Nº 29105 de fevereiro de 20251h09análise histórica
Morte aos fascistas: o cerco do Palácio de Cristal
O episódio analisa os primeiros congressos dos partidos portugueses após o 25 de Abril, entre novembro de 1974 e janeiro de 1975, num período de confronto entre forças políticas e militares. Destaca-se o cerco violento ao congresso do CDS no Palácio de Cristal pelo extrema-esquerda, as disputas internas no PS e PPD, e a estratégia do PCP de controlar a transição democrática através da manipulação de militares e outros partidos.
Ideias principais
- Os partidos políticos portugueses foram criados de cima para baixo após o 25 de Abril, com apoio e legitimação directa das autoridades militares, que lhes ofereceram sedes, acesso aos media e protecção selectiva.
- Álvaro Cunhal adoptou uma estratégia de moderação aparente no congresso do PCP de Outubro de 1974, recusando nacionalizações radicais e tentando cooptar PS e PPD numa frente antifascista dominada pelos comunistas.
- Mário Soares venceu a batalha interna no PS contra a corrente pró-PCP de Manuel Serra, tornando o Partido Socialista no principal partido de resistência à influência comunista em 1975, enquanto Sá Carneiro ficou fragilizado no PPD.
- O cerco violento ao congresso do CDS no Palácio de Cristal, tolerado pelas autoridades militares, demonstrou a intimidação sistemática aos partidos não-alinhados com o PCP e foi travado apenas pela pressão diplomática europeia.
- A lei dos partidos e a lei eleitoral de Novembro de 1974 criaram um sistema que favorecia poucos partidos disciplinados e centralizados, reservando exclusivamente aos partidos a representação política e impedindo candidaturas individuais, numa reacção contra o caos partidário da Primeira República.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* debruça-se sobre os primeiros congressos dos partidos políticos portugueses, realizados entre o final de 1974 e o início de 1975, explorando o contexto em que nasceram os partidos que ainda hoje estruturam a democracia portuguesa. A pergunta de partida é simples mas reveladora: como é que estes partidos surgiram e se afirmaram num país sem tradição partidária legal e em plena turbulência revolucionária?
Rui Ramos começa por explicar que, à data do 25 de Abril de 1974, não existiam partidos no sentido moderno do termo. O que havia eram pequenas organizações clandestinas de oposição - o PCP, o PS recém-fundado, e vários grupos de extrema-esquerda -, além de personalidades públicas críticas do regime, como Francisco Sá Carneiro e os chamados liberais, e figuras mais discretas ligadas a Diogo Freitas do Amaral. No total, estas estruturas somavam algumas centenas, talvez uns poucos milhares de militantes. Logo após a revolução, os militares do MFA começaram a receber e a legitimar estas figuras, convidando-as para o governo provisório e para o Conselho de Estado, e cedendo-lhes instalações do Estado Novo - sedes da Legião Portuguesa, câmaras municipais, sindicatos - como base logística. A lei dos partidos e a lei eleitoral, publicadas em novembro de 1974, consolidaram este arranjo, reservando a representação política exclusivamente aos partidos legalizados e dotando as suas direcções nacionais de um poder centralizado sobre as listas eleitorais, à semelhança do que ainda hoje vigora.
O primeiro congresso relevante foi o do PCP, em outubro de 1974. Álvaro Cunhal surpreendeu os seus camaradas com uma linha de moderação táctica: propôs colaboração com os militares e com os outros partidos, evitou pedir reformas radicais imediatas e chegou mesmo a retirar do programa comunista a referência à "ditadura do proletariado". Os apresentadores explicam esta contenção por três razões: a União Soviética não queria um Portugal comunista que perturbasse a distensão com os Estados Unidos; Cunhal desconfiava da solidez da esquerda militar; e as informações que chegavam do norte do país indicavam um ambiente profundamente anticomunista que poderia traduzir-se em maus resultados eleitorais. A moderação era, contudo, uma táctica para conquistar o poder pelos bastidores, manipulando militares e enquadrando os outros partidos numa frente política dominada pelo PCP.
Os congressos do PS e do PPD, em dezembro de 1974, foram palco desta mesma manobra. Em ambos surgiram correntes favoráveis ao frentismo com o PCP - Manuel Serra no PS, Jorge Sá Borges no PPD. No PS, Mário Soares triunfou, apoiado por Manuel Alegre e, paradoxalmente, por um grupo mais moderado liderado por Francisco Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente, que lhe permitiu posicionar-se ao centro. A saída de Manuel Serra do partido após a derrota consolidou a liderança de Soares e tornou o PS no principal partido de resistência ao PCP ao longo de 1975. No PPD, porém, Francisco Sá Carneiro, fragilizado pela proximidade com Spínola e gravemente doente durante o congresso, ficou em minoria na Comissão Política, o que limitou a sua margem de acção durante meses.
O congresso mais dramático foi o do CDS, marcado para 25 de janeiro de 1975 no Palácio de Cristal, no Porto - a cidade escolhida precisamente porque a sede lisboeta do partido já havia sido saqueada e incendiada. Durante doze horas, cerca de setecentos congressistas ficaram cercados por milhares de manifestantes de extrema-esquerda que exigiam a morte aos "fascistas". As autoridades militares mantiveram-se passivas. O que salvou os congressistas foi a presença de representantes estrangeiros da União Europeia da Democracia Cristã, cujos governos de origem - Bélgica, Holanda, Alemanha Ocidental, Itália - exerceram pressão diplomática imediata sobre Lisboa. Mário Soares também interveio pessoalmente junto das autoridades. O congresso formal acabou por realizar-se clandestinamente em fevereiro, com apenas 82 delegados.
Personagens
- Freitas do Amaral
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Francisco Sá Carneiro
- Francisco Pinto Balsemão
- Magalhães Mota
- António Spínola
- Vasco Gonçalves
- Carlos Brito
- Jorge Sá Borges
- Manuel Serra
- Manuel Alegre
- Francisco Sousa Tavares
- Vasco Pulido Valente
- Santiago Carrillo
- Felipe González
- Gonçalo Ribeiro Teles
- Francisco Pereira de Moura
- Adelino Amaro da Costa
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Mikhail Suslov
- Leonid Brezhnev
- Salgado Zenha
Lugares/Países
- Portugal
- União Soviética
- Espanha
- França
- Brasil
- Itália
- Alemanha
- Bélgica
- Holanda
- Estados Unidos
Épocas
- Estado Novo
- Revolução de 25 de Abril
- Primeira República
- Monarquia Constitucional
- 1974-1975
Temas
- Revolução
- Democracia
- Partidos políticos
- Ditadura
- Eleições
- Clandestinidade
- Comunismo
- Socialismo
- Extrema-esquerda
- Democracia cristã
- Violência política
- Descolonização
- Militares
- Sindicalismo
- Autarquias
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- 28 de Setembro de 1974
- 11 de Março de 1975
- Cerco do Palácio de Cristal
- Congresso da Oposição Democrática de Aveiro
- Congresso dos Liberais
- Revolta de Beja
- Eleições de 25 de Abril de 1975
Guerras e conflitos
- Guerra colonial
Livros citados
- Os Sete Fogos de Álvaro Cunhal