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Nº 18708 de fevereiro de 202351:10efeméride

O ano em que Fevereiro só teve 15 dias (na Grécia)

O episódio celebra o centenário da adoção do calendário gregoriano pela Grécia em 1923, explorando a história dos calendários juliano e gregoriano e o seu significado político e religioso. A segunda parte analisa a queda de Bettino Craxi e do sistema partidário italiano na década de 1990, através da Operação Mãos Limpas e do fim da Guerra Fria, demonstrando que não foi apenas a corrupção mas também o desaparecimento do Partido Comunista Italiano que destruiu a Primeira República Italiana.

Ideias principais

  1. A adoção de um calendário nunca é inocente: define não apenas a organização do tempo mas também o sentido político e religioso de uma sociedade, como mostram os revolucionários franceses ao criarem um novo calendário em 1792.
  2. Portugal foi dos primeiros países a adotar o calendário gregoriano em 1582, mas foi dos últimos a adotar a contagem dos anos desde o nascimento de Cristo, mantendo a Era de César (38 a.C.) até 1422.
  3. A corrupção sistémica na Itália dos anos 1980-90 não era apenas enriquecimento pessoal mas um mecanismo de governo necessário para manter coesa uma classe política fragmentada em múltiplas fações através do financiamento ilegal dos partidos.
  4. O fim do Partido Comunista Italiano em 1991 foi tão ou mais decisivo para o colapso do sistema partidário italiano do que a Operação Mãos Limpas, porque destruiu a lógica da Guerra Fria que mantinha unidos os partidos anticomunistas.
  5. A ascensão de Silvio Berlusconi em 1994, o próprio homem de confiança de Craxi, demonstra que a corrupção não estigmatizou definitivamente a velha classe política italiana, sugerindo que foram as mudanças geopolíticas as verdadeiras responsáveis pela transformação do sistema.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas distintos. O primeiro, apresentado por João Miguel Tavares, parte de um facto curioso: em 1923, o mês de fevereiro teve apenas 15 dias na Grécia, porque o país passou nesse ano do calendário juliano para o gregoriano, saltando directamente do dia 15 de Fevereiro para o dia 1 de Março. A Grécia foi o último país europeu a fazer esta transição. A partir deste episódio, os apresentadores desenvolvem uma reflexão mais ampla sobre a natureza dos calendários ao longo da história.

Rui Ramos explica que um calendário nunca é uma convenção neutra: reflecte sempre uma visão do tempo e, por extensão, uma concepção política e religiosa do mundo. Os romanos contavam os anos a partir da fundação de Roma, os cristãos a partir do nascimento de Cristo, os muçulmanos a partir da Hégia, e os revolucionários franceses criaram até um calendário inteiramente novo em 1792, com novos nomes para os meses e semanas de dez dias, para simbolizar o corte radical com o passado. Esta lógica de «começar do zero» é também a que explica o milenarismo cristão e as profecias numéricas do tipo Nostradamus. Por contraste, os japoneses adoptaram um sistema cíclico, reiniciando a contagem a cada novo reinado imperial.

O episódio esclarece ainda que o calendário gregoriano, decretado pelo Papa Gregório XIII em 1582 através da bula *Inter Gravissimas*, corrigiu um desfasamento acumulado face ao ano solar real - apenas 11 minutos por ano, mas suficientes para distorcer o cálculo da Páscoa ao longo dos séculos. Os países católicos, como Portugal e Espanha, adoptaram a reforma imediatamente em 1582; os países protestantes, como a Inglaterra, só o fizeram em 1752; e os ortodoxos apenas no século XX, com a Bulgária em 1916, a Rússia em 1918, e a Grécia em 1923. Curiosamente, o Japão, a China e o Império Otomano já tinham adoptado o calendário gregoriano antes da Grécia.

O episódio inclui ainda uma nota sobre a história da datação em Portugal: até 1422, os portugueses usavam a chamada Era de César, cuja contagem começava no ano 38 a.C., e não no nascimento de Cristo. A mudança chegou tarde à Península Ibérica - primeiro à Catalunha em 1350, depois a Castela em 1382 e finalmente a Portugal em 1422, por ordem régia. Paradoxalmente, Portugal foi dos primeiros a adoptar o calendário gregoriano em 1582, mas dos últimos a abandonar a Era de César. O episódio termina com uma curiosidade linguística: o português é a única língua latina que nomeia os dias da semana com numerais - segunda, terça, quarta, quinta-feira -, tradição atribuída à influência de São Martinho de Dume, bispo de Braga no século VI, originário do leste da Europa.

O segundo tema do episódio, tratado na parte final, é a queda de Bettino Craxi e o colapso do sistema partidário italiano nos anos 1990. Os apresentadores contextualizam a Itália da Guerra Fria como um campo de batalha entre a Democracia Cristã, financiada pelos Estados Unidos, e o Partido Comunista Italiano, o maior da Europa Ocidental com cerca de dois milhões de militantes. Craxi, líder do Partido Socialista Italiano desde 1976, tornou-se Primeiro-Ministro em 1983 aproveitando as divisões internas da Democracia Cristã, apesar de o seu partido ter apenas 11% dos votos. A corrupção generalizada, que servia para financiar os partidos e disciplinar as suas facções, veio à tona em 1992 com a Operação Mãos Limpas, impulsionada por uma magistratura galvanizada pela luta contra a máfia. Craxi demitiu-se da liderança do partido em Fevereiro de 1993 e fugiu para a Tunísia para evitar a prisão. Contudo, Rui Ramos argumenta que a corrupção não foi a causa única do colapso: o fim da União Soviética em 1991 e a autodissolução do Partido Comunista Italiano retiraram a razão de ser ao sistema partidário anti-comunista que a Democracia Cristã encabeçava há décadas. A ascensão de Silvio Berlusconi em 1994 - ele próprio ligado ao antigo sistema - confirma que o colapso

Personagens

  • Júlio César
  • Papa Gregório XIII
  • Dionísio Pequeno
  • Imperador Tiberio
  • Imperador Augusto
  • Imperador Akihito
  • Imperador Naruhito
  • Nostradamus
  • Bandarra
  • São Martinho de Dume
  • Bettino Craxi
  • Mário Soares
  • Giulio Andreotti
  • Enrico Berlinguer
  • François Mitterrand
  • Helmut Schmidt
  • Felipe González
  • Giovanni Falcone
  • Paolo Borsellino
  • Silvio Berlusconi
  • António Di Pietro
  • Aldo Moro
  • General de Gaulle
  • Filipe II de Espanha

Lugares/Países

  • Grécia
  • Roma
  • Portugal
  • Itália
  • França
  • Espanha
  • Inglaterra
  • Suécia
  • Polónia
  • Lituânia
  • Bulgária
  • Rússia
  • Roménia
  • Jugoslávia
  • Japão
  • China
  • Império Otomano
  • Hungria
  • Catalunha
  • Castela
  • União Soviética
  • Tunísia
  • Alemanha
  • Afeganistão
  • Brasil

Épocas

  • 46 a.C.
  • século XVI
  • 1582
  • século VI
  • século IV
  • século XV
  • ano 1000
  • Idade Média
  • século XVIII
  • Revolução Francesa
  • 1792
  • 1793
  • 1794
  • década de 1950
  • década de 1960
  • década de 1970
  • década de 1980
  • década de 1990
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • 1948-1989

Temas

  • calendário
  • religião
  • astronomia
  • política
  • corrupção
  • cristianismo
  • ortodoxia
  • catolicismo
  • comunismo
  • socialismo
  • Guerra Fria
  • economia
  • máfia
  • justiça
  • financiamento partidário
  • reformas políticas

Eventos

  • adoção do calendário gregoriano
  • Revolução Francesa
  • Operação Mãos Limpas
  • queda do muro de Berlim
  • fim da União Soviética
  • invasão soviética da Hungria
  • invasão do Afeganistão
  • milagre económico italiano
  • compromisso histórico
  • 25 de Abril
  • Eurocomunismo

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria