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Nº 19719 de abril de 20231h13análise histórica

O 25 de Abril explicado aos estudantes

Episódio gravado ao vivo nos Salesianos de Lisboa, respondendo a perguntas de estudantes sobre o 25 de Abril de 1974. Rui Ramos analisa os três grandes desafios da transição democrática: terminar a guerra colonial, construir instituições livres e plurais, e gerir a crise económica. Aborda o papel fundamental do 1.º de Maio de 1975, a relação do PCP com a União Soviética, e o significado do 25 de Novembro de 1975 na derrota da esquerda militar e consolidação da democracia.

Ideias principais

  1. O 25 de Abril não pôs fim imediato à guerra colonial: nos três meses seguintes morreram mais soldados portugueses em Angola e Moçambique do que em todo o ano de 1973, porque os movimentos independentistas intensificaram os ataques para evitar eleições e forçar a transferência direta do poder.
  2. As eleições de 25 de abril de 1975 foram as primeiras verdadeiramente livres e honestas da história de Portugal, revelando que o PCP tinha apenas 12% dos votos mas controlava o Estado através da aliança com a esquerda militar, não através de legitimidade eleitoral.
  3. O 1.º de Maio de 1975 funcionou como um referendo nas ruas, legitimando a revolução perante a opinião pública internacional e estabelecendo Mário Soares, Álvaro Cunhal e outros como principais interlocutores do Movimento das Forças Armadas.
  4. O 25 de Novembro de 1975 eliminou a esquerda militar das Forças Armadas, mas envolveu um compromisso: o PCP manteve posições nos sindicatos, empresas nacionalizadas e Alentejo em troca de não resistir ao golpe, evitando assim uma guerra civil.
  5. A revolução criou uma estrutura económica rígida (nacionalizações, congelamento de rendas, proibição de despedimentos) que levou Portugal a pedir ajuda ao FMI em 1978 e 1983, perdendo duas décadas de desenvolvimento económico até aos anos 90, apesar das conquistas fundamentais em liberdade política e sistema eleitoral.

Resumo do episódio

Neste episódio especial, gravado ao vivo nos Salesianos de Lisboa, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a perguntas elaboradas pelos próprios alunos da escola sobre o 25 de Abril e as suas consequências. O formato é incomum: em vez do diálogo habitual entre os dois apresentadores, Rui Ramos assume o papel de explicador, desenvolvendo respostas a cinco questões que cobrem desde os desafios imediatos da transição democrática até ao impacto económico duradouro da revolução.

A primeira pergunta, sobre os principais desafios da construção da democracia, permite a Rui Ramos estruturar uma resposta em três eixos. O primeiro foi acabar com a guerra colonial, que envolvia quase 170 000 homens em Angola, Moçambique e Guiné: numa democracia, a contestação à guerra seria inevitável, e o reconhecimento internacional do novo regime dependia do fim das hostilidades. O segundo desafio foi criar instituições democráticas genuínas - partidos, imprensa livre, recenseamento eleitoral universal -, algo sem tradição sólida em Portugal, onde mesmo antes da ditadura as eleições eram amplamente consideradas fraudulentas. O terceiro foi económico: Portugal saía de um ciclo de forte crescimento, mas a crise do petróleo de 1973 tinha já alterado o contexto europeu, criando expectativas que as novas circunstâncias dificilmente poderiam satisfazer.

Sobre o primeiro 1.º de Maio livre, os apresentadores sublinham que a grande manifestação de 1975 no estádio de Lisboa funcionou como uma espécie de referendo popular ao golpe militar, conferindo-lhe uma legitimidade que a operação de 25 de Abril, protagonizada por apenas dois a três mil militares, não podia por si só garantir. Foi também nessa ocasião que figuras como Mário Soares e Álvaro Cunhal se afirmaram como interlocutores privilegiados do Movimento das Forças Armadas. Quanto à guerra colonial, Rui Ramos esclarece que, longe de terminar no dia 25 de Abril, ela intensificou-se nos meses seguintes: os movimentos independentistas aproveitaram a desorientação das tropas portuguesas para pressionar o novo governo a entregar-lhes o poder diretamente, sem passar por eleições. Os cessar-fogos foram sendo assinados progressivamente ao longo de 1974, enquanto nos territórios africanos os conflitos entre facções prosseguiram durante décadas.

A pergunta sobre a relação entre o Partido Comunista Português e a União Soviética dá azo a uma análise matizada. Rui Ramos observa que o PCP era, no contexto ocidental, o partido comunista mais fiel a Moscovo - o único que apoiara a invasão da Checoslováquia em 1968 -, mas que a União Soviética, empenhada na coexistência pacífica e a necessitar de investimento e tecnologia ocidentais, não tinha necessariamente interesse numa tomada de poder comunista num país da NATO. A relação permanece, neste aspecto, parcialmente por estudar.

O 25 de Novembro de 1975 é apresentado como o momento em que se inverteu o predomínio da esquerda militar. As eleições de abril de 1975 tinham revelado que cerca de 80% dos portugueses votavam em partidos favoráveis a uma democracia pluralista de tipo ocidental, mas o PCP e a extrema-esquerda controlavam estruturas militares decisivas, nomeadamente o COPCON. O movimento liderado pelo coronel Jaime Neves e pelo general Lianes eliminou esse poder militar de esquerda, em troca de garantias ao PCP: manutenção da legalidade partidária e conservação de posições nos sindicatos, nas autarquias do sul e nas empresas nacionalizadas. Este compromisso evitou uma guerra civil, mas prolongou a transição para uma democracia e uma economia de mercado plenas até aos anos 1980 e 1989, respectivamente.

Personagens

  • António Spínola
  • Costa Gomes
  • Mário Soares
  • Álvaro Cunhal
  • Francisco Pereira de Moura
  • Vasco Gonçalves
  • Otelo Saraiva de Carvalho
  • Jaime Neves

Lugares/Países

  • Portugal
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné-Bissau
  • Cabo Verde
  • União Soviética
  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Espanha
  • Checoslováquia
  • Estados Unidos
  • Reino Unido
  • Algarve
  • Setúbal
  • Lisboa
  • Porto
  • Braga
  • Viseu
  • Évora
  • Alentejo

Épocas

  • Estado Novo
  • 25 de Abril de 1974
  • PREC (1974-1975)
  • Monarquia Constitucional
  • Primeira República
  • Guerra Colonial
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80

Temas

  • revolução
  • democracia
  • descolonização
  • guerra colonial
  • economia
  • partidos políticos
  • militares
  • censura
  • ditadura
  • nacionalizações
  • reforma agrária
  • inflação
  • eleições
  • liberdade de expressão
  • comunismo
  • socialismo

Eventos

  • 25 de Abril de 1974
  • 1 de Maio de 1975
  • 25 de Novembro de 1975
  • Eleições de 25 de abril de 1975
  • Invasão da Checoslováquia (1968)
  • Crise do Petróleo (1973)
  • Revisão Constitucional de 1982
  • Revisão Constitucional de 1989

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial
  • Guerra do Ultramar
  • Guerra de Angola
  • Guerra Civil de Angola
  • Guerra do Vietname
  • Primeira Guerra Mundial