Nº 20010 de maio de 20231h02efeméride
No programa 200, o Portugal de há 200 anos
Episódio especial que recria Portugal a 10 de maio de 1823, através da análise do Diário do Governo dessa data. O país vivia uma crise múltipla: a invasão francesa de Espanha ameaçava o regime liberal português, a revolta absolutista do Conde de Amarante iniciara uma guerra civil, o Brasil perdia-se após a independência de 1822, e as finanças públicas estavam em colapso. Um retrato vívido da instabilidade política, militar e económica que caracterizou o liberalismo português nascente.
Ideias principais
- Em 1823, a França invadiu a Espanha para restaurar a autoridade absoluta de Fernando VII, ameaçando directamente o regime liberal português que tinha uma constituição similar à espanhola de 1812, baseada no poder parlamentar.
- Portugal estava simultaneamente em guerra civil, com o Conde de Amarante revoltado em Trás-os-Montes desde Fevereiro, e essa guerra civil portuguesa transferiu-se para território espanhol, onde exércitos portugueses liberais e absolutistas ocupavam cidades como Salamanca e Palencia.
- A perda do Brasil provocou uma catástrofe financeira ao Estado português, que dependia das receitas alfandegárias de Lisboa como entreposto dos produtos brasileiros, levando a um colapso das finanças públicas com despesas militares a consumir mais de metade do orçamento.
- A Inglaterra recusou defender Portugal ou Espanha contra a França, declarando que só garantia as fronteiras portuguesas, não os regimes políticos, deixando o governo liberal sem o apoio externo de que dependia totalmente.
- O episódio demonstra como a leitura de um jornal da época revela muito mais confusão e incerteza do que os livros de história organizados retrospectivamente, mostrando que os protagonistas viviam num verdadeiro 'nevoeiro da política' sem saber o que se passaria a seguir.
Resumo do episódio
Para assinalar o 200.º episódio do podcast, Rui Ramos e João Miguel Tavares decidiram recuar exactamente dois séculos e reconstituir o estado do mundo, e de Portugal em particular, através da leitura do Diário do Governo de 10 de Maio de 1823. O exercício revelou-se um espelho surpreendentemente vívido de um país e de uma Europa em convulsão.
A notícia de maior relevo na imprensa portuguesa daquele dia era internacional: o Parlamento Britânico debatia uma mediação para pôr fim à invasão francesa de Espanha, iniciada em Abril de 1823 com um exército de oitenta mil homens. Rui Ramos explicou que a intervenção foi orquestrada pelo Visconde de Chateaubriand, ministro dos Negócios Estrangeiros francês e um dos maiores escritores do seu tempo, que via na guerra uma oportunidade de conferir glória à dinastia dos Bourbons, restaurada por forças estrangeiras em 1815 e ainda marcada por esse estigma. O pretexto era libertar Fernando VII de Espanha, que os monarcas europeus consideravam prisioneiro de um governo liberal que violava o princípio da legitimidade dinástica, o mesmo pilar sobre o qual assentava toda a ordem europeia pós-napoleónica. Ao contrário do que os liberais espanhóis esperavam, a Inglaterra não interveio em sua defesa, por não ver ameaçados os seus interesses nas Américas, onde a influência espanhola já estava a desfazer-se.
Portugal acompanhava estes acontecimentos com angústia directa. O regime constitucional português, fundado numa Constituição de 1822 muito próxima da espanhola de 1812, encontrava-se na mesma posição de vulnerabilidade. O governo de Lisboa chegou a ponderar enviar oito mil soldados para combater ao lado dos espanhóis, e as Cortes chegaram mesmo a declarar que uma invasão de Espanha deveria ser considerada uma agressão directa a Portugal. A este quadro acrescentava-se uma guerra civil interna: o Conde de Amarante havia-se revoltado em Trás-os-Montes em Fevereiro de 1823, em nome de D. João VI e da religião católica, acusando as Cortes de manterem o rei como prisioneiro. Travada em Amarante a sua tentativa de avançar para o Minho, o Conde retirou para Espanha, levando consigo a guerra civil portuguesa para território espanhol, onde ambos os exércitos - o constitucional e o absolutista - ocupavam cidades castelhanas enquanto os espanhóis combatiam os franceses.
O jornal dava ainda conta da situação no Brasil. Uma embarcação chegada de Pernambuco sugeria que aquela província poderia preferir a ligação a Portugal ao novo império de D. Pedro. Os apresentadores discutiram como, naquele momento, Portugal já não ambicionava reconquistar o Brasil inteiro, mas esperava manter pelo menos as províncias do norte - uma espécie de "Guiana portuguesa" - como colónia separada, à semelhança do Canadá em relação aos Estados Unidos. Essa esperança acabaria por se dissipar ainda ao longo de 1823.
O episódio percorreu ainda temas mais domésticos do mesmo número do Diário do Governo: o conflito entre os capelistas da Baixa lisboeta e os vendedores ambulantes nas arcadas do Terreiro do Paço, expulsos por ordem da Câmara Constitucional de Lisboa; a denúncia das condições degradantes da cadeia de Alcoutim, sem luz nem condições mínimas, e a resposta da câmara local alegando falta de verbas; e os anúncios de leilões de éguas e carruagens, embrião dos futuros pequenos anúncios que viriam a sustentar financeiramente os jornais. O episódio fechou com uma reflexão sobre os preços tabelados do pão e do azeite - os dois produtos essenciais da época, um para a alimentação, o outro sobretudo para a iluminação -, e sobre o valor dessas tabelas como referência legal para o pagamento de rendas e como fonte histórica para compreender a evolução económica de longa duração.
Personagens
- D. João VI
- Luís XVIII
- Luís XVI
- Fernando VII
- Napoleão Bonaparte
- Visconde de Chateaubriand
- Duque de Angoulême
- Conde de Amarante (Manuel Silveira Pinto da Fonseca)
- D. Pedro IV
- D. Miguel
- D. Carlota Joaquina
- General Luís do Rego
- General Claudino
- General Madeira
- Cesare Beccaria
- António Sebastião de Freitas
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- França
- Inglaterra
- Brasil
- Rússia
- Prússia
- Áustria
- Estados Unidos
- Canadá
Épocas
- século XIX
- 1823
- guerras napoleónicas
- restauração europeia
- independência do Brasil
- liberalismo português
Temas
- guerra
- invasão
- liberalismo
- absolutismo
- guerra civil
- constituição
- legitimidade dinástica
- diplomacia
- colonialismo
- economia
- finanças públicas
- imprensa
- religião católica
- recrutamento militar
- corporações de ofícios
- reforma prisional
Eventos
- invasão francesa de Espanha (1823)
- revolução liberal portuguesa de 1820
- Constituição portuguesa de 1822
- Constituição espanhola de 1812
- independência do Brasil (1822)
- revolta do Conde de Amarante (1823)
- batalha de Amarante (1823)
- batalha de Waterloo
- invasão francesa de Portugal (1808)
Guerras e conflitos
- invasão francesa de Espanha (1823)
- guerra civil portuguesa (1823)
- guerras napoleónicas
- Guerra Peninsular
Livros citados
- Memórias de Além-Túmulo (Chateaubriand)