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Nº 13802 de março de 202245:08efeméride

Nixon na China: a viagem que mudou o mundo

Análise da histórica visita de Richard Nixon à China em fevereiro de 1972, que pôs fim a 25 anos de relações cortadas e alterou o equilíbrio geopolítico da Guerra Fria. O episódio explora como o anticomunista Nixon conseguiu aproximar-se da China de Mao, facilitando a saída americana do Vietname e isolando a União Soviética. Inclui também uma reflexão sobre a independência do Egito em 1922 e a complexidade dos protetorados coloniais.

Ideias principais

  1. A visita de Nixon à China em 1972 foi possível porque ambos os países, apesar de ideologicamente opostos, partilhavam um interesse estratégico em conter a União Soviética e porque Nixon, sendo um anticomunista feroz, estava imune a acusações de ser 'mole com o comunismo'.
  2. A cisão sino-soviética de 1963 criou uma oportunidade estratégica para os EUA, pois a China, ao contrário da URSS, não estava interessada em disputar a influência americana globalmente, apenas em questões regionais.
  3. A aproximação sino-americana lançou as bases para a integração da China na economia de mercado sob Deng Xiaoping, transformando um país pobre numa das maiores economias mundiais nas décadas seguintes.
  4. Os impérios coloniais europeus eram muito mais complexos e heterogéneos do que a narrativa simplificada de ocupação militar: incluíam protetorados, estados vassalos nominalmente independentes e diferentes graus de soberania, sendo a independência do Egito de 1922 apenas formal até 1952.
  5. Paradoxalmente, a descolonização europeia significou para muitos estados a perda da sua autonomia, como o caso de Hyderabad que resistiu militarmente à integração na Índia em 1948, resultando em 50 mil mortos.

Resumo do episódio

O episódio 138 de «E o Resto é História» debruça-se sobre dois temas históricos assinalados no mesmo período: a visita de Richard Nixon à China em fevereiro de 1972 e o centenário da declaração de independência do Egito em 1922. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram, em ambos os casos, a distância entre a aparência dos acontecimentos e o que eles significaram verdadeiramente.

A primeira parte do episódio é dedicada à visita de Nixon a Pequim, que os apresentadores consideram um dos momentos mais decisivos da segunda metade do século XX. Para perceber a sua magnitude, Rui Ramos recua ao contexto da Guerra Fria na Ásia: desde 1949, quando Mao Tse-Tung tomou o poder após a guerra civil, os Estados Unidos recusavam reconhecer a República Popular da China, mantendo Taiwan como a legítima representante da China, inclusivamente nas Nações Unidas. Esta hostilidade foi alimentada pela Guerra da Coreia e pela Guerra do Vietname, ambas interpretadas em Washington como expressões da expansão chinesa. Nixon tinha-se distinguido precisamente como um dos mais fervorosos anticomunistas americanos dos anos cinquenta, o que tornava a sua aproximação a Mao especialmente improvável e, por isso mesmo, possível: nenhum político de esquerda poderia ter dado esse passo sem ser acusado de capitular perante o comunismo.

Os apresentadores sublinham dois fatores que explicam a mudança. Por um lado, a rutura sino-soviética dos anos sessenta abriu uma brecha estratégica que Washington podia explorar: a China não tinha ambições de rivalizar com os Estados Unidos em todo o mundo, ao contrário da União Soviética. Por outro lado, Nixon precisava de sair do Vietname e a aproximação à China retirava uma das principais justificações para a presença militar americana na região. A visita foi preparada em segredo por Henry Kissinger e pelo primeiro-ministro chinês Zhou Enlai, e o próprio Mao pareceu conquistado pela franqueza pragmática de Nixon. A consequência mais duradoura foi a integração gradual da China na economia mundial, processo acelerado após a morte de Mao com Deng Xiaoping - ele próprio um protegido de Zhou Enlai - e que transformou um dos países mais pobres do século XX numa das maiores economias do século XXI.

A segunda parte do episódio aborda a independência do Egito, anunciada unilateralmente pela Grã-Bretanha em fevereiro de 1922 - mas repleta de condições que, na prática, mantinham a tutela britânica. Para contextualizar, Rui Ramos explica que os impérios europeus nunca foram estruturas homogéneas de dominação direta. Ao lado de colónias administradas diretamente, existiam protectorados em que os poderes locais mantinham governos próprios, cabendo à potência europeia apenas a representação externa e, frequentemente, o controlo financeiro e militar. O Egito é um exemplo extremo desta complexidade: no início do século XIX era nominalmente vassalo do Império Otomano, mas governado por uma dinastia albanesa; em 1875 faliu, passando ao controlo financeiro britânico; em 1882 foi militarmente ocupado; em 1914, com a entrada otomana na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha, os britânicos declararam-no reino independente do Império Otomano, mas continuaram a ocupá-lo. A declaração de 1922 não passou de mais uma camada neste edifício, pois as tropas britânicas permaneceram no Canal do Suez até à crise de 1956, quando Nasser nationalizou o canal e repeliu a tentativa de invasão anglo-francesa.

O episódio termina com uma reflexão sobre as independências asiáticas, ilustrada pelo caso de Hydérabad: este vasto Estado muçulmano, que existia como protectorado britânico dentro da Índia, viu a sua independência nominal desaparecer em 1948 quando foi militarmente anexado pela União Indiana recém-criada, num processo violento com dezenas de milhares de mortos. A moral que os apresentadores retiram é provocadora: aquilo a que chamamos colonização implicou muitas vezes o reconhecimento formal de independências locais, e aquilo a que chamamos descolonização implicou, nalguns casos, o seu fim definitivo. A história, concluem, é quase sempre mais complicada do que os rótulos sugerem.

Personagens

  • Richard Nixon
  • Mao Tsé-Tung
  • Henry Kissinger
  • Zhou Enlai
  • Chiang Kai-shek
  • Joe McCarthy
  • Dwight Eisenhower
  • John F. Kennedy
  • Lyndon Johnson
  • Nikita Khrushchev
  • Joseph Stalin
  • Hernán Cortés
  • Deng Xiaoping
  • Mohamed Ali
  • Gamal Abdel Nasser
  • Salazar
  • Margaret Macmillan

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • China
  • Taiwan
  • União Soviética
  • Coreia
  • Vietname
  • Japão
  • França
  • Grã-Bretanha
  • Egito
  • Turquia
  • Alemanha
  • Paquistão
  • Portugal
  • Índia
  • Birmânia
  • Quénia
  • Zanzibar
  • Sudão
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • Goa
  • Congo
  • Itália
  • Argélia

Épocas

  • Guerra Fria
  • século XX
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1970
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX

Temas

  • diplomacia
  • Guerra Fria
  • comunismo
  • anticomunismo
  • imperialismo
  • colonialismo
  • descolonização
  • protetorados
  • independência
  • geopolítica
  • relações internacionais

Eventos

  • Visita de Nixon à China
  • Guerra da Coreia
  • Guerra do Vietname
  • Revolução Cultural Chinesa
  • Revolução de 1952 no Egito
  • Crise do Suez
  • Macartismo
  • Pearl Harbor
  • Debate da cozinha

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Chinesa
  • Guerra da Coreia
  • Guerra do Vietname
  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra do Suez

Livros citados

  • Nixon and China