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Nº 10621 de julho de 202154:19análise histórica

Nuno Palma e as razões do atraso português

Episódio especial de aniversário sobre as causas do atraso económico português, com o economista e historiador Nuno Palma. Através de séries longas e análise contrafactual, discute-se o declínio iniciado na segunda metade do século XVIII (não pelo terramoto mas pela maldição dos recursos do ouro do Brasil e absolutismo pombalino), o papel do analfabetismo secular, e a incapacidade de convergência sustentada com a Europa ao longo dos séculos XIX e XX, incluindo sob diferentes regimes políticos.

Ideias principais

  1. O atraso português não começa com o terramoto de 1755, mas com a maldição dos recursos naturais causada pelo ouro do Brasil, que fortaleceu o absolutismo ao dispensar a reunião das cortes e enfraqueceu as instituições políticas.
  2. Portugal tinha níveis de PIB per capita e capital humano comparáveis à Europa Ocidental em finais do século XVII, mas iniciou declínio absoluto e relativo na segunda metade do século XVIII que só foi travado no século XX.
  3. A expulsão dos jesuítas por Pombal sem alternativa credível foi o 'pecado original' do atraso educativo português, com apenas 70 alunos no Colégio dos Nobres face a mais de 2000 que estudavam com os jesuítas.
  4. O Estado Novo resolveu o analfabetismo infantil (iniciado em finais dos anos 20) através de medidas pragmáticas como crucifixos nas salas e separação de géneros, conquistando a confiança dos pais rurais onde a República tinha falado.
  5. Um contrafactual provocador sugere que se Portugal tivesse tido um regime comunista até 1991, hoje poderia estar economicamente melhor devido à 'vacina' que mataria ilusões políticas persistentes, como aconteceu nos países do Leste Europeu.

Resumo do episódio

Neste episódio comemorativo do segundo aniversário do podcast, Rui Ramos e João Miguel Tavares recebem como convidado o economista Nuno Palma, professor na Universidade de Manchester e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, especialista em história económica quantitativa. A conversa centra-se nas causas do atraso económico português numa perspectiva histórica de longa duração, recorrendo a métodos e fontes que permitem medir o desempenho da economia portuguesa desde o século XVI.

A primeira questão colocada prende-se com a metodologia das chamadas "séries longas": como é possível estimar o PIB ou o analfabetismo de séculos passados, na ausência de estatísticas oficiais? Nuno Palma explica que tal é feito a partir de fontes arquivísticas - livros de contabilidade de conventos, hospitais, misericórdias e universidades - que registam preços e salários com uma regularidade que permite construir índices de inflação e calcular o poder de compra real ao longo do tempo. O analfabetismo, por sua vez, pode ser medido pela percentagem de pessoas que assinavam documentos com uma cruz em vez de uma assinatura, ou por indicadores indirectos de literacia numérica, como a tendência para arredondar a idade declarada para números terminados em zero ou cinco.

O episódio desenvolve-se depois em torno da tradição da "nova história económica", inaugurada nos Estados Unidos por Robert Fogel - que viria a ganhar o Nobel da Economia - e introduzida em Portugal nos anos 1980 por Jaime Reis. Nuno Palma defende o uso de contrafactuais como instrumento analítico indispensável, rejeitando a crítica de que estes seriam ilegítimos: quem argumenta que determinado factor "importou" está implicitamente a fazer um contrafactual. Através de exemplos concretos, como a tese de Fogel sobre a rentabilidade da escravatura americana ou a importância relativa do caminho-de-ferro, os apresentadores e o convidado discutem como o rigor quantitativo pode demolir narrativas históricas estabelecidas sem base empírica sólida.

Quanto a Portugal especificamente, Nuno Palma propõe uma interpretação centrada na maldição dos recursos naturais. O ouro do Brasil, que enriqueceu Portugal em meados do século XVIII e elevou transitoriamente o seu PIB per capita a um dos mais altos da Europa, terá ao mesmo tempo dispensado o rei de negociar com as Cortes, consolidando um poder de tipo absoluto. Este processo - análogo ao que ocorrera em Espanha cerca de 150 anos antes - destruiu as restrições institucionais ao poder executivo, abriu caminho ao absolutismo pombalino e teve consequências duradouras, nomeadamente a expulsão dos jesuítas sem uma alternativa educativa credível. O terramoto de 1755 não foi a causa do declínio, mas terá reforçado o poder de Pombal num momento em que as instituições já se deterioravam. O declínio do PIB per capita, que se tornaria em queda livre ainda antes das invasões francesas e da perda do Brasil, radica assim no colapso institucional e no atraso do capital humano.

Para o século XX, Nuno Palma propõe vários contrafactuais. Uma Primeira República prolongada teria provavelmente falhado na resolução do analfabetismo, dado o conflito cultural entre o republicanismo urbano laico e as populações rurais, que recusavam enviar os filhos para escolas percepcionadas como anticlericais. O Estado Novo, paradoxalmente, resolveu esse problema ao colocar crucifixos nas salas de aula e separar os géneros, criando condições para uma procura de escolarização que antes não existia - o que explica, segundo o convidado, o arranque do crescimento económico já nos anos 1950, antes da adesão à EFTA. Uma democracia instalada logo após a Segunda Guerra Mundial poderia ter acelerado o investimento no ensino secundário e técnico, mas é incerto que tivesse superado as taxas de crescimento efectivamente registadas. Por fim, num contrafactual mais provocatório, Nuno Palma sugere que uma vitória comunista em 1974-75, seguida de um colapso do regime por volta de 1991, teria - à semelhança do que ocorreu nos países do Leste europeu - vacinado a sociedade portuguesa contra as ilusões do colectivismo e criado condições para reformas económicas mais profundas nas décadas seguintes, ainda que ao custo de décadas de repressão e sofrimento. Os apresentadores sublinham que o bem-estar económico

Personagens

  • Nuno Palma
  • João Pedro Marques
  • António Barreto
  • Henrique Leitão
  • Jaime Reis
  • Pedro Lains
  • Robert Fogel
  • Max Weber
  • Marquês de Pombal
  • Salazar
  • Marcelo Caetano
  • Rogério Martins
  • João Salgueiro
  • António Maria da Silva
  • Afonso Costa
  • Sá Carneiro
  • Álvaro Cunhal
  • Mário Soares
  • Churchill
  • Putin

Lugares/Países

  • Portugal
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Castela
  • Brasil
  • França
  • Bélgica
  • Alemanha
  • Itália
  • Europa Ocidental
  • Europa do Leste
  • Estados Unidos da América
  • Reino Unido
  • Quénia
  • Argélia
  • Venezuela
  • Polónia
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • países bálticos

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Primeira República
  • 25 de Abril
  • PREC
  • democracia portuguesa
  • Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • pós-guerra

Temas

  • história económica
  • PIB
  • desenvolvimento económico
  • atraso português
  • séries longas
  • contrafactuais
  • educação
  • analfabetismo
  • capital humano
  • industrialização
  • urbanização
  • escravatura
  • revolução industrial
  • maldição dos recursos naturais
  • instituições políticas
  • absolutismo
  • parlamentos
  • cortes
  • convergência económica
  • capitalismo de compadrio
  • reforma agrária
  • nacionalizações
  • comunismo
  • colonialismo

Eventos

  • terramoto de 1755
  • expulsão dos jesuítas
  • invasões francesas
  • perda do Brasil
  • guerra colonial
  • revolução de 25 de Abril
  • processo dos Távoras

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra colonial
  • guerra civil americana
  • Guerra Fria

Livros citados

  • O Atraso Económico Português em Perspectiva Histórica, 1860-1913
  • Time on the Cross
  • Anatomia de uma Revolução