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Nº 30514 de maio de 202543:57efeméride

Niceia: o concílio que fundou o cristianismo

O episódio celebra os 1700 anos do Concílio de Niceia (325 d.C.), o primeiro concílio ecuménico da história da Igreja, convocado pelo imperador Constantino. O concílio estabeleceu o credo trinitário, definindo Jesus como consubstancial a Deus Pai, rejeitou o arianismo, fixou a data da Páscoa e criou os primeiros cânones eclesiásticos. Rui Ramos argumenta que Constantino não fundou o catolicismo romano, pois este desenvolveu-se posteriormente no Ocidente com os papas, enquanto Niceia representou um cristianismo oriental mais ligado ao poder imperial.

Ideias principais

  1. O Concílio de Niceia não foi uma imposição imperial do cristianismo, mas antes o cristianismo pode ter-se imposto aos imperadores, sendo já cerca de 10% da população do Império e possivelmente o maior movimento religioso coeso no início do século IV.
  2. A doutrina trinitária aprovada em Niceia, defendida por Ósio de Córdoba e Atanásio de Alexandria contra o arianismo de Arius, não foi imediatamente aceite e os próprios imperadores após Constantino foram arianos, só sendo oficialmente estabelecida em 380 por Teodósio.
  3. O cristianismo oriental desenvolvido a partir de Niceia, ligado ao poder imperial em Constantinopla, difere substancialmente do catolicismo romano ocidental, que se desenvolveu mais tarde com base no poder papal e nas instituições monásticas, numa relação conflitual com o poder secular.
  4. O Concílio de Niceia representa um afastamento do cristianismo das suas raízes judaicas, visível na separação do cálculo da Páscoa da tradição judaica e na elaboração teológica influenciada pela filosofia helenística, reflectindo a expansão do movimento para além da diáspora judaica.
  5. A figura do Papa como supremo pontífice e sucessor dos imperadores romanos no Ocidente é um desenvolvimento medieval muito posterior a Niceia, onde o Bispo de Roma era apenas um entre vários patriarcas sem autoridade universal sobre a Igreja.

Resumo do episódio

O episódio 305 de *E o Resto é História* é dedicado ao Concílio de Niceia, realizado há exactamente 1700 anos, em 325 d.C., numa cidade que hoje pertence à Turquia. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta enviada por ouvintes - qual a importância histórica deste concílio e se é razoável considerar o imperador Constantino o verdadeiro fundador do catolicismo romano - para desenvolver uma análise detalhada do contexto político, social e doutrinário do cristianismo no início do século IV.

Os apresentadores começam por descrever um cristianismo muito diferente do que hoje conhecemos: geograficamente centrado no que hoje é o Médio Oriente - Turquia, Síria, Egipto, Palestina -, fortemente urbano e doutrinalmente dividido. Trezentos anos após Jesus, persistiam disputas fundamentais sobre a sua natureza: seria um profeta carismático dentro da tradição judaica, ou um ser divino, e em que termos? A este quadro de fragmentação somava-se a memória recente da Grande Perseguição de 303 d.C., a mais sistemática e violenta alguma vez desencadeada contra os cristãos, que deixara cicatrizes profundas na Igreja, nomeadamente a questão dos chamados *traditores* - os que entregaram as escrituras às autoridades - e a legitimidade dos sacramentos por eles administrados.

É neste contexto que Constantino surge como figura central. Rui Ramos recusa a interpretação iluminista, associada ao historiador britânico Edward Gibbon, segundo a qual o cristianismo teria sido imposto de cima para baixo pelos imperadores. Pelo contrário, defende que foi o próprio crescimento orgânico do cristianismo - talvez já o maior movimento religioso organizado do Império, com cerca de 10% da população - que terá tornado politicamente interessante para Constantino aproximar-se dele, como alternativa de coesão espiritual para um império em crise. O imperador não era cristão baptizado e nunca impôs a fé como religião única; o que fez foi subsidiar igrejas, promover cristãos nas elites e intervir como árbitro nos conflitos internos da Igreja, à semelhança do papel que o imperador romano sempre desempenhara enquanto supremo pontífice e juiz último.

O Concílio de Niceia foi convocado por Constantino para resolver precisamente uma dessas disputas doutrinárias, centrada nas teses do clérigo líbio Ário, que defendia que Jesus Cristo fora criado por Deus e lhe estava subordinado - uma posição que evitava o politeísmo mas diminuía a divindade de Cristo. Em oposição, o bispo de Córdoba, Ósio, e o jovem Atanásio de Alexandria defenderam a chamada doutrina trinitária: um Deus único em três pessoas - Pai, Filho e Espírito Santo - partilhando a mesma substância divina. Foi esta posição que prevaleceu no credo aprovado em Niceia, embora o debate não ficasse encerrado: os imperadores seguintes inclinaram-se para o arianismo, e o próprio Constantino foi baptizado, já em fim de vida, por um bispo ariano. Só em 380, com o édito do imperador Teodósio, o cristianismo de Niceia foi estabelecido como referência ortodoxa obrigatória para os cristãos do Império.

O episódio termina com uma reflexão sobre as duas tradições cristãs que emergem desta história. No Oriente, onde o imperador permaneceu poderoso, a Igreja desenvolveu-se em estreita ligação com o poder político - traço que subsiste no cristianismo ortodoxo. No Ocidente, onde a autoridade imperial se desvaneceu, a Igreja construiu uma identidade mais autónoma, frequentemente em conflito com os poderes seculares, e foi aí que o Bispo de Roma afirmou progressivamente a sua primazia, chegando a reivindicar o título imperial de supremo pontífice. Rui Ramos conclui que Constantino não fundou o catolicismo romano: esse foi um projecto das próprias autoridades eclesiásticas ocidentais, construído ao longo de séculos, num mundo que provavelmente surpreenderia o próprio imperador que convocou o concílio de 325.

Personagens

  • Jesus Cristo
  • Constantino
  • Arius
  • Ósio de Córdoba
  • Atanásio de Alexandria
  • Paulo de Tarso
  • Silvestre I
  • Edward Gibbon
  • Teodósio
  • Constâncio II
  • Juliano
  • Carlos Magno
  • Orígenes
  • São Tomás de Aquino

Lugares/Países

  • Turquia
  • Síria
  • Israel
  • Jordânia
  • Egito
  • Itália
  • França
  • Espanha
  • Alemanha
  • Líbia
  • Norte de África

Épocas

  • século IV
  • século III
  • século V
  • século VI
  • século IX
  • século XII
  • século XIII
  • século XVI
  • século XVIII
  • século XX
  • Antiguidade Clássica
  • Idade Média

Temas

  • religião
  • cristianismo
  • dogma
  • teologia
  • poder político
  • heresia
  • perseguição religiosa
  • conversão
  • imperialismo
  • evangelização

Eventos

  • Concílio de Niceia
  • Édito de Tessalónica
  • Concílio de Arles
  • Concílio de Constantinopla
  • Doação de Constantino
  • Cisma do século XI
  • Reforma Protestante

Guerras e conflitos

  • perseguição aos cristãos de 303

Livros citados

  • O Declínio e Queda do Império Romano