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Nº 24014 de fevereiro de 20241h00análise histórica

“O Arquipélago Gulag”: um livro que mudou o mundo

Análise da obra 'O Arquipélago Gulag' de Alexander Solzhenitsyn, publicada no Ocidente em 1974, que revolucionou a percepção sobre o sistema repressivo soviético. O episódio aborda a vida de Solzhenitsyn, desde a sua prisão nos campos de concentração até ao exílio, e explica como a obra demonstrou que o terror comunista começou com Lenin, não com Stalin, mudando radicalmente o debate intelectual sobre o comunismo na Europa Ocidental.

Ideias principais

  1. O Arquipélago Gulag demonstrou que o sistema de campos de concentração foi criado por Lenin em 1917 e não foi uma aberração de Stalin, destruindo o mito do 'stalinismo' como desvio do comunismo original.
  2. Os campos de concentração soviéticos não serviam primariamente para reprimir oposição política, mas para atomizar a sociedade através do medo e fornecer trabalho escravo ao regime económico ineficiente.
  3. A publicação do livro em 1974 provocou uma rotura geracional na intelectualidade de esquerda ocidental, levando ex-comunistas e ex-maoístas a abandonarem o marxismo pela primeira vez, originando o movimento dos 'Novos Filósofos' em França.
  4. Solzhenitsyn sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, oito anos de campos de concentração, cancro, tentativas de assassinato e vigilância constante do KGB, desenvolvendo uma memória excecional que lhe permitiu escrever obras inteiras mentalmente.
  5. A publicação do Arquipélago Gulag na União Soviética em 1989 por Gorbachev, embora prova da sua boa-fé reformista, contribuiu paradoxalmente para o fim do regime ao destruir a legitimidade da ideia comunista desde as suas origens.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre *O Arquipélago Gulag*, de Alexander Solzhenitsyn, assinalando os cinquenta anos da sua publicação em francês e inglês, em 1974. O ponto de partida é a pergunta sobre o que tornou este livro tão extraordinário - não apenas pelo seu conteúdo, mas também pela história da sua escrita clandestina e da sua chegada ao Ocidente.

Os apresentadores recordam a biografia de Solzhenitsyn, nascido em 1918, que em fevereiro de 1945, sendo capitão do Exército Vermelho na Prússia Oriental, foi preso por comentários críticos feitos numa carta privada a um amigo. Condenado por propaganda e organização antissovié­ticas, cumpriu oito anos nos campos de concentração, onde sobreviveu também a um cancro diagnosticado em 1952. Esta acumulação de provações - a guerra, os campos, a doença - deu-lhe uma convicção quase religiosa de que a sua missão era testemunhar o horror do comunismo, tendo inclusivamente abandonado o ateísmo e convertido ao cristianismo durante o cativeiro.

Com a ascensão de Khrushchev e a denúncia dos crimes de Stalin em 1956, Solzhenitsyn viu publicada em 1962, na própria União Soviética, a novela *Um Dia na Vida de Ivan Denisovich*, tornando-se numa estrela literária internacional. Contudo, a queda de Khrushchev em 1964 e a chegada de Brezhnev ao poder silenciaram-no: a partir daí não publica mais nada no país, embora continue a escrever intensamente e a fazer passar manuscritos para o Ocidente através de diplomatas e visitantes. Para evitar que o KGB apreendesse o manuscrito do *Arquipélago Gulag* - composto sobretudo entre 1964 e 1967, baseado em cerca de duzentos depoimentos de antigos prisioneiros e em investigação nos arquivos de imprensa e legislação soviética -, Solzhenitsyn distribuiu cópias pelos amigos, nunca tendo o texto completo à sua frente. A capacidade de trabalhar assim foi treinada nos campos, onde desenvolveu uma prodigiosa memória capaz de reter poemas inteiros escritos apenas mentalmente.

A publicação foi precipitada por uma tragédia: em agosto de 1973, o KGB prendeu e torturou uma amiga de Solzhenitsyn em Leninegrado, Elisaveta Voronianskaya, que acabou por revelar o esconderijo da sua cópia. Julgando ser a única cópia existente e convencida de que o livro seria destruído e Solzhenitsyn preso ou morto, ela suicidou-se dias depois. Perante isto, Solzhenitsyn ordenou a publicação imediata no Ocidente. O primeiro volume saiu em russo em Paris a 28 de dezembro de 1973, esgotando em semanas, e as traduções francesas e inglesas seguiram-se na primavera e no verão de 1974. Em fevereiro desse mesmo ano, o regime soviético, incapaz de prender ou matar o escritor mais conhecido do mundo sem provocar um escândalo internacional, optou por expulsá-lo para a Alemanha Ocidental, privando-o da cidadania soviética.

O impacto do livro foi imenso e transformador. Rui Ramos explica que a novidade do *Arquipélago Gulag* não residia apenas na denúncia dos campos - já se sabia da sua existência -, mas na tese central de que o sistema concentracionário não nascera com Stalin, mas com Lenin, sendo uma consequência lógica do próprio projeto comunista e não uma aberração. O Gulag servia dois propósitos: atomizar a sociedade pelo medo, destruindo os laços sociais, e fornecer mão de obra escrava a uma economia incapaz de funcionar de outro modo. Esta interpretação tornou impossível a narrativa do "stalinismo" como desvio corrigível, demolindo o argumento que os partidos comunistas ocidentais usavam desde os anos cinquenta para preservar a credibilidade da União Soviética. Em França, onde o livro vendeu um milhão de exemplares em seis meses, teve um efeito catalisador na geração maoísta pós-1968, levando ex-militantes da extrema-esquerda, como André Glucksmann, a uma rutura com o comunismo em si - origem do movimento dos Novos Filósofos em 1977-1978. A publicação do livro na própria União Soviética, em 1989, como

Personagens

  • Alexander Solzhenitsyn
  • Vladimir Lenin
  • Joseph Stalin
  • Nikita Khrushchev
  • Leonid Brezhnev
  • Mikhail Gorbachev
  • Boris Pasternak
  • Andrei Sakharov
  • Mstislav Rostropovich
  • Elisaveta Voronianskaya
  • Yuri Andropov
  • André Glucksmann
  • Bernard-Henri Lévy
  • Raymond Aron
  • Jean Daniel
  • Mikhail Bulgakov
  • Mao Tsé-Tung
  • Leon Trotsky
  • Vladimir Putin
  • António Pescada
  • Francisco Ferreira
  • Anna Applebaum

Lugares/Países

  • União Soviética
  • Rússia
  • França
  • Inglaterra
  • Estados Unidos
  • Alemanha
  • Itália
  • Portugal
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • China
  • Cazaquistão
  • Prússia Oriental
  • Ucrânia
  • Espanha
  • Grã-Bretanha

Épocas

  • século XX
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1970
  • maio de 1968
  • Primeira Guerra Mundial

Temas

  • totalitarismo
  • repressão política
  • campos de concentração
  • trabalho escravo
  • censura
  • dissidência
  • literatura
  • exílio
  • comunismo
  • marxismo
  • direitos humanos
  • liberdade de expressão
  • intelectualidade

Eventos

  • Revolução Russa de 1917
  • Prémio Nobel da Literatura 1970
  • expulsão de Solzhenitsyn 1974
  • Congresso do Partido Comunista 1956
  • invasão da Hungria 1956
  • invasão da Checoslováquia 1968
  • queda da União Soviética
  • détente

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial

Livros recomendados

  • O Arquipélago Gulag

Livros citados

  • O Arquipélago Gulag
  • Um Dia na Vida de Ivan Denisovich
  • O Primeiro Círculo
  • O Pavilhão dos Cancerosos
  • Agosto de 1914
  • O Carvalho e o Zerro
  • Novembro de 1916
  • Março de 1917
  • Abril de 1917
  • A Cozinheira e o Devorador de Homens
  • O Mestre e a Margarida
  • Gulag: A History