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Nº 23510 de janeiro de 20241h12efeméride

Marinha Grande: uma revolta contra o Estado Novo

Análise historiográfica da Revolta da Marinha Grande de 18 de janeiro de 1934, inicialmente planeada como greve geral nacional contra a legislação corporativista do Estado Novo. Rui Ramos desmonta o mito criado em torno do episódio, mostrando como a repressão preventiva do regime frustrou a insurreição, que envolveu apenas dezenas de activistas. O episódio explora como tanto o Estado Novo como o PCP instrumentalizaram este acontecimento menor para fins propagandísticos, criando uma narrativa que não corresponde à realidade histórica documentada.

Ideias principais

  1. A revolta de 18 de janeiro de 1934 foi planeada como golpe conjunto entre a esquerda republicana militar e sindicalistas (anarquistas, socialistas e comunistas), inspirado pela revolução cubana de Fulgêncio Batista em agosto de 1933.
  2. A repressão preventiva do Estado Novo, através de prisões antecipadas e presença policial ostensiva, desarticulou o movimento antes que pudesse ganhar dimensão, resultando em acções violentas de apenas dezenas de activistas em vez de greves massivas.
  3. Na Marinha Grande, cerca de 200 participantes ocuparam o posto da GNR durante apenas uma hora, sem resistência significativa ou adesão da população operária (menos de 4% faltou ao trabalho), contrariando a narrativa mitológica posterior.
  4. Tanto o Estado Novo como o PCP tiveram interesse em exagerar o acontecimento: o regime para justificar repressão e apresentar a oposição como extremista violenta, o PCP para reivindicar protagonismo na resistência antifascista e controlar a memória sindical.
  5. O historiador revela que greves pacíficas e totais ocorreram em Sines, Silves e Almada, mas foram deliberadamente ocultadas pela censura e ignoradas pela oposição, que valorizava a narrativa de violência revolucionária acima dos sucessos reais de mobilização popular.

Resumo do episódio

A Revolta da Marinha Grande, ocorrida a 18 de janeiro de 1934, é o tema deste episódio de "E o Resto é História". Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma questão aparentemente simples - o que aconteceu realmente naquele dia? - para desmontar décadas de mitificação política e recuperar o que os documentos históricos efectivamente permitem afirmar. A principal referência do episódio é o livro *Sindicatos contra Salazar*, da historiadora Fátima Patriarca, publicado em 2000 e hoje esgotado, que Rui Ramos considera uma das obras de história contemporânea mais importantes publicadas em Portugal nas últimas cinco décadas.

Para situar os acontecimentos, os apresentadores explicam o contexto em que eclodiu a revolta. Em 1933, Salazar consolidou o Estado Novo através de uma nova Constituição e de legislação que extinguia os sindicatos independentes, substituindo-os por sindicatos nacionais corporativos, e que eliminava o direito à greve. Este projeto corporativista ameaçava diretamente o movimento sindical existente, dominado sobretudo por anarquistas, mas também por socialistas e comunistas. O sindicalismo de inspiração anarquista, predominante em Portugal e em Espanha por contraste com o sindicalismo reformista do norte da Europa, tinha uma longa tradição de confronto violento com as autoridades, incluindo sabotagens, bombismo e greves turbulentas durante a Primeira República. Em 1934, este movimento enfrentava uma escolha existencial: render-se à corporativização ou resistir.

A resistência acabou por assumir a forma de uma tentativa de greve geral revolucionária, coordenada, de forma precária e desconfiante, com o chamado reviralho - a esquerda republicana de orientação militar - que planeava aproveitar a agitação sindical para desencadear um golpe contra o regime. O modelo inspirador era a revolução cubana de agosto de 1933, em que a pressão popular levara o exército a depor a ditadura vigente. Porém, o plano foi sendo sistematicamente desmontado antes de arrancar: a PIDE prendeu figuras-chave da conspiração militar e sindical, as prisões preventivas tornaram-se a norma do novo regime, e a coordenação entre as várias correntes - anarquistas, socialistas, comunistas e republicanos - revelou-se extremamente frágil. Quando chegou a noite de 17 para 18 de janeiro, os que efectivamente saíram à rua eram sobretudo ativistas experientes, os chamados "revolucionários profissionais", contados às dezenas.

Na Marinha Grande, uma pequena localidade do distrito de Leiria com cerca de dois mil operários vidreiros, um grupo de algumas centenas de pessoas assaltou o posto da GNR local e ocupou a estação telegráfica, sem disparar um tiro. As forças de Leiria chegaram pela manhã, os revoltosos dispersaram rapidamente e, às oito horas, as autoridades já controlavam a vila. Nunca chegou a haver greve: as fábricas não abriram por ordem das autoridades, mas reabriram no dia seguinte, e menos de quatro por cento dos operários faltaram ao trabalho. Os processados judicialmente foram apenas 44 pessoas. Noutros pontos do país, como Sines, Silves e Almada, houve greves pacíficas com ampla adesão popular - mas sem violência e, por isso, sem repressão dramática e sem visibilidade mediática.

A razão pela qual a revolta ficou associada exclusivamente à Marinha Grande é, ela própria, o argumento central do episódio. O Estado Novo tinha interesse em apresentar a oposição como terrorismo comunista, legitimando assim a repressão e simplificando a sua narrativa de ordem contra o caos. O Partido Comunista, por seu lado, apropriou-se da Marinha Grande como prova da sua vanguarda revolucionária, apagando anarquistas, socialistas e republicanos da memória do evento. Nos anos sessenta, grupos marxistas-leninistas em rutura com o PCP recuperaram e amplificaram essa mitologia, inventando um soviete, uma bandeira vermelha hasteada e uma resistência heroica que os documentos não confirmam. Após o 25 de Abril, o PCP voltou a instrumentalizar a Marinha Grande em plena disputa pela unicidade sindical. O resultado foi uma memória histórica completamente deformada por décadas de propaganda proveniente de vários quadrantes, que coube aos historiadores - nomeadamente a Fátima Patriarca - desmontar camada a camada.

Personagens

  • Fátima Patriarca
  • Salazar
  • Óscar Carmona
  • Pedro Teotónio Pereira
  • Fernando Martins
  • Mário Castelhano
  • Sarmento de Beires
  • Carlos de Vilhena
  • Ribeiro de Carvalho
  • Vicente de Freitas
  • Fulgêncio Batista
  • Fidel Castro
  • José Gregório
  • Álvaro Cunhal
  • Marcelo Caetano

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Cuba
  • Alemanha
  • Inglaterra
  • União Soviética
  • Itália

Épocas

  • Estado Novo
  • Primeira República
  • Ditadura Militar (1926-1933)
  • Primeira Guerra Mundial
  • década de 1920
  • década de 1930
  • década de 1960
  • pós-25 de Abril

Temas

  • sindicalismo
  • anarquismo
  • comunismo
  • corporativismo
  • repressão política
  • greves
  • revolução
  • terrorismo
  • violência política
  • censura
  • movimento operário
  • ditadura
  • resistência

Eventos

  • Revolta da Marinha Grande
  • 28 de Maio de 1926
  • Constituição de 1933
  • 18 de Janeiro de 1934
  • Revolução de Fevereiro de 1927
  • Revolução de 1931
  • 25 de Abril de 1974

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial

Livros recomendados

  • Sindicatos contra Salazar, a revolta de 18 de janeiro de 1934

Livros citados

  • Sindicatos contra Salazar, a revolta de 18 de janeiro de 1934