Nº 36216 de junho de 2026resposta a ouvintes
Mocidade Portuguesa: “Lá vamos, cantando e rindo”
O episódio explora a criação e funcionamento da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa em 1936, organizações paramilitares emblemáticas do Estado Novo. Rui Ramos analisa como Salazar, apesar de criar estas organizações aparentemente fascistas, as manteve sempre sob apertado controlo do Estado, das Forças Armadas e da Igreja, evitando que desenvolvessem autonomia ou poder próprio. O episódio demonstra que, ao contrário dos fascismos italiano e alemão, o Estado Novo português nunca apostou em verdadeira mobilização de massas.
Ideias principais
- A Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa foram criadas em 1936, no contexto da Guerra Civil de Espanha, como resposta ao medo do comunismo, mas Salazar demorou anos a criá-las por desconfiança de organizações autónomas.
- Salazar reprimiu o movimento Nacional-Sindicalista de Rolão Preto em 1934, apesar de este ser genuinamente fascista, porque não tolerava organizações que pudessem escapar ao seu controlo directo, mostrando que preferia o poder centralizado a mobilizações de massa.
- Ao contrário das SA e SS alemãs, a Legião Portuguesa nunca teve armas próprias nem autonomia militar — estava subordinada às Forças Armadas e ao governo, funcionando mais como milícia simbólica do que força real.
- A Mocidade Portuguesa nunca enquadrou toda a juventude portuguesa, sendo obrigatória apenas no sistema escolar e existindo sobretudo em meio urbano e liceias, provavelmente nunca ultrapassando metade dos jovens, e enfrentou concorrência das organizações católicas como os Escuteiros.
- Marcelo Caetano, como comissário nacional da Mocidade Portuguesa nos anos 40, transformou-a numa escola de quadros para formar a elite política do regime, de onde saíram muitos dos chamados liberais do marcelismo, incluindo Baltazar Rebelo de Sousa.
Resumo do episódio
Este episódio de "E o Resto é História" foi dedicado à Mocidade Portuguesa e à Legião Portuguesa, duas organizações paramilitares criadas em 1936 no âmbito do Estado Novo, por ocasião do nonagésimo aniversário da fundação da primeira. Rui Ramos e João Miguel Tavares procuram explicar o que eram estas organizações, como funcionavam, quem recrutavam e de que forma se distinguiam das congéneres fascistas europeias.
Para perceber o surgimento destas organizações, os apresentadores recuam ao início do regime. Rui Ramos sublinha que Salazar resistiu durante anos à criação de milícias ou movimentos de massas, por desconfiar de qualquer força organizada capaz de escapar ao seu controlo. O confronto com o movimento nacional sindicalista de Rolão Preto é paradigmático: apesar de superficialmente semelhante ao fascismo italiano e alemão, com camisas azuis, saudações romanas e distúrbios de rua, este movimento foi proibido em 1934, precisamente porque representava uma dinâmica autónoma que Salazar não estava disposto a tolerar. O mesmo destino teve a Ação Escolar Vanguarda, criada para disputar terreno ao nacional sindicalismo nas escolas e rapidamente abandonada quando a ameaça desapareceu.
O que muda em 1936 é o contexto internacional. A vitória da Frente Popular nas eleições espanholas de fevereiro e o início da Guerra Civil em julho criaram a percepção de que Portugal poderia ficar cercado por forças hostis. É neste clima de alarme anticomunista que o ministro da Educação Carneiro Pacheco cria a Mocidade Portuguesa, em maio, e que o governo institui a Legião Portuguesa em setembro, após um grande comício no Campo Pequeno em que essa milícia foi exigida pelos apoiantes do regime. A Mocidade destinava-se a rapazes entre os sete e os catorze anos integrados no sistema de ensino, com actividades aos sábados - marchas, saudações à bandeira, desporto e instrução paramilitar - e uma farda de calças castanhas e camisa verde escura com o famoso cinto com a letra S, que oficialmente significava "servir" mas que toda a gente associava a Salazar. Em 1937 foi criada a Mocidade Portuguesa Feminina, orientada para o canto coral e os serviços sociais, sem componente militar, e cuja primeira comissária nacional foi a deputada Maria Guardiola.
Rui Ramos insiste numa distinção fundamental: ao contrário do que sucedia nos regimes fascistas, estas organizações dependiam do Estado e não de um partido, e estavam permanentemente tuteladas pelas Forças Armadas e, no caso da Mocidade, também pela Igreja Católica. A Legião não tinha armamento próprio - quando queria instrução com armas, deslocava-se aos quartéis. O cardeal patriarca Gonçalves Cerejeira recusou dissolver os escuteiros e impôs uma direcção religiosa à Mocidade Portuguesa. Em 1940, Marcelo Caetano tornou-se comissário nacional e reorientou a organização no sentido de uma escola de quadros, procurando seleccionar e formar as futuras elites do regime, o que viria a revelar-se eficaz: muitos dos chamados "marcelistas" dos anos sessenta e setenta, como Baltazar Rebelo de Sousa, vinham dessa escola.
Quanto à abrangência real, os apresentadores são cautelosos. A obrigatoriedade existia apenas onde as organizações existiam, e uma parte considerável da juventude portuguesa, sobretudo a que não frequentava o ensino, ficava de fora. Havia ainda isenções para quem tivesse influências. A Legião Portuguesa chegou a ter mais de cinquenta mil filiados em 1939, mas o número caiu a partir de 1943, quando ficou claro que os aliados iriam vencer a Segunda Guerra Mundial e a moda do fascismo começou a dissipar-se. Ambas as organizações sobreviveram até 1974, embora progressivamente esvaziadas: a Mocidade deixou de ter instrução militar em 1966 e de ser obrigatória em 1970.
Personagens
- Salazar
- Rolão Preto
- Humberto Delgado
- Carmona
- Cardeal Cerejeira
- Pedro Teotónio Pereira
- Carneiro Pacheco
- Maria Guardiola
- Francisco José Nobre Guedes
- Marcelo Caetano
- Manuel Rocha
- João Pinto da Costa Leite
- Namorado Aguiar
- Heinrich Himmler
- Hitler
- Franco
- Henrique Tenreiro
- Baltazar Rebelo de Sousa
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Manuel Braga da Cruz
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Itália
- Alemanha
- Hungria
- Roménia
- União Soviética
Épocas
- Estado Novo
- Primeira República
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de Espanha
- Ditadura Militar (1926-1933)
- Guerra Colonial
- anos 30
- anos 40
- anos 50
- anos 60
Temas
- fascismo
- organizações paramilitares
- juventude e educação
- corporativismo
- anticomunismo
- Igreja Católica
- militarismo
- propaganda política
- controlo social
Eventos
- Criação da Mocidade Portuguesa (1936)
- Criação da Legião Portuguesa (1936)
- Golpe de 28 de Maio de 1926
- Constituição de 1933
- Proibição do Nacional-Sindicalismo (1934)
- 25 de Abril de 1974
- Comício do Campo Pequeno (1936)
- Campanha de Humberto Delgado (1958)
- Ataque alemão à União Soviética (1941)
Guerras e conflitos
- Guerra Civil de Espanha
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial
Livros citados
- O Partido e o Estado no Salazarismo (Manuel Braga da Cruz)