  • colonialismo
  • guerra
  • democracia
  • transição política
  • educação
  • economia
  • desenvolvimento
  • Estado Social
  • censura
  • repressão
  • integração europeia

Eventos

  • 25 de Abril de 1974
  • Golpe Botelho Moniz
  • greve académica de 1962
  • crise do petróleo de 1973
  • revolução de 1974

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial
  • guerra em África

Livros citados

  • Conversas com Marcelo Caetano (António Alçada Baptista)
  • Conversas com Salazar (António Ferro)
  • Depoimento (Marcello Caetano)
  • Minhas Memórias de Salazar (Marcello Caetano)