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Nº 22929 de novembro de 20231h00análise histórica

Napoleão: a realidade pouco tem a ver com o filme

Análise crítica do filme 'Napoleão' de Ridley Scott e discussão aprofundada sobre a figura histórica de Napoleão Bonaparte. O episódio contrasta a representação cinematográfica, considerada falhada e desinteressante, com a realidade histórica de um jovem militar corso que, aproveitando a instabilidade da Revolução Francesa, se tornou imperador e transformou a Europa através de guerras, reformas institucionais e uma ambição sem precedentes. Os apresentadores exploram as origens, ascensão, governação e legado de Napoleão, questionando o que o tornou único e como a guerra foi central à sua legitimidade política.

Ideias principais

  1. O filme de Ridley Scott falha ao apresentar Napoleão como uma figura taciturna e sem carisma, omitindo a energia juvenil, o brilho intelectual e a capacidade de comunicação que explicam historicamente a sua ascensão meteórica ao poder.
  2. Napoleão não veio do nada: era de uma antiga família aristocrática corsa, estudou nas melhores escolas militares francesas e era um leitor voraz e escritor prolífico, com um imaginário político construído sobre figuras como Alexandre o Grande, Júlio César e George Washington.
  3. A legitimidade de Napoleão assentava na vitória militar constante: ao contrário das dinastias tradicionais ou da legitimidade eleitoral moderna, ele tinha de provar continuamente a sua capacidade através de sucessos bélicos, o que explica o frenesim das guerras napoleónicas.
  4. Napoleão foi simultaneamente herdeiro e traidor da Revolução Francesa: manteve instituições como o Código Civil e a igualdade perante a lei, mas submeteu-as a uma ditadura militar pessoal, criando o protótipo do Estado Liberal do século XIX dentro de um quadro autoritário.
  5. A relação de Napoleão com a guerra coloca-o num mundo mental estranho ao nosso: para ele a guerra era um meio legítimo de fazer política, uma perspetiva que o aproxima de figuras como Hitler e Stalin, embora sem a dimensão totalitária e genocida destes regimes do século XX.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem da estreia do filme *Napoleão*, de Ridley Scott, protagonizado por Joaquin Phoenix, para fazer aquilo que o próprio filme, na sua opinião, não consegue: explicar quem foi verdadeiramente Napoleão Bonaparte, porque se distinguiu de todos os outros e porque a sua figura continua a fascinar mais de dois séculos depois. Os dois apresentadores são críticos implacáveis do resultado cinematográfico, considerando-o uma sucessão de quadros sem ligação narrativa, com atores demasiado velhos para personagens que eram, na realidade, extraordinariamente jovens, e com um Joaquin Phoenix que representa Napoleão como um homem taciturno e sem carisma - precisamente o contrário do que os contemporâneos descreveram.

O ponto de partida histórico é a origem de Napoleão. Contrariamente ao slogan promocional do filme, ele não veio do nada: era membro de uma antiga família aristocrática italiana estabelecida na Córsega, estudou nas escolas militares de elite em França e era um leitor e escritor voraz, profundamente moldado pelos modelos da Antiguidade Clássica - Alexandre o Grande, Júlio César, mas também George Washington. É esse imaginário literário e histórico que alimenta a sua ambição desde muito jovem. O contexto que o torna possível é a Revolução Francesa de 1789 e as guerras que se lhe seguem, que criam um enorme vazio de poder e abrem lugares que, antes, estariam reservados às antigas dinastias. Napoleão não está sozinho neste processo: pertence a uma geração de jovens militares e políticos que aproveitam esse vazio, e governa rodeado de um clã familiar que espalha pelo mapa da Europa - o que os apresentadores descrevem como um regime de nepotismo sistemático, onde irmãos se tornam reis da Holanda ou de Espanha e marechais de origem humilde chegam a príncipes e duques.

Rui Ramos sublinha que o segredo da ascensão de Napoleão reside na conjugação de vários factores: uma capacidade de trabalho extraordinária, talento militar genuíno como oficial de artilharia, domínio da comunicação e da imprensa, e uma imprevisibilidade no campo de batalha que tornava os adversários incapazes de antecipar os seus movimentos. O Duque de Wellington chegou a calcular que Napoleão valia, por si só, quarenta mil homens a mais para qualquer exército que comandasse. A sua legitimidade assentava nas vitórias militares - sem as guerras napoleónicas, não existia Napoleão - e foi precisamente quando as vitórias escassearam que os colaboradores o foram abandonando, algo que ele próprio dizia compreender, em Santa Helena, com uma lucidez desencantada.

Os apresentadores discutem também o projecto político de Napoleão: uma tentativa de conciliação entre o antigo regime e a revolução, que mantinha as instituições representativas e a igualdade perante a lei, mas as submetia a um imperador e a uma nova dinastia. Casou com uma princesa Habsburgo para legitimar a sua linhagem, assinou uma concordata com a Igreja, e criou um sistema de educação centralizado destinado a formar uma nova elite. Nesse sentido, é visto como precursor do Estado liberal do século XIX e, em certa medida, da própria ideia europeia - Napoleão sonhava com uma Europa de leis comuns, moeda comum e livre circulação, unida sob a hegemonia francesa. Contudo, os apresentadores não deixam de assinalar o lado sombrio desta visão: a guerra como instrumento legítimo de fazer política, a indiferença pelo custo humano das campanhas e um Estado autoritário e policial que contradizia os valores iluministas que dizia defender.

O episódio termina com uma reflexão sobre o legado e a dificuldade de julgar Napoleão. Foi simultaneamente um modernizador e um déspota, um visionário europeu e um conquistador que devastou o continente. Os apresentadores lamentam que o filme de Ridley Scott tenha desperdiçado a oportunidade de explorar estas tensões, preferindo uma espectacularidade vazia. Recomendam, em alternativa, o primeiro filme do próprio Scott, *The Duelists* (1977), como um retrato muito mais revelador do espírito e da época napoleónica do que o grande épico que o realizador acaba de produzir com duzentos milhões de dólares.

Personagens

  • Napoleão Bonaparte
  • Ridley Scott
  • Joaquin Phoenix
  • Maria Antonieta
  • George Washington
  • Júlio César
  • César Bórgia
  • Alexandre o Grande
  • Simón Bolívar
  • Stendhal
  • Luís XIV
  • Luís XVI
  • Robespierre
  • Augustin Robespierre
  • Josefina de Beauharnais
  • Paul Barras
  • Alexandre I da Rússia
  • Duque de Wellington
  • Talleyrand
  • Letícia Bonaparte
  • José Bonaparte
  • Luís Napoleão
  • Bernadotte
  • Nelson
  • Hitler
  • Stalin
  • Eisenstein
  • Sofia Coppola
  • Harvey Keitel
  • Davout

Lugares/Países

  • França
  • Egito
  • Síria
  • Gaza
  • Estados Unidos
  • Itália
  • Córcega
  • Toulon
  • Paris
  • Rússia
  • Áustria
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Portugal
  • Península Ibérica
  • Holanda
  • Suécia
  • Prússia
  • Europa
  • América Latina
  • Versalhes
  • Santa Helena
  • Ilha de Elba

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • fim do século XVIII
  • princípio do século XIX
  • Antiguidade Clássica
  • Império Romano
  • século XVI
  • anos 70 e 80
  • década de 70

Temas

  • guerra
  • política
  • revolução
  • império
  • ditadura militar
  • cinema
  • literatura
  • história
  • educação
  • direito
  • religião
  • nepotismo
  • ascensão social
  • comunicação política
  • propaganda

Eventos

  • Revolução Francesa
  • execução de Maria Antonieta
  • cerco de Toulon
  • campanha de Itália
  • expedição ao Egito
  • golpe de Estado de 1799
  • coroação de Napoleão
  • invasão da Rússia
  • campanha de 1813-1814
  • batalha de Waterloo
  • batalha de Austerlitz
  • batalha de Trafalgar
  • Concordata de 1801
  • bloqueio continental
  • Terror
  • Diretório
  • Consulado
  • Primeiro Império
  • Segundo Império
  • restauração da monarquia

Guerras e conflitos

  • guerras napoleónicas
  • guerras da Revolução Francesa
  • invasões napoleónicas
  • invasão da Rússia de 1812
  • campanha da Rússia

Livros citados

  • Le Rouge et le Noir
  • Comentários de César
  • memórias de Santa Helena